Natural


Olhem, sinceramente, tenho que começar por dizer que estou um bocado chateado com o Quique Flores. É que sempre me habituei a ver o Benfica como um clube que respeita os seus adversários, e que sabe manter uma postura elevada quer na vitória, quer na derrota. Por isso acho que é um extremo desrespeito pelo Recreativo Piqueniqueiro do Lumiar que ele tenha chegado a este jogo, e tenha decidido:

"Sportém? Contra esses basta metermos dois adolescentes no centro da defesa. E só para o desprezo ser ainda maior, vou manter o Léo no banco e o Jorge Ribeiro a titular. Coño!"

Mas pronto, para o karma não ser tão negativo, também houve boas acções da nossa parte. É sempre bom proporcionarmos a oportunidade a um par de rapazes de realizarem o seu sonho de infância: jogar no relvado de um Estádio da Luz cheio. É bonito, a criançada gosta, e o Veloso e o Moutinho ficam com memórias preciosas deste dia tão especial, para um dia poderem contar aos netos quando os levarem pela mão a ver o seu primeiro jogo na Luz.

Portanto, conforme se pode depreender dos parágrafos anteriores, o Benfica não mudou nada em relação ao jogo em Paços de Ferreira. Foi exactamente o mesmo onze que entrou em campo, o que me deixou um tanto ou quanto nervoso pela presença do Jorge Ribeiro na esquerda, e pela estreia do Miguel Vítor num jogo destes. Mas o Quique é que sabe, e é por isso que ele está sentado no banco do Benfica e eu estou sentado em casa a jogar Football Manager. O jogo começou animado: ainda antes do primeiro minuto ter decorrido, já o sportém tinha dado o mote daquilo que seria o seu jogo, e criado uma oportunidade: lançamento comprido para as costas da defesa, e depois o Djaló encarregou-se de falhar. Respondeu o Cardozo com um remate de muito longe, a tentar surpreender o guarda-redes adversário. Esta animação perdurou durante alguns minutos, e depois caiu-se na rotina que tem sido, nos últimos anos, ver um jogo do Benfica na Luz contra o pessoal do Lumiar. Eles a trocarem a bola calmamente cá atrás, aparentemente satisfeitos da vida com o empate, e a tentarem surpreender com lançamentos longos para as costas da nossa defesa. E nós demasiado lentos para conseguirmos surpreender o adversário. O que se passava nesta altura é que o Benfica jogava com as linhas demasiado próximas, e recuadas. Isto permitia que o sportém trocasse a bola mais ou menos à vontade mesmo à entrada do nosso meio campo, sem que houvesse muita pressão sobre os seus jogadores. Como eles não se mostravam com muita vontade de arriscar no ataque, e nós não mostrávamos muita vontade de pressionar na procura da bola, o jogo entrou numa toada enervante e pouco atractiva, em que a bola passava demasiado tempo nos pés deles e muito pouco acontecia.
Houve um ou outro safanão (remate do Postiga; oportunidade do Nuno Gomes), mas o equilíbrio foi a nota dominante. O nulo ao intervalo aceitava-se perfeitamente, face ao que se tinha visto no jogo.

Ao intervalo, o Benfica ganhou o jogo. Eu ainda não sabia, o sportém também não, nem sequer o Benfica sabia ainda. Mas quando o Quique fez entrar o Katsouranis para o lado do Yebda, ganhou o jogo. O efeito foi imediatamente visível. Com as costas protegidas pelo Katsouranis, o 'tanque' Yebda teve mais liberdade para subir e pressionar os adversários. As nossas linhas subiram, e as deles, consequentemente, recuaram. Isto era particularmente óbvio quando se reparava na posição do Veloso (por quem passava 90% do jogo do sportém), que agora aparecia quase colado aos centrais. O jogo de contenção do sportém, em vez de ser feito à entrada do nosso meio campo, tinha agora que ser feito já dentro do meio campo deles, com as consequências óbvias do perigo que representava uma perda de bola aí, e ainda da maior dificuldade em fazer a bola chegar ao ataque. O Paulo 'nunca perdi na Luz' Bento não soube responder a isto. O que aliás não é surpreendente, porque o Paulo 'nunca perdi na Luz' Bento raramente sabe responder ao que quer que seja. Aquela equipa está constantemente amarrada a um sistema táctico imutável, em que ele é capaz de trocar os jogadores, mas aquilo parece uma espécie de jogo das cadeiras: eles rodam por ali até se encaixarem todos nas posições fixas do 4-4-2 em losango. Por exemplo: sai o Abel, entra o Pereirinha. Será que ele vai arriscar jogar só com três defesas? Não, o Pereirinha entra e vai ocupar exactamente a mesma posição do Abel, na direita da defesa. Sai o Ronhónhó e entra o Etíope Mergulhador. Será que ele está a colocar a carne toda no assador, e vai jogar com três avançados? Não, o Djaló recua para a posição anteriormente ocupada pelo Ronhónhó, no vértice avançado do losango, e o Mergulhador vai para o ataque, fazer o mesmo que o Djaló fazia. E fica tudo na mesma.

Não sei explicar, mas parti para este jogo com uma confiança inabalável de que iríamos vencê-lo. Não sei, talvez porque, na minha cabeça por vezes excessivamente analítica e racional, há constantes na vida. E quando eu olho para as equipas do Benfica e do sportém, o mais natural é que a equipa do Benfica vença a do sportém. Nós temos o Reyes, e eles têm um indivíduo com pinta de quem mora num atrelado que se chama Ronhónhó. Nós temos o Aimar, e eles têm um sujeito rotundo, com evidentes dificuldades de locomoção, que acho que se chama Rochembolha, e que conseguiu ser dispensado a custo zero do clube anterior. Nós temos o Sídnei e eles têm o Túnel, que um dia se foi mascarar de D.Afonso Henriques para a capa de um jornal. Nós temos o Cardozo e eles têm um gajo que foi um barrete no Tottenham, no fóculporto, no St.Etiénne, no Panathinaikos, e que depois foi impingido à lagartada em jeito de esmola por andarem caladinhos, e cujo maior mérito tem sido conseguir marcar golos em fora-de-jogo
(pronto, fez uma boa época no fóculporto do Mourinho, antes de ser vendido ao Tottenham, e tem andado a viver às custas disso desde então - mas quem é que não faz boas épocas com o Mourinho?). Portanto, ou acontecia uma daquelas surpresas em que o futebol por vezes é fértil, e aquele paralelepípedo táctico recheado de artolas conseguia uma vitória improvável (só mesmo um calhau como o Jesualdo é que, por mais que tente, não consegue arranjar forma de dar a volta a isto e sistematicamente leva banhos tácticos do Paulo 'nunca perdi na Luz' Bento), ou então as coisas passavam-se com naturalidade e o superior valor de um dos nossos jogadores resolvia a questão. Certa ou errada esta era, pelo menos, a minha lógica inabalável. Felizmente foi esta última hipótese que se verificou.

O jogador em causa foi o Reyes. Já durante a primeira parte, durante os períodos da mais exasperante monotonia que atravessámos, sempre que o Benfica tinha a bola eu passava a maior parte do tempo a berrar para que metessem a bola no Reyes. Ele nem sempre toma as melhores decisões. Por vezes agarra-se demasiado à bola, ou tenta furar por entre cinco adversários. Mas caramba, ele era quem mais tentava dar velocidade ao jogo, era quem levava a bola para a frente, partia para cima dos adversários, e era aquele em quem eu depositava mais esperanças para tirar um coelho da cartola. Já com o Aimar em campo (mais uma estocada táctica do Quique sobre o Paulo 'nunca perdi na Luz' Bento - o público não gostou da saída do Nuno Gomes e assobiou, mas já o Trapattoni dizia que nós não percebíamos nada de bola), há um lançamento de linha lateral sobre o lado esquerdo. O Reyes recebe a bola, e toca-a para o Aimar, que devolve de primeira para a frente do Reyes. E eu confesso que este foi um dos golos que mais gozo me deu ver na Luz - e já foram muitos os que tive a felicidade de ver. Por causa da antecipação. Porque naqueles escassos instantes antes do Reyes chegar à bola eu, que estava numa posição privilegiada para ver este golo (exactamente na diagonal, vendo o Reyes pelas costas) adivinhei o que ele iria fazer. Se calhar um jogador 'normal', recebendo aquele passe do Aimar, tocaria a bola em direcção à linha final para depois tentar o centro. Mas, pensei eu, aquele é o maluco do Reyes. E dali, perfeito, perfeito é um pontapé cruzado, de primeira, feito com a parte de fora do pé, por isso é isso mesmo que ele vai fazer. Quando o Reyes chegou à bola eu comecei a gritar golo. É para isto que ele está lá, é por isso que ele é caro. Porque tem a capacidade de decidir jogos em pormenores.

O sportém respondeu a este golo com a habitual mestria táctica do Paulo 'nunca perdi na Luz' Bento: tirou um avançado (Postiga) e meteu outro (Derlei), que foi fazer exactamente o mesmo que o anterior, apenas com o pormenor de conseguir dar um bocado mais de porrada no processo. Estranhamente, esta alteração radical não teve efeitos visíveis, e imediatamente a seguir (ainda eu estava a rever na cabeça mais uma vez o golo do Reyes) o Benfica marcou o segundo e arrumou a questão. Livre do lado direito marcado pelo Carlos Martins para o segundo poste, onde apareceu o Sídnei a ganhar de cabeça ao Polga (este já deve começar a ficar habituado a ser batido por um central do Benfica para sofrer um golo) e a fazer o 2-0. A julgar pelos festejos do Carlos Martins, julgo que ele também era capaz de estar a realizar um sonho qualquer dele (em particular, o de encavar o Paulo 'nunca perdi na Luz' Bento). A partir daqui foi só deixar o tempo passar, até porque o jogo estava de tal forma controlado que, confesso, nem reparei que a partir de determinada altura ficámos com menos um jogador. Vi o Carlos Martins sair, mas nem reparei que ele não voltou a entrar, porque não se deu pela falta dele (o Yebda chegava e sobrava para andar no meio e ainda ir à direita). Só quando um colega de bancada o mencionou, já em período de descontos, é que me apercebi do facto.

Não sei quem posso eleger como o melhor. Adorei os dois putos no centro da defesa. Pareceram começar um bocadinho nervosos (a fuga do Djaló logo no início deve ter assustado), e raramente arriscavam sair com a bola controlada ou até mesmo passes para a frente, optando muitas vezes pelo atraso para o Quim), mas depois acertaram o passo e raramente falharam. O Sídnei já se sabe que é craque, mas a 'surpresa' maior é o Miguel Vítor. A julgar pela exibição, não diria que se estava a estrear num derby. O Yebda continua a agradar-me muito; é para mim imprescindível no meio campo, e parece render mais com o Katsouranis ao lado. Claro que também tenho que mencionar o Reyes. Já o disse: durante a modorra da primeira parte, era aquele que mais parecia ser capaz de fazer algo para agitar o jogo. E depois aquele golo foi lindo, e decisivo. Quanto a exibições menos conseguidas, julgo que o Cardozo esteve hoje abaixo daquilo que lhe é exigível (daí o desagrado do público aquando da substituição do Nuno Gomes, já que esperavam que fosse o paraguaio a sair).

Já há quatro meses que não via o Benfica na Luz (desde Maio). Foi bom regressar a 'casa', foi bom voltar a estar entre os meus, reencontrar os colegas de bancada, ou melhor, amigos circunstanciais, cuja amizade dura normalmente noventa minutos de quinze em quinze dias, e ver a minha equipa jogar. Não havia melhor forma de celebrar este regresso do que com uma vitória sobre os piqueniqueiros do Lumiar. Pelo menos durante um par de dias devemos estar livres de os termos a azucrinar-nos o juízo. Quer dizer, ainda não vi qualquer resumo do jogo (de alguma forma, nao sei se quero ver uma repetição do golo do Reyes, acho que prefiro recordá-lo da forma que o vi no estádio), mas se calhar eles já conseguiram arranjar umas quantas expulsões, ou um par de penáltis não assinalados que justifiquem a derrota. É a natureza deles.

por D`Arcy às 01:43 | link do post | comentar