Força

Não houve ressaca europeia, nem mesmo depois de uma longa viagem à Ucrânia. Não houve desculpas nem poupanças. O Benfica entrou no Restelo para ganhar, marcou cedo, fez uma das melhores exibições da época e conquistou os três pontos, ficando a dever a si próprio uma goleada, tantas foram as ocasiões soberanas desperdiçadas.

 

 

Apesar de neste país se usar e abusar da justificação da ressaca europeia quando as coisas correm mal (a comunicação social é a primeira a agitar esse fantasma) uma equipa de topo tem que estar mais do que preparada para jogar duas vezes por semana. Toda a gente o faz por essa Europa fora, e às vezes parece que só aqui neste cantinho é que isso é um problema. Por isso nada melhor para refutar essas teorias do que entrar no Restelo com exactamente o mesmo onze que alinhou em Kiev. E mesmo com um campo pesado devido à chuva, partir para cima do adversário e dominar o jogo em todas as suas vertentes. O Benfica tirou partido do pendor ofensivo dos dois laterais, que faziam todos os respectivos corredores com bastante facilidade e assim permitiam muita liberdade aos extremos (com quem o entendimento foi quase perfeito) para deambularem pela frente de ataque e ajudarem a uma grande superioridade numérica no meio do terreno. As trocas de posição entre o Salvio, o Cervi, o Gonçalo Guedes (que jogou praticamente sem posição fixa no ataque) e o Pizzi eram constantes, num verdadeiro carrossel que baralhava por completo as marcações adversárias. Perdida a bola, a pressão começava logo à saída da área adversária e a bola era recuperada rapidamente e sem grandes dificuldades. O golo que abriu o marcador surgiu logo aos dez minutos, numa cabeçada fulgurante do Mitroglou depois de um canto do Pizzi, e depois foi quase apenas ver o Benfica ir somando ocasiões para dilatar a vantagem, com uma única grande ocasião de golo para o Belenenses pelo meio: uma cabeçada do Yebda à qual o Ederson correspondeu com uma enorme defesa. O resultado lisonjeiro para o Belenenses foi-se arrastando durante a primeira parte, com algumas situações de golo desperdiçado quase inacreditáveis, como o remate do Mitroglou que levou a bola a embater no poste (grande defesa do guarda-redes Joel, que ainda tocou ao de leve na bola) e a viajar ao longo de toda a linha de golo para sair pela linha de fundo do lado oposto. Ao intervalo a satisfação pela exibição do Benfica misturava-se com a frustração pela vantagem ser tão magra, mas a exibição da nossa equipa nem permitia sequer temer por outro resultado que não a vitória.

 

 

O Belenenses até regressou um pouco melhor do intervalo, e durante os primeiros minutos conseguiu andar mais frequentemente perto da nossa área, tendo beneficiado de um livre muito perigoso, na nossa meia lua, que atirou para fora. Mas o Benfica depressa voltou a acordar e a carregar na procura do golo da tranquilidade, debaixo do dilúvio que se abatia sobre o Restelo. Depois de mais uma ocasião inacreditavelmente desperdiçada, em que toda a jogada foi exemplar até ao passe para o Mitroglou, o grego, à boca da baliza e quando bastava empurrar para o golo com quase toda a baliza à sua mercê, conseguiu acertar mal na bola e enviá-la precisamente contra as pernas do guarda-redes já batido. Mas a frustração não durou muito mais tempo, e aos sessenta e cinco minutos finalmente apareceu o golo da confirmação da vitória. Uma boa iniciativa do Gonçalo Guedes pela esquerda para à entrada da área simular o remate e soltar a bola mais na esquerda para a corrida do Grimaldo, que de ângulo já apertado finalizou com um remate cruzado. Mesmo com a vantagem confortável o Benfica nunca abrandou e continuou à procura de mais golos, vendo logo a seguir o Cervi acertar com estrondo na barra depois de uma boa entrada do Salvio pela direita. Nunca o Benfica deixou de ter o jogo completamente controlado, tendo o Belenenses apenas criado uma situação de algum aperto para a nossa baliza quando o Ederson não conseguiu agarrar um centro rasteiro vindo da direita. Se algum tipo de queixa podemos ter deste jogo, é apenas que o resultado tenha sido só 2-0. A exibição do Benfica e o volume de ocasiões criadas mereciam uma vantagem bem mais dilatada.

 

 

Nem sei quem posso destacar com justiça neste jogo. Ao destacar alguém provavelmente estarei a ser injusto para outros. Foi muito bom ver a dinâmica ofensiva da equipa e o entrosamento de todos os jogadores, com várias jogadas ao primeiro toque e nas quais quase sempre o portador da bola tinha mais do que uma opção de passe. É excelente ver o Nélson Semedo a regressar à forma em que estava antes da lesão, e a dominar todo o seu corredor, o Salvio a mostrar que o talento continua todo lá e nenhuma lesão o deita abaixo, o Gonçalo Guedes a crescer e a ganhar maturidade e confiança com cada jogo que faz e cada minuto que soma, o tecnicista Cervi a lutar e a comer a relva  por cada bola perdida, e tantos outros a jogar bem. Porque não duvido que os próprios jogadores têm a consciência que terão que dar sempre o máximo para manter o privilégio que é ser titular nesta equipa. À medida que os lesionados vão recuperando, também a competição vai aumentando, e quem se desleixar provavelmente ver-se-á no banco ou até na bancada no jogo seguinte.

 

Este jogo foi acima de tudo uma demonstração de força e de confiança de uma equipa que apesar de todos os contratempos que tem sofrido desde o início da época soube fazer das fraquezas força, e que agora que os jogadores sobem de forma e os lesionados vão regressando está a subir os níveis exibicionais para perto do melhor que vimos a época passada. E isto sucede numa boa altura, já que se aproxima um mês de Novembro com vários jogos muito importantes.

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por D`Arcy às 16:49 | link do post | comentar