Classe

Se na última jornada escrevi que estávamos de regresso à normalidade, então hoje não foi mais do que a confirmação dessa mesma normalidade. Aquela em que vencemos confortavelmente os nossos jogos, exibindo uma superioridade tal que nos coloca até a salvo de eventuais decisões adversas por parte das equipas de arbitragem. Uma exibição segura e cheia de classe para silenciar algumas vozes mais histéricas. Para plagiar parcialmente o Mark Twain, diria que as notícias da crise no Benfica me parecem ser manifestamente exageradas.

 

 

Já era ponto assente que o Salvio ficaria de fora por precaução e seria poupado para o duelo da Champions, mas ainda ssim foi um pouco surpreendente ver o Carrillo nas escolhas iniciais para este jogo. O Zivkovic era mais ou menos uma certeza, mas provavelmente a maior parte das pessoas esperariam que fosse o Cervi ou o Rafa a ocupar o outro flanco. Mas a escolha do peruano acabou por ser acertada, já que ele realizou a sua melhor exibição desde que chegou ao Benfica e ficou directamente ligado aos golos e a esta vitória. Vitória que começou logo na atitude com que a nossa equipa entrou em jogo. A forma mais eficaz de gerir o esforço antes de um confronto europeu é resolver o jogo o mais cedo possível, para depois podermos fazer os jogadores descansar com posse de bola e substituirmos antecipadamente aqueles que apresentem maior cansaço. E foi precisamente isso que o Benfica tentou fazer. Com uma atitude dinâmica e muita velocidade, com o Zivkovic e o Nélson Semedo muito activos na direita, o Carrillo bem mais interventivo do outro lado e o Jonas a alargar o seu raio de acção para terrenos mais recuados, o Benfica desde o apito inicial que tomou conta do jogo, remetendo o Arouca quase exclusivamente para tarefas defensivas. E se o Benfica entrou bem no jogo, a pressão e velocidade imprimidas foram sempre aumentando à medida que o tempo decorria, tornando-se quase avassaladora a partir dos vinte minutos. A partir dessa altura os ataques sucediam-se uns aos outros, sem que o Arouca conseguisse sequer sair do seu meio campo. E as ocasiões obviamente começaram também a acumular-se. A primeira nem foi da nossa exclusiva responsabilidade, já que foi o Nuno Coelho quem, ao tentar interceptar um cruzamento do Zivkovic, enviou a bola à barra da sua própria baliza (por um lado ainda bem, porque tendo em conta que ele já passou pelo Benfica numa pré-época, se a bola entrasse de certeza que haveria por aí muitos maluquinhos de chapéu de folha de alumínio a desenvolver teorias da conspiração). Depois o Mitroglou marcou mesmo, mas o golo foi anulado por fora-de-jogo ao Jonas, que tentou jogar a bola mas não lhe conseguiu tocar. Na minha opinião, bem anulado. Mas confesso que será divertido observar a forma como aqueles que insistem que o terceiro golo que o Boavista nos marcou foi legal (e já agora, aquele que o Setúbal nos marcou na primeira volta) agora seguramente conseguirão, sem hesitação, dizer que este golo foi bem anulado. Indiferente a isto o Benfica continuou a carregar, e após um passe longo do Zivkovic foi o Luisão quem parou no peito e rematou, ficando muito perto de marcar, valendo ao Arouca a saída rápida da baliza do seu guarda-redes. Mas aos vinte e cinco minutos já nada pôde fazer para contrariar a cabeçada fulgurante e colocadíssima do Mitroglou, que correspondendo a um centro da direita do Jonas fez a bola entrar bem junto da base do poste.

 

 

Desta vez também não cometemos o erro de outras ocasiões, que foi baixar imediatamente o ritmo após obtermos o primeiro golo. E foi por isso com toda a naturalidade que, dez minutos após o primeiro golo, o Benfica aumentou a vantagem. A jogada desenvolveu-se pela esquerda, com um bom passe do Carrillo a solicitar a desmarcação do Eliseu. Já dentro da área, conseguiu chegar à bola antes do guarda-redes e fazer o passe para trás, onde surgiu o Mitroglou para rematar de primeira e com estrondo para o fundo da baliza. O segundo golo não era mais do que a expressão do domínio completo do Benfica no jogo. Da forma como estávamos a jogar, adivinhava-se uma goleada e um jogo muito confortável até final como o cenário mais provável. O Arouca quase não conseguia oferecer réplica, e só a cinco minutos do intervalo deu o primeiro sinal de perigo, num remate de fora da área ao qual o Ederson se opôs muito bem. Mas pouco depois desse lance deu-se outro que poderia ter mudado completamente o rumo do jogo. Depois de uma bola comprida colocada nas costas da nossa defesa, o Mateus perseguiu-a rodeado pelo Lindelöf e o Eliseu. O Ederson saiu da baliza, cortou a bola (que bateu no Eliseu e seguiu na direcção da baliza) e a seguir atingiu o Mateus. Numa primeira fase o árbitro mandou seguir, mas após ser alertado pelo auxiliar, assinalou falta e expulsou o Ederson. Na minha opinião a expulsão parece-me um claro exagero, já que o jogador do Arouca está rodeado por dois defesas nossos, o Ederson joga a bola e a sua única intenção é mesmo jogar a bola, sendo depois o contacto inevitável. Mas infelizmente para nós foi essa a decisão da equipa da arbitragem, o que nos deixou com uma tarefa teoricamente mais complicada para o resto do encontro, e pior ainda, sem o Ederson para a visita a Braga. Vimo-nos então obrigados a retirar o Mitroglou do encontro para a entrada do Júlio César, o que me pareceu uma opção natural, já que em inferioridade numérica não faria muito sentido jogarmos com um avançado mais fixo.

 

 

Mas face à visível diferença de qualidade entre as duas equipa a que se tinha assistido na primeira parte e à forma como o Benfica estava a jogar, nem sequer fiquei particularmente apreensivo para o que restava deste jogo. Comentei aliás ao intervalo que muito provavelmente o Benfica até iria aproveitar que o Arouca tinha finalmente desmontado a sua estrutura defensiva (o Vidigal efectuou uma substituição imediatamente a seguir à expulsão) e iria tentar adiantar-se no terreno para em contra-ataque marcar um terceiro golo e arrumar de vez com a questão. E a verdade é que isso acabou por acontecer quase de imediato assim que começou a segunda parte. Foi uma jogada de ataque muito bonita, talvez mesmo a mais bonita de todo o jogo. Depois da bola rodar pelos pés de vários jogadores, chegou até ao Nélson Semedo, ainda a meio do nosso meio campo. Ele combinou com o Zivkovic, arrancou como uma locomotiva junto à linha, flectiu para o centro, tabelou com o Jonas à entrada da área, deixou a bola no Pizzi, e este fez o passe para a entrada do Carrillo pela esquerda, que à saída do guarda-redes lhe picou a bola por cima. Grande golo, e a sensação de que quaisquer possíveis complicações na segunda parte estariam quase por completo eliminadas. O que foi exactamente o que veio a verificar-se. O Arouca teve naturalmente bastante mais bola do que tinha tido durante a primeira parte, mas mesmo em superioridade numérica durante tanto tempo apenas conseguiu criar uma ocasião de perigo: um cabeceamento do Kuca que desviou no Nélson Semedo e acabou por ser defendido com alguma dificuldade pelo Júlio César. De resto, o Benfica baixou notoriamente o ritmo do jogo e foi gerindo o esforço e deixando o tempo escoar. A melhor ocasião de golo de toda a segunda parte, aliás, pertenceu ao Benfica. No seguimento de um livre apontado pelo Pizzi, o Luisão surgiu completamente à vontade no interior da área e rematou muito por cima da baliza quando o mais fácil parecia ser marcar golo. Acabou por ser uma segunda parte bastante tranquila, que nos permitiu gerir eficazmente o esforço em antecipação do jogo da próxima terça-feira.

 

 

O Carrillo, conforme disse, fez seguramente o seu melhor jogo no Benfica. Não vou ao ponto de o considerar o melhor em campo, mas esteve num nível bastante bom e que justifica novas oportunidades. Acima de tudo interessa salientar a melhoria da atitude competitiva, parecendo muito menos alheado do jogo do que noutras ocasiões. O Mitroglou muito provavelmente hoje, não fosse a expulsão do Ederson, teria marcado mais do que dois golos. Parecia estar em dia sim, já que nas três ocasiões de que dispôs, marcou. O Nélson Semedo fez também um grande jogo, e neste momento parece estar fisicamente melhor do que já aparentou num passado não muito distante. Ajudou também ter à sua frente o Zivkovic, um jogador que não me canso de elogiar. Consegue quase sempre sair a jogar, ou entregar a bola bem redondinha nos pés de um colega. Grande capacidade técnica, enorme atitude competitiva, e cabeça fria para ser um autêntico saco de pancada para os jogadores do Arouca e continuar sempre a levantar-se e a voltar ao jogo. Bom jogo dos nossos centrais, e se o Luisão tem marcado aquele golo, a juntar ao pormenor técnico que exibiu com o jogo a acabar, acho que tinha saído em ombros. O Fejsa foi aquilo do costume, e até quando comete um ou outro erro no passe acabamos por desculpá-lo porque ele parte imediatamente para cima do adversário e insiste até recuperar a bola que acabou de perder. Jonas sempre importante, até sair exausto. E repito o que já disse: em boa hora regressou o Eliseu.

 

Foi uma vitória muito importante para estabilizar e dar confiança à nossa equipa, ainda por cima obtida em condições pouco favoráveis, já que não tínhamos o nosso treinador no banco e jogámos mais de meia parte em inferioridade numérica. Esperemos que motive a nossa equipa para uma grande prestação no difícil jogo europeu que se segue. Tenho uma enorme admiração pelo Dortmund (posso considerá-los a minha 'segunda equipa') mas acredito que se estivermos ao nosso melhor nível temos valor e qualidade suficiente para os contrariar.

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por D`Arcy às 03:28 | link do post | comentar