Foi uma vitória arrancada a ferros. Foi preciso um enorme coração, muito sofrimento, e acreditar até ao fim. A merecidíssima recompensa que chegou no final, da cabeça do Javi García, reforça ainda mais (se possível for) a nossa crença em sermos campeões. Hoje todos, equipa e público (42.000 pessoas na Luz), sentiram o quão importante era esta vitória, e também por isso se justifica a forma como foi festejada. São jogos destes que fazem campeões.

A principal curiosidade para este jogo era ver quem ocuparia os lugares do lesionado Ramires e do castigado Cardozo. No caso do primeiro, foi o Rúben Amorim, e do segundo, a escolha caiu no Nuno Gomes. E confesso que mal soube desta escolha, torci o nariz, porque não me pareceu que fosse a escolha mais acertada para um jogo com o cariz que se adivinhava que este teria. E não foi preciso esperar muito tempo para vermos confirmadas as expectativas sobre como decorreria o jogo. Ou seja, teve sentido único, sempre para a baliza da Naval, já que os nossos adversários desta noite limitaram-se a defender durante praticamente todo o jogo, concentrando os seus onze jogadores nos últimos trinta metros do campo. E desde cedo foi possível ver que teríamos no guarda-redes da Naval uma adversário de respeito. O francês Peiser defendeu tudo aquilo que havia a defender, e levou os benfiquistas quase ao desespero. O Benfica na primeira parte, apesar do domínio total, não fez um futebol tão bonito como o habitual. A Naval dispôs-se bem tacticamente, e as investidas do Benfica, maioritariamente pelo centro e pela direita, esbarravam sempre num pé, numa perna, ou na cabeça de um jogador adversário. O Aimar estava quase sempre marcado em cima, e tinha pouco espaço e tempo para fazer o nosso jogo fluir da melhor maneira.
E depois notava-se, e bastante, a falta do Cardozo. Era necessária uma referência no ataque, e o Nuno Gomes não era capaz de ser esse jogador, já que optava por esconder-se do jogo, encostando-se ao último defesa à espera de uma oportunidade. O Cardozo é por vezes acusado de ser demasiado estático, mas julgo que foi evidente que o Nuno Gomes teve uma participação muito reduzida nas nossas jogadas de ataque, ao contrário das várias jogadas em que o Cardozo costuma aparecer a segurar a bola na frente e a soltá-la para os colegas, ou até mesmo em tabelas ao primeiro toque. Os primeiros momentos de maior perigo acabaram por surgir de bola parada, mas o guarda-redes da Naval estava lá para defender os livres do Di María e do Javi García. O Benfica nunca deixou de insistir - tendo em conta que a Naval quase nem conseguia ter a bola durante mais do que alguns segundos, era difícil que tal não sucedesse - mas o golo estava difícil de surgir. Já era difícil furar a muralha defensiva da Naval, mas quando tal acontecia ainda surgia o guarda-redes como uma última barreira quase intransponível. Após uma boa jogada do Di María, conseguimos uma rara ocasião em que Nuno Gomes ficou em boa posição para marcar, mas demorou algum tempo a rematar e foi desarmado. Já quase sobre o intervalo foi o Saviola, no sítio do costume (ao segundo poste) a acertar no ferro após um canto, e a aumentar a preocupação de que estivessemos perante um daqueles jogos em que a bola não entrava mesmo que lá ficássemos a noite toda.
Para a segunda parte, nada de novo. Apenas e só um sentido de jogo, a Naval encostada à sua baliza, e um Peiser inspirado mais alguma sorte a fazerem com que um cada vez mais injusto nulo se mantivesse no marcador. Logo a abrir, uma falhanço incrível do Nuno Gomes numa recarga a um remate do Javi dava o mote. Em relação à atitude da Naval, no entanto, parece-me que não era a sua intenção defender de forma tão pronunciada, até porque é quase suicídio deixar-se ser sufocado desta forma. Mas isto foi também resultado da pressão enorme que o Benfica e também, porque não dizê-lo, todo o Estádio da Luz exerceram sobre o adversário. Não é que eles não quisessem contra-atacar e tentar ter também posse de bola, pura e simplesmente não o conseguiram (a posse de bola do Benfica deve ter ficado próxima dos 70%). Depois, elogio o facto de a Naval não ter recorrido ao antijogo. Ao contrário do que tem sido habitual nos nossos adversários, não houve jogadores a simular lesões, houve dureza mas não violência, e não vi os nossos adversários em constantes provocações e quezílias com os nossos jogadores. A oposição que a Naval nos fez foi puramente em termos tácticos, e leal, já que lutou com as armas que tinha. Começa a ser uma raridade na nossa liga, e por isso julgo que merece ser mencionada.
O Benfica continuou a martelar sobre a muralha da Naval, mas os remates acabavam sempre por encontrar um obstáculo. O Di María, com um grande remate, fez a bola voltar a acertar nos ferros da baliza (ainda com a contibuição do guarda-redes, que toca na bola). Tentou-se de tudo, desta vez com maior predominância pela esquerda, onde o Di María, apesar de algo desastrado e mais individualista do que seria desejável, era um dos jogadores mais em foco. O nosso treinador lançou para dentro do campo os dois pontas-de-lança que tinha no banco, Keirrison e Weldon, mas o golo parecia, ainda e sempre, difícil de conseguir. Até que, a um minuto do final, o Di María sofre uma falta na esquerda do nosso ataque. Já vimos a nossa equipa marcar vários golos assim esta época, e por isso a Luz acreditou, e puxou ainda mais pela equipa (durante todo o tempo de jogo, apesar do empate persistir, apesar das coisas nem sempre sairem bem aos nossos jogadores, nunca se ouviram assobios, e o apoio à equipa foi constante - e esta tem sido uma das nossas grandes forças esta época). O Di María marcou o livre, e no centro da área surgiu o Javi García a cabecear exemplarmente e (finalmente!) de forma indefensável para o fundo da baliza. E se calhar, nenhum dos jogadores em campo merecia mais aquele golo. Foi a explosão na Luz, o libertar de toda a tensão acumulada perante aquilo que já parecia ser um golpe injusto do destino. O apito final selou uma vitória que, todos nós o sentimos, poderá ser importantíssima na caminhada para o título que desejamos.
O melhor em campo, também pelo golo, mas não apenas por isso, foi para mim o Javi 'É uma vergonha' García. Que grande jogo fez o espanhol, quer nas suas tarefas habituais de recuperação da bola e auxílio à defesa, mas também empurrando a equipa para a frente e colaborando no ataque sempre que possível, tendo arriscado o remate de longe em várias ocasiões. O Di María, apesar dos 'pecados' que lhe apontei anteriormente, foi sempre um jogador importante na dinamização do nosso ataque, nunca se escondendo do jogo e assumindo a responsabilidade de ter a bola e conduzir os ataques. Bom jogo também do David Luiz e do Coentrão a lateral, pela terceira vez consecutiva para a Liga.
Agora lá teremos que parar mais uma vez para dar lugar aos habituais dislates e disparates do Queirósz e companhia. Mas vamos para esta pausa com a tranquilidade de termos voltado a apanhar os líderes, e de termos aumentado para cinco os pontos que nos separam dos andrades. O jogo desta noite era um daqueles momentos decisivos, e a equipa mostrou ter garra, alma e coração para alcançar o sucesso. É um orgulho vermos a nossa equipa jogar assim, e com esta atitude. À Benfica.
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