Atropelamento

Mais um jogo, mais uma goleada, a juntar às muitas que o Benfica tem coleccionado desde que entrou nesta sequência impressionante de vitórias. Desta vez a vítima do atropelamento foi o Belenenses, que em sua própria casa pouco conseguiu fazer para evitar nova derrota pesadíssima frente ao Benfica.

 

 

Na constituição do onze a dúvida prendia-se com a escolha de quem actuaria ao lado do Jardel no centro da defesa. Foi a escolha óbvia: Lindelöf. É jovem e tem pouca experiência na primeira liga, mas é quem está disponível e não vale a pena inventar adaptações. Sobre o jogo, escreverei o que conseguir já que o vi praticamente ao nível do relvado, algo a que não estou habituado e que me dificulta conseguir perceber bem tudo o que se vai passando. Duas coisas foram visíveis logo de entrada: o Benfica foi para cima do Belenenses, como se esperava, e o Belenenses nunca tentou fechar-se na defesa e jogar para o pontinho - o seu treinador cumpriu portanto aquilo que tinha prometido na antevisão. Tentou jogar o jogo pelo jogo e nunca desistiu de procurar chegar ao golo. O Benfica poderia ter chegado à vantagem logo no primeiro minuto de jogo, mas o Gaitán falhou a ocasião de forma quase inacreditável, rematando ao lado da baliza quando apareceu completamente à vontade no interior da área depois de receber um passe do Pizzi. O Benfica cedo se instalou no meio campo adversário, enquanto que o Belenenses tentava responder sobretudo através de lançamentos longos para as costas da nossa defesa, pelas alas. Apesar do domínio territorial do Benfica, remates propriamente ditos à baliza não eram muitos na fase inicial, sobretudo porque o Benfica tentava tabelas ou mais um passe na zona central, que acabava interceptado. Por outro lado, a pressão alta do Benfica provocava erros na defesa do Belenenses quando tentava sair a jogar para o ataque. Da parte do Benfica parecia haver bastante confiança (às vezes quase a roçar a sobranceria) de que o golo acabaria inevitavelmente por aparecer, o que se veio a confirmar a quatro minutos do descanso. Depois do Renato Sanches progredir com a bola pelo centro (uma das muitas vezes que o fez durante o jogo), soltou-a para o Pizzi na direita, que centrou para o cabeceamento certeiro do Mitroglou, de cima para baixo, contando com a colaboração do guarda-redes Ventura (o Rúben Pinto, que de forma algo surpreendente estava a jogar a central, não conseguiu o corte de cabeça). O golo dava justiça ao resultado e reflectia o domínio do Benfica no jogo, mas tendo em conta aquilo que se tem passado nos últimos jogos, era previsível que depois de obtido o primeiro a equipa não parasse por ali.

 

 

A segunda parte começou como a primeira, com uma boa oportunidade para o Benfica, mas o remate do Pizzi foi na direcção do guarda-redes. Depois disso o Belenenses pareceu querer responder e durante alguns minutos andou perto da nossa baliza, tendo ameaçado após uma asneira do Jardel resolvida a custo pelo Júlio César, e depois num bom remate do Miguel Rosa. Mas aos oito minutos o Benfica chegou ao segundo golo e praticamente sentenciou o jogo. Bola recuperada pelo Renato ainda no nosso meio campo, seguiu para o Gaitán, e dele para o Jonas, que dentro da área tirou um adversário da frente com uma finta de corpo e rematou em arco e com muito jeito para o poste mais distante, Belíssimo golo. Cinco minutos depois, novo golo, desta vez do Mitroglou, mais uma vez com o Renato no início da jogada, a progredir pela esquerda, bola para o outro lado no Pizzi, que dentro da área evitou os defesas e cruzou rasteiro para que o grego empurrasse para a baliza. Estava visto que vinha aí nova goleada, mas como disse no início o Belenenses nunca se entregou e teve duas ocasiões quase seguidas para reduzir a diferença. Primeiro o Miguel Rosa atirou ao lado após uma intercepção falhada do Lindelöf (única falha que teve em todo o jogo), e a seguir o Júlio César brilhou ao defender um livre do Carlos Martins e ainda a recarga (embora o jogador do Belenenses estivesse em fora de jogo, assinalado). O jogo continuou a ser disputado numa toada bastante aberta, e a um quarto de hora do final o Mitroglou chegou ao hat trick. Erro de um defesa do Belenenses, que deixou escapar uma bola para o Gaitán e o argentino, de calcanhar, deixou ao Mitroglou a tarefa simples de finalizar em frente ao guarda-redes. Nesta altura já o Benfica tinha trocado o Eliseu pelo Sílvio, protegendo-o de um amarelo que o deixaria de fora do próximo jogo. Minutos depois foi a vez do Pizzi dar o lugar ao Carcela, que entrou bastante activo e acabou mesmo por, já nos instantes finais, oferecer mais um golo ao Jonas, depois de combinar com o André Almeida na direita e conseguir o passe atrasado já sobre a linha de fundo.

 

 

Depois de um jogo destes é fácil fazer destaques, e o maior terá que ser para o jogador que marcou três golos. Mas o Mitroglou fez mais do que marcar, pois jogou e fez jogar os colegas, segurou a bola quando era preciso, progrediu com ela, solicitou colegas e até mostrou pormenores técnicos que pouco lhe são vistos. Foi sem qualquer dúvida o melhor jogo que fez desde que chegou ao Benfica. Depois há destaques que já se começam a tornar quase rotina: o Pizzi, com mais duas assistências para golo, o Jonas com mais dois golos e também, e muito, o Renato Sanches. Impressionante o raio de acção do seu jogo, parece estar sempre em todo o lado, e é sempre fantástico ver a forma como consegue progredir em velocidade (e força) com a bola nos pés. Não foi por acaso que teve intervenção directa nos três primeiros golos do Benfica - é um jogador fantástico e infelizmente duvido que o consigamos segurar no Benfica por muito tempo. Menção também para um bom jogo do André Almeida (o regresso do Nélson Semedo à competição e consequente luta pela titularidade parecem tê-lo motivado a ser mais interventivo no ataque) e para o estreante a titular Lindelöf. Fez um jogo quase sempre seguro (conforme disse, registei-lhe apenas uma falha) e não foi por ali que a equipa tremeu - aliás, falhou mais vezes o mais experiente Jardel.

 

O Benfica atravessa sem qualquer dúvida o seu melhor momento da época, quer em termos exibicionais, quer nos níveis de confiança. E a equipa parece continuar ainda a crescer, pois faz um bom jogo e no jogo seguinte consegue superar-se a si própria e fazer ainda melhor (no início desta época nunca pensei que pudesse ver esta equipa jogar desta forma). É a altura certa para desafios mais difíceis como o serão certamente Zenit e Porto. Espero que, com o incansável apoio da onda vermelha (que hoje no Restelo disse mais uma vez 'presente'), consigamos prolongar esta série fantástica.

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por D`Arcy às 13:52 | link do post | comentar