K.I.S.S. - Ou o elogio das coisas simples

 

 

 

Apesar de considerar Messi o melhor jogador do mundo ou porventura devido a considerar Messi o melhor jogador do mundo sou apologista da simplicidade de processos numa equipa de futebol como forma primordial de se atingir o sucesso. E, longe de querer centrar a crónica no jovem astro argentino, mas de forma a justificar o pensamento com que a iniciei, penso que uma equipa em que jogue Messi tem de facto como forma mais simples de chegar ao golo o endosso da bola ao sucessor de Maradona.

 

Falemos portanto daquilo que nos traz a todos a este sítio. O Benfica. E às suas idiossincrasias muito próprias.

 

Admitamos por um momento, por um breve momento que seja, que o simples facto de passar a enumerar de forma perfeitamente aleatória algumas das incoerências desportivo/futebolísticas que na minha opinião impedem ou ajudam a impedir o nosso clube de ter sucesso poderá servir para as expurgar e dar um novo amanhã ao nosso futuro. Melhor. Mais radioso. Com sucesso desportivo, em última análise.

 

E mesmo que assim não seja, caramba, que pelo menos sirva para eu desabafar.

 

Há jogadores de que gosto mais e outros de que gosto menos, dependendo das suas características individuais e do que acrescentam ou não à equipa quando estão em campo. No entanto, se há característica que abomino e com a qual embirro particularmente é com a falta de inteligência que leva, por exemplo, a que um jogador tente fazer coisas para as quais não está vocacionado. Adiante. Não vou individualizar. Não neste momento.

 

A falta de um jogador como Messi , que encare o adversário de frente e que provoque neste o receio de que pode ser ultrapassado no 1x1 deveria levar o Benfica a apostar numa dinâmica colectiva que permitisse a absorção desse handicap e, porventura, a torná-lo num factor desequilibrador sim mas a nosso favor. Isto porque, salvo raras e honrosas excepções, o colectivo sempre prevaleceu sobre o individual.

 

Quem nos esteja a ler de um sítio distante, de alguma galáxia longínqua, com nulo conhecimento do passado recente do nosso clube, poderá estar neste momento com um sorriso nos lábios antevendo vitórias folgadas e sucessos variados para uma equipa que faz gala destes predicados por mim enunciados. A nós, que vivemos o clube numa base diária com a proximidade que nos é permitida pelos stewards de serviço, e conhecedores que somos da realidade existente o máximo que pode provocar é um esgar de sofrimento.

 

Entendamo-nos, em primeira instância cumpre ao treinador a utilização dos melhores jogadores que tem ao seu dispôr de forma a criar uma dinâmica de conjunto que leve à constituição de uma equipa na verdadeira acepção da palavra. Obviamente que, quando se assiste à constante chamada de jogadores cujo mérito principal é passarmos a achar natural e francamente inofensivo o jogo da Roleta Russa...jogado com o canhão cheio de balas, torna-se difícil compreender e mesmo respeitar as restantes decisões tomadas.

 

Por exemplo e falando em termos colectivos hoje em dia torna-se caricato assistir aos exercícios de aquecimento efectuados antes dos jogos, nomeadamente àquele que faz com que duas equipas de cinco jogadores cada troquem a bola entre si num espaço reduzido do relvado. O exercício em si não tem nada de errado, bem pelo contrário! O que não se compreende é a relevância desse exercício perante aquilo que (não) se vê quando o árbitro apita para o ínicio das partidas. Porque num espaço infinitamente maior e com muito mais possibilidades de fazer gala dos passes a um, dois toques o que se vê é a constante utilização do passe longo, vulgo charuto, como forma primária de (des)construção de jogo.

 

E se é assim naqueles 10/15 minutos que nos são dados a observar a cada oito dias, penso que é legítimo questionar a metodologia empregue nos restantes dias da semana em que os treinos são efectuados longe da vista do comum dos adeptos. Porque uma coisa é certa, e quanto a isso não podemos (continuar a) fugir: o futebol praticado é de facto de muito má qualidade. Contam-se pelos dedos de uma mão a utilização de jogadas básicas (lá está) mas eficazes que visam dar profundidade ao jogo ofensivo de uma equipa. Façam este exercício simples: tentem recordar-se do último golo do Benfica marcado após uma desmarcação de um jogador aproveitando uma tabelinha efectuada com um companheiro. Mais, subo a parada, em que esse movimento não tenha levado directamente ao golo mas sim à chegada do lateral ou do extremo à linha de fundo para efectuar o cruzamento que levou ao remate concretizador do avançado. Que saudades dos tempos do Veloso ou do Álvaro em que o lateral dava para o extremo e o ultrapassava para ir receber a bola mais à frente e fazer o centro para a área. Porque se deixou de fazer isto? Porque é díficil? Porque são precisos jogadores predestinados para o fazer? Não, não e não. Porque são necessários automatismos.

 

Não é igualmente dificil para um observador relativamente atento descortinar a causa principal para os ínumeros pontos perdidos na Luz esta época. Se à não utilização do futebol curto e apoiado juntarmos uma velocidade de execução verdadeiramente exasperante e concluirmos com a inexistência de jogadores que decidam jogos com o recurso às bolas paradas, só por milagre se poderia esperar que uma equipa que ainda por cima joga perante um público de extremos que é capaz de cobrir a distância que vai do 8 ao 80 no espaço de poucos minutos...várias vezes numa hora e meia, deixasse de perder pontos com a cadência verdadeiramente aberrante (quando comparada com a história do clube) com que o tem feito esta época. Um pequeno aparte, Simão ajudava a disfarçar muitas insuficiências.

 

Vou aproveitar a embalagem para pessoalizar esta parte do texto porque me apetece elogiar alguém. Binya. Gosto dele porque tem consciência dos seus limites e dá o que tem pelo colectivo. Corre e sabe cada vez melhor para onde corre. Foi um achado. Quem me dera ter mais dois ou três no plantel. Em posições diferentes já agora para os poder utilizar a todos em simultâneo.

 

Não vou entrar nas questões directivas porque haverá com toda a certeza pessoas mais habilitadas a fazê-lo mas não quero deixar de aconselhar a (re)utilização do predicado que escolhi como título para este post porque me parece longe de ser uma medida sensata o regresso aos tempos em que a gestão de um plantel mais parecia um entreposto comercial em que todos os anos, e por vezes duas vezes ao ano, se mudava aos 10 e se acabava aos 20 (jogadores).

 

Independentemente de tudo o resto quero acreditar que continuamos no caminho certo e que, no caso de não continuarmos, o(s) maquinista(s) tenha(m) a noção de que este enorme comboio longe de se confinar a um inter-cidades tem de começar por aí para se poder candidatar novamente à feitura dos percursos europeus. E se for necessário regressar às origens para a partir delas se voltar a construir um clube que ao justificado epíteto de glorioso junte...as conquistas, não encontro melhor altura para o fazer senão a data em que se festeja mais um aniversário.

 

por Superman Torras às 21:53 | link do post | comentar | ver comentários (7)