'A Bola' (1945 - 2010) - R.I.P.

O editorial de Vítor Serpa hoje n'A Bola' – lido na Internet, dado que 'A Bola' de Terça-Feira dia 9 de Novembro de 2010 alcançou, subitamente, a dúbia honra histórica de se tornar o último exemplar por mim adquirido - assume a natureza de um epitáfio. 'A Bola' morreu – já estava moribunda há muito – numa perspectiva objectiva e economicista, porque a prostituição a que se entregou alienou finalmente uma parte fundamental do público que lhe garante o ganha-pão; e morreu, numa perspectiva subjectiva e emocional, porque traiu todos os ideais e a memória colectiva do seu passado de tal forma que deixou, efectivamente, de ser o jornal que foi durante décadas.

O epitáfio é bizarro na sua génese, dado ser escrito pelo coveiro. E é um epitáfio que envergonha de forma canalha a memória do que foi a enterrar.

 

Já apelei diversas vezes, aqui e no programa, a que se deixasse de sustentar a grande maioria da carneirada assalariada do jornalismo desportivo, e muito especificamente os hipócritas do jornal não oficial da lagartagem, o Pasquim (Record), e os moços de recados e capangas dos andrades d'O Jogo. Não faz sentido sustentar quem nos ofende todos os dias.

Confesso que ainda comprava 'A Bola' por algum respeito à sua história de dignidade e por lhe reconhecer ainda, aqui e ali, laivos de salutar independência que não vislumbrava em mais lugar algum, apesar do crescente anti-benfiquismo (evidente nas colunas dos estafetas de serviço dos andrades e dos patetas da lagartagem), e da linha editorial ditada por rafeiros (sinto-me legitimado a usar o termo) da estirpe do Carlos Pereira Santos, com o beneplácito de hipócritas de estômago exigente como o Vítor Serpa (digo isto com propriedade: já o vi a encher o bandulho com um abandono assinalável em Galas do Benfica, apesar de disputar a data histórica subjacente à existência das referidas Galas). Comprava-a ainda, exactamente, por muito poucas outras razões, como a presença do RAP aos Sábados.

 

Isso acabou, definitivamente, na Terça-Feira passada. O take over absoluto d'A Bola' pela asquerosa facção anti-benfiquista atingiu um limite pornográfico e reminiscente de regimes históricos ironicamente semelhantes ao que vigora no clube dos andrades, o que se tornou particularmente evidente através dos cada vez mais frequentes e menos discretos gestos de vassalagem aos criminosos que amordaçam o futebol português. A promoção sistemática e desavergonhada dos activos dos andrades, a lavagem pública e a relativização de arbitragens vergonhosas, os ataques crescentes e as ofensas ao Benfica e aos seus responsáveis por parte de gente com responsabilidades editoriais, a velhacaria de colunas e colunas e colunas de propagação da mensagem anti-benfiquista sob o manto de artigos de opinião de gente adepta de clubes com práticas reconhecidamente criminosas e dos clubes seus lacaios mostram, sem sombra de dúvida, que 'A Bola' de hoje envergonha 'A Bola' do passado e mais não passa do que outro veículo de propaganda de laivos goebbelsianos à máquina (sistema, se quiserem) que controla o futebol neste país. Poder-se-á argumentar que 'A Bola' de hoje mais não é do que o espelho do que este país se tornou: um paraíso da impunidade, da hipocrisia e da corrupção (moral e económica), onde as mais aviltantes afrontas à verdade e à decência passaram a ser encaradas com normalidade. Um país onde o conformismo vai corroendo a indignação, um país onde já se acha que ‘as coisas já são assim há muito tempo, não há nada a fazer’ e um país onde se aceita com a normalidade gerada pela repetição impune que cretinos e capangas de gente sem vergonha promovam o ódio e a divisão e cantem ‘SLB SLB SLB fdp SLB’ pelos estádios desse país fora.

Poder-se-á argumentar que sim, 'A Bola' apenas reflecte o esgoto falido onde está inserida, mas durante muito tempo lutou e quis ser melhor do que isso. O funeral a que agora se assiste assume a forma do sopro final e falência moral de um jornal desportivo.

Tenho, genuinamente, pena. É uma parte emblemática da minha memória afectiva que morre de forma pouco digna.

 

Quanto aos responsáveis d’A Bola', cheira-me que fizeram mal as contas. As contrapartidas pelo canalha acto de vassalagem não vão compensar a pancada onde lhes dói mais (e vamos ver se o Vítor Serpa ainda se poderá continuar alegremente a gabar de dirigir "um jornal que, felizmente, continua a ter assinalável sucesso e, por isso, não se torna notícia por fazer despedimentos colectivos"). Depois não se esqueçam de ir pedir um tacho ao Mestre Pinto. Pode ser que precise de distribuidores de fruta ou de porteiros para as casas de alterne.

por Carlos Miguel Silva (Gwaihir) às 18:17 | link do post | comentar