Nervos

A vantagem trazida da primeira mão e o facto deste jogo se disputar em nossa casa poderiam fazer-nos esperar por uma noite tranquila, mas acabámos com os nervos em franja. O melhor: estamos na final da Taça de Portugal, mesmo com as várias limitações que tínhamos para este jogo. O pior: um jogo inaceitavelmente mau da nossa parte, com falhas gritantes quer no ataque, quer na defesa. A equipa menos rotinada que alinhou não serve exclusivamente de desculpa, porque aqueles jogadores têm a obrigação de fazer melhor frente a uma equipa como o Estoril. Passámos no limite, mas não é um jogo que me tenha deixado particularmente satisfeito - pelo contrário, quando os noventa minutos terminaram estava bastante irritado, e estive à espera até agora para me acalmar antes de escrever alguma coisa.

 

 

Houve uma verdadeira revolução na equipa inicial, que deixou apenas três 'sobreviventes' do onze que alinhou contra o Porto: Lindelöf,  Samaris e Rafa. Pelo que soubemos, o jogo contra o Porto terá deixado algumas mazelas e obrigou o nosso treinador a mexer talvez mais na equipa do que desejaria. Assim, entrámos com quatro jogadores muito móveis na frente e sem um avançado fixo - Carrillo, Zivkovic, Cervi e Rafa. Na defesa, dois dos jogadores que entraram, Grimaldo e Lisandro, estavam com muita falta de ritmo, pois há vários meses que estavam afastados da competição. O início do jogo nem foi mau da parte do Benfica. entrámos a dominar e a desperdiçar ocasiões flagrantes de golo, com a inevitável participação do Rafa neste capítulo. Sobre a capacidade de finalização do Rafa acho que já escrevi aqui vezes suficientes. Direi apenas que nesta fase quando vejo o Rafa isolado à frente do guarda-redes já nem sequer fico entusiasmado. Depois aconteceu o habitual, ou seja, com tanto golo falhado, assim que o Estoril rematou pela primeira vez, marcou. Foi preciso esperar meia hora para que isso acontecesse, mas o que é certo é que assim que conseguiram lá chegar, meteram a bola na nossa baliza, e nem foi precisa uma jogada de golo tão evidente como aquelas que nós andámos alegremente a desperdiçar. Devo dizer que antes do remate sair já eu estava a adivinhar o golo, devido à irritante mania que os nossos defesas têm de marcar os adversários com os olhos (neste caso foi o Lindelöf). Quando se dá tempo e espaço ao avançado para, colocado à entrada da área, controlar a bola, levantar a cabeça e armar o remate sem sequer esboçar um movimento de cair em cima dele o resultado mais provável é sofrer um golo - e foi um grande golo mesmo, com a bola a entrar ao ângulo. Felizmente que empatámos quase na resposta, com o Carrillo a aproveitar um erro grosseiro do guarda-redes do Estoril quando tentou socar uma bola. Ela ressaltou no Samaris e caiu aos pés do peruano, que rematou de primeira para o golo. Saída para intervalo em vantagem na eliminatória, mas o Estoril estava a um golo de empatá-la. 

 

 

E o André Almeida fez o favor de, logo no pontapé de saída, de uma forma perfeitamente displicente oferecer-lhes isso mesmo. A resposta do Benfica foi boa em termos de atitude, mas péssima na execução: logo nos minutos seguintes o Cervi e o Zivkovic falharam o golo do empate de forma escandalosa. Até se pode elogiar o guarda-redes do Estoril pelas defesas, mas aquilo foi mais tiro ao boneco, porque foram sobretudo os nossos jogadores a rematar na direcção dele. Mas a pressão continuou e poucos minutos depois o Zivkovic redimiu-se do falhanço com um grande golo, num remate em arco, de pé esquerdo e de fora da área, que levou a bola ao ângulo. Depois foi o Carrillo a ficar muito perto de terceiro, num chapéu ao guarda-redes que terminou com a bola na barra. Nesta fase já se começava a notar a falta de ritmo dos jogadores escolhidos para esta noite. A nossa equipa estava cada vez mais partida, e quando falhávamos na frente o Estoril contra-atacava quase em igualdade numérica com os nossos defesas, ameaçando seriamente a nossa baliza - o terceiro golo só não surgiu porque o Júlio César, numa dupla defesa, o impediu. O Filipe Augusto já tinha sido obrigado a sair, lesionado (nem neste jogo conseguimos poupar o Pizzi) e depois também acabou por se dar a entrada previsível do Jonas. Jonas que, quase no primeiro toque que deu na bola, marcou o terceiro golo, a passe do Cervi. Faltavam dezoito minutos para o final e parecia que estava tudo resolvido, mas muito pelo contrário. O Benfica nos minutos finais já não era uma equipa de futebol, era um grupo de amigos que se tinha juntado para uma peladinha e a qualidade do jogo não era muito diferente daquilo que se vê nos distritais. Preocupações tácticas não existiam. Metade da equipa atacava e a outra metade defendia, sem qualquer ligação entre os sectores. E a metade que defendia, fazia-o mal, com erros grosseiros a roçar a displicência. O Estoril chegou ao empate em mais um desses erros - o Lindelöf fez um bom corte que impediu a bola de chegar ao avançado, a bola subiu dentro da área, e o Lisandro, completamente à vontade sem qualquer tipo de pressão sobre ele, fez um cabeceamento ridículo que deixou a bola nos pés de um adversário. Depois o mesmo Lisandro juntou-se ao André Almeida para ficarem os dois a assistir, impávidos e serenos, ao jogador do Estoril a passar calmamente por eles e a passar para a finalização de um colega à boca da baliza. com treze minutos para jogar, foi necessário cerrar fileiras e esperar em sofrimento o apito final que confirmou a presença no Jamor (ainda deu para ter um calafrio perto do final, em que nos valeu o Grimaldo para evitar um cabeceamento do Kleber que muito provavelmente daria golo).

 

 

Mesmo tentando conter-me para não bater demasiado nos nossos jogadores, é-me impossível não classificar as exibições do Lisandro e do André Almeida como inadmissivelmente más. O Lisandro ainda tem a desculpa do regresso após lesão, mas o André Almeida nem isso. Aquele espaço entre os dois não foi um buraco, foi uma cratera de dimensão semelhante à que foi criada pelo asteróide responsável pela extinção dos dinossauros, e foi explorado até à exaustão pelo Estoril. E peço desde já desculpa aos mais sensíveis nestas questões de críticas aos nossos jogadores, mas continuo com uma dúvida persistente desde o final de Janeiro: o que é que o Filipe Augusto está a fazer no Benfica? É que do que eu já conhecia do jogador antes e do que vi dele até agora no Benfica, tenho a firme convicção de que temos na equipa B quem faça tanto ou até melhor do que ele. Isto para não falar no André Horta, cujo eclipse ainda não consegui perceber. Ou está ali uma pérola muito escondida que ainda me vai surpreender, ou então parece-me que a época vai acabar e a dúvida vai permanecer.

 

Espero que os jogadores que estão diminuídos fisicamente possam recuperar rapidamente, e que possamos jogar muito mais e melhor no sábado em Moreira de Cónegos. Temos mesmo que jogar muito mais e melhor do que jogámos hoje. A situação na Liga não permite qualquer tipo de descuido ou escorregadela, nem os erros displicentes a que assistimos hoje.

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por D`Arcy às 23:49 | link do post | comentar