Ora bem, então poupando mais de meia equipa (Quim, Maxi, Coentrão, Aimar, Saviola e Cardozo), utilizando uma dupla de avançados que se estreava a titular, e a jogar durante alguns períodos quase em ritmo de treino, ainda assim deu para espetarmos quatro na patética equipa da lagartagem. E ainda assim, para o jogo que vimos, até podemos dizer que podiam ter sido mais. Foi uma abada dentro e fora do campo também, onde os seis mil benfiquistas presentes no Alvalixo praticamente silenciaram os macambúzios lagartos que se atreveram a sair de casa esta noite.
Depois de me escapar à tradicional organização apalhaçada da polícia nos nossos jogos no Alvalixo, que impediu que uma série de adeptos pudesse entrar no estádio antes do jogo começar, assim que entrei deu para ver a razão pela qual o sportém se recusou a ceder-nos os 30% de bilhetes. Os lugares estavam obviamente reservados para os amigos imaginários do Cabeça de Cotonete, para os piolhos da barba do Dias Ferreira, e para as namoradas do Salema, o que acabou por conferir um efeito colorido e interessante às secções dos adeptos da lagartagem, efeito esse comummente designado por 'às moscas'. O sportém apresentou-se com uma formação coerente com a mentalidade do Cientista que orienta a sua equipa, com dois trincos e deixando o Liedson sozinho na frente, jogando em 4-2-3-1 (e julgo que o Cientista até se deve ter sentido desolado por estar a arriscar assim tanto ao colocar um avançado em campo). O Benfica, conforme referido, deixou seis dos titulares de fora. Nos seus lugares surgiram o Júlio César na baliza, Amorim na direita da defesa e Peixoto na esquerda, Carlos Martins no lugar do Aimar, e a frente de ataque foi constituída pelo Éder Luís e pelo Alan Kardec.
Mal o jogo tinha começado, e já o Di María, que começou na direita, andava a fazer gato-sapato do patético Grimi. Aos cinco minutos, o João Pereira estava a ser posto na rua, depois de uma entrada animal às pernas do Ramires.
- NEM SEQUER LHE TOCOU! NÃO FOI FALTA NENHUMA!
Ao ouvir isto, voltei-me para trás e descobri que estava numa noite de sorte. O destino tinha-me proporcionado a experiência sociológica extremamente interessante de ter um lagarto empedernido sentado no camarote mesmo atrás de mim. Era uma oportunidade única de observar o lagarto no seu habitat natural, e a partir desse momento passei a prestar a máxima atenção aos comentários sábios e impregnados de saber futebolístico deste espécime de pedigree puro. Entretanto, na linha lateral, o Salema exibia a sua indignação, e também orgulhosamente um cachecol que ilustrava o resultado prático das aulas de croché e macramé avançado que tem frequentado. Aos sete minutos (foi preciso esperar dois minutos para marcar o respectivo livre, já que primeiro o João Pereira teve que sair do campo debaixo dos aplausos da lagartagem, que entoava em coro o seu nome - estranha forma de vida, esta de ser lagarto), na sequência do livre, marcámos. O Carlos Martins apontou o livre para o interior da área, onde apareceu o David Luiz, marcado pelo 'Senhor seis milhões e meio' (conhecido entre os adeptos do At.Madrid por 'Sinalma-Singol') a cabecear imparavelmente para o fundo da baliza.
- FORA-DE-JOGO!! - comentário vindo do sítio esperado (eu escrevo em maiúsculas porque o personagem parecia ser incapaz de comunicar sem ser aos berros). A televisão ali colocada mostra a repetição, onde obviamente não se vê fora-de-jogo de espécie alguma. Mas o homem não se dá por vencido:
- FALTA!!! É FALTA!!
Mas ninguém quis saber das suas opiniões, e o Benfica ficou mesmo na frente do marcador. Na linha lateral o Salema, muito agitado, tentava incentivar a equipa, parecendo tão natural nesse papel quanto um cangalheiro a tentar incentivar uma interpretação espontânea do 'Walking on Sunshine' pelos presentes num velório (se calhar se prometesse aos jogadores que, caso eles corressem mais e jogassem melhor, ele deixaria de dormir com eles, teria mais sucesso). A partir do primeiro golo, o Benfica limitou-se a fazer aquilo que habitualmente se designa por 'dar baile'. O sportém mal conseguia cheirar a bola, e ficava quase sempre remetido ao seu meio campo, enquanto que nós a fazíamos circular pelos pés dos nossos jogadores, e mostrávamos que o segundo golo era apenas uma questão de tempo (o lagarto nesta altura limitava-se a gritar 'CARTÃO' de cada vez que era assinalada falta a um jogador do Benfica). Surpresa era apenas que estivesse a demorar tanto tempo a aparecer. O Cientista também deve ter achado isto estranho, e resolveu intervir, mostrando toda a sua sapiência no campo da ciência do desporto. O Adrien, com maior ou menor dificuldade, ia dando conta do recado na direita, mas o Cientista resolveu substituí-lo pelo campeão nacional de arremesso de medalha, ídolo efémero da lagartagem durante uma semana o ano passado. Quatro minutos depois (sobre a meia-hora de jogo), o César Peixoto passou por ele como quis, centrou tenso, e à boca da baliza o Ramires fez o segundo golo.
Para quem via o jogo, começava a perspectivar-se uma goleada, talvez até de contornos históricos. Aliás, isto era visível mesmo para alguma lagartagem, já que depois deste segundo golo houve vários que se levantaram e começaram a abandonar o estádio. Só que estranhamente, depois do golo a nossa equipa deixou-se adormecer numa estranha sobranceria. O futebol colectivo desapareceu, passámos a apostar em futebol mais directo e iniciativas individuais, e o sportém, que estava praticamente a ir ao tapete, conseguiu voltar a respirar. Até porque, a meio desse período de menor concentração da nossa parte, o inevitável Liedson conseguiu inventar um golo numa iniciativa individual em que correu praticamente metade do campo sozinho (aproveitando um mau passe atrasado do Ramires), terminando com um remate rasteiro muito colocado, que entrou junto ao poste. O remate não foi muito forte e foi desferido ainda de longe, e isso deixou alguma sensação de que poderia haver algumas culpas do Júlio César no lance, mas na minha opinião o remate foi mesmo muito colocado e entrou pelo buraco da agulha. Este golo deu ainda mais ânimo ao sportém, e até ao intervalo os nossos adversários tiveram o seu melhor período no jogo - o que quer dizer que conseguiram fazer um ou dois remates dignos desse nome, e terem a bola em seu poder mais de 30% do tempo (e deu ainda para ouvir um grito de 'PENÁLTE! É PENÁLTE!' da parte do lagarto quando o Liedson se atirou contra as costas do Luisão). Ao intervalo, a crescente influência do Salema no sportém voltou a mostrar-se, quando no meio das cheerleaders da Carlsberg surgiu um gajo todo contente a dançar e a fazer piruetas ainda mais acrobáticas que as do Liedson quando se atira para o chão.
Na segunda parte, a tesão do sportém durou pouco mais de cinco minutos. Acabou com um remate do Liedson às malhas laterais da baliza, e a partir daí voltou o baile. Foi mais uma vez o sportém remetido ao seu meio campo, e a bola quase sempre nos pés dos nossos jogadores. E portanto, mais uma vez se ficou com a sensação que seria apenas uma questão de tempo até marcarmos o terceiro golo e resolvermos de vez o jogo. E isto, diga-se, sem que o Benfica parecesse sequer estar a forçar muito, limitando-se a fazer tudo de forma muito natural. Depois de alguns ameaços e asneiras (remates quando o passe era a melhor opção, alguns excessos de individualismo) ele chegou mesmo, quando estavam decorridos pouco mais de vinte minutos. Canto do Carlos Martins (segunda assistência no jogo) e o Luisão a entrar de cabeça de forma fulgurante para o golo. E pronto, se alguém ainda tinha dúvidas, elas dissiparam-se ali. Mesmo o lagarto, que já pouco estrebuchava na segunda parte, calou-se de vez com aquele golo e não chiou mais até final (para grande pena minha).

Logo a seguir entraram os 'consagrados' Saviola, Cardozo e Aimar, para se juntarem ao baile, e a festa continuou até final. Deu para gritarmos pelo sportém, pelo Patrício, deu para se cantar 'Vão para a segunda! Olé, olé vão para a segunda!', deu para o repertório todo. O Di María ia inventando jogadas e falhando golos por pouco, e o quarto golo teimava em não surgir. Aos noventa minutos de jogo, o público benfiquista pediu em coro só mais um. Poucos minutos depois, na última jogada do encontro, o Cardozo fez-nos a vontade. E fê-lo da melhor maneira: com um golão. Descaído para a esquerda, ainda longe da área e sem opções de passe, deram-lhe demasiado espaço e ele inventou uma bomba do meio da rua que fez a bola passar sobre o Rui Patrício e só parar no fundo da baliza. Fecho com chave de ouro de um jogo em que nem sequer foi preciso sermos brilhantes o tempo todo para vencermos confortavelmente este ridículo sportém, a jogar como qualquer uma das outras inúmeras pequenas equipas já orientadas pelo Cientista jogavam.

Podia destacar vários jogadores. Um deles o Di María. Sim, podem-me dizer que foi demasiado individualista em alguns lances (e foi-o), que falhou golos (e falhou; um golo foi o que faltou para coroar a sua exibição), mas caramba, um tipo destes desbarata e põe a cabeça em água a qualquer defesa, dá ao jogo as acelerações que outros não conseguem, e é um perigo constante. Muito, muito bom jogo do César Peixoto na esquerda. Seguro a defender, e útil a apoiar o ataque (com uma assistência). Muito bom também o jogo do Javi García, uma parede no meio campo defensivo, e um dos principais responsáveis por manter o sportém remetido ao seu meio campo. Posso também mencionar as duas assistências do Carlos Martins, ou os golos de cada um dos nossos centrais, que fizeram ambos um bom jogo. Fiquei aliás muito contente com os golos marcados pelo David Luiz e pelo Cardozo, dois dos 'réus' do empate em Setúbal. Mereceram esta felicidade depois da desilusão do fim-de-semana. Quanto aos menos inspirados, foram na minha opinião os dois avançados recém-chegados. É importante que se vão adaptando aos poucos, mas neste momento ainda mostram estar pouco integrados e não estiveram em bom plano esta noite (sobretudo o Éder Luís).
E pronto, para o mês que vem lá estaremos no Algarve para a final. Deixem passar o Maior de Portugal, o Maior de Portugal, o Maior de Portugal...
P.S.- Estive a rever a gravação do jogo, transmitido na SIC. A azia e facciosismo dos comentadores é simplesmente grotesca.
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