As sentenças do sistema.

Como era esperado, a Justiça hoje feita numa cidade ironicamente cognominada de "invicta" teve o condão de, mais uma vez, arquivar a realidade.
 
Aprendemos todos que a palavra de uma ex-alternadeira de nada vale perante a palavra de um conhecido proxeneta e do seu sócio. As confissões das três prostitutas que garantiram ter sido pagas pelo sócio do proxeneta para prestarem serviços a uma equipa de arbitragem de nada valem. A confirmação, feita pelos árbitros assistentes, dos factos narrados pelas prostitutas de nada vale. As escutas telefónicas não desmentidas e indesmentíveis de nada valem. Vale a Justiça feita, tal como as tripas, à moda do Porto. Como disse, tudo isto é natural e era expectável perante a realidade. E só se recusa a conhecer esta realidade aquele que se recusa a conhecer a memória.
 
A história dos últimos 25 anos de um clube regional deve ser lida como a guerra contra a memória, a falsificação da realidade, até à fuga definitiva da própria realidade. Só quem foge à realidade se recusa a admitir as evidências da corrupção tentada, consumada e perpetrada no último quarto de século no futebol português. Ao longo destes anos, o dono do referido clube regional proibiu e negou aos seus súbditos o acesso à verdade, inquinando a sua moral e a sua memória.
 
Este controlo da memória e esta manipulação da realidade consegue-se com métodos clássicos e conhecidos de tiranos, tiranetes e outros sátrapas afins. Os que têm como obrigação o escrutínio e o relato verdadeiro da realidade (jornalistas, juízes, comentadores…) têm de ser controlados. Não basta relegá-los, ameaçá-los ou expurgá-los, o melhor modo de os controlar é carregá-los de culpas, comprometê-los o mais possível: assim, contrairão com os mandantes o vínculo de co-réus, e já não poderão escrutinar, relatar ou ajuizar livremente. Este modo de agir é conhecido de associações criminosas, é um método intemporal e universal. Além disso, quanto mais dura for a opressão, mais se difunde entre os oprimidos a disponibilidade para colaborar com o poder.
 
Deste modo, acabam todos aprisionados, nas palavras de Primo Levi, ao “vínculo imundo da cumplicidade imposta”, a um poder corrupto que, subvertendo a verdade, a realidade e a memória, transforma nos seus pilares de sobrevivência os que têm o dever moral e civilizacional de o combater.
 
Não podendo a sociedade contar com a independência dos que têm na polis o poder de ajuizar, também não poderá contar com os que têm o poder de denunciar os atentados à própria polis. Todos sabemos que a intolerância tende a censurar, e a censura acarreta a ignorância da razão dos outros e, portanto, a própria intolerância: é um círculo vicioso rígido e, como hoje mais uma vez se viu, impossível de quebrar.
por Pedro F. Ferreira às 23:23 | link do post