Sábado à noite, o nosso Benfica jogou com o Nacional e o jogo transformou-se em arte. Isto por mérito das duas equipas e para privilégio dos adeptos que encheram a nossa Catedral. O Nacional foi uma equipa honesta, jogou um futebol positivo, em prol do espectáculo e procurando, sem antijogo, ganhar. O Benfica foi brilhante.
No relvado, a geometria rigorosa das movimentações tácticas foi pano de fundo para a expressão do génio individual. Nolito foi a ousadia do futebol de rua, do futebol desconcertante. Gaitan regressou aos melhores momentos e deixou-nos uma jogada daquelas que, sabemos quando a vemos, servirá de mote à convocação da memória, apenas para podermos dizer “estava lá e vi”. Rodrigo faz-nos acreditar que qualquer jogada, independentemente da zona do campo, é potencialmente um golo do Benfica. Aimar é Aimar, é o nome acima do título do jogo. Na Luz herdou o número de Rui Costa, na Argentina herdou o número de Maradona. Isto basta para fazer dele um predestinado e de nós, espectadores, privilegiados.
O público vibrou, sofreu, aplaudiu e, acima de tudo, sorriu. Ficou com a convicção de que tinha visto longos minutos de futebol supino. A exibição do nosso Benfica teve largos minutos de uma qualidade genuína, que nem a azia de um ou outro ‘opinadeiro’ conseguiu macular.
No entanto, houve um elemento que se esforçou por não estar à altura da dignidade do jogo. Foi aquela figura que conseguiu enervar o público, os jogadores do Benfica e o próprio treinador. Foi a personagem que nos fez sair do Estádio com a certeza de que, para sermos campeões, não nos basta ser melhores… temos de ser muito melhores do que os adversários. Particularmente dos adversários que jogam com um apito na boca.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 14 de Fevereiro e publicado na edição de 17/02/2012 do jornal "O Benfica".
[Se alguém quiser manifestar-me a sua opinião, pode fazê-lo para este endereço: tertuliabenfiquista@gmail.com]
Primeiro, a notícia surgiu como uma mera nota de rodapé num jogo sem grande história: o Fábio Faria saíra de campo ao minuto oitenta e cinco, sentira-se mal. O Rio Ave perdera o jogo e o atleta vila-condense que o Benfica tem emprestado ao Rio Ave tinha perdido apenas cinco minutos de jogo.
Mais tarde, a notícia saiu da margem do jogo para se sobrepor ao próprio jogo. Havia uma complicação, um problema cardíaco. O assunto deixou de ser apenas uma nota de rodapé na história do jogo. Aquele momento poderia ser o título de um capítulo na vida sua vida, pois o coração ameaça uma fragilidade que poderá hipotecar o futuro do Fábio atleta.
Aos vinte e dois anos de vida o Fábio Faria tem a confirmação de que, para ouvir uma gargalhada de Deus, basta que Lhe confiemos os nossos projectos. E o Fábio certamente estará a ouvir essa gargalhada. Dolorosamente, assustado e com o medo de voltar a sussurrar futuros, de voltar a sussurrar notas de rodapé da vida.
Para a frieza da história, para o corpo do texto fica o registo de que o Rio Ave perdeu o jogo e o Fábio perdeu cinco minutos do jogo. Aqueles cinco minutos perdidos poderão ter garantido um futuro bem mais importante do que uma nota de rodapé.
Sabemos que o nosso desempenho como homens vai muito além do nosso papel como adeptos. Independentemente do que o futuro reservar ao Fábio, certamente que ele saberá que a sua dimensão como homem ultrapassa o seu papel como atleta. O Fábio saberá neste momento que uma nota de rodapé na vida se ultrapassa lutando e construindo o futuro, o resto do texto.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 07 de Fevereiro e publicado na edição de 10/02/2012 do jornal "O Benfica".
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1 – Ganhámos ao Feirense, num campo difícil, num areal pejado de relva (pelo menos não pintaram, como outros, a areia de verde), com uma grande galhardia, muita abnegação e com as bancadas plenas de benfiquistas que, apesar dos preços pornográficos e do oportunismo do adversário, ajudaram a criar uma vitória no dia e no local onde outros nos tinham preparado a cama.
2 – A vitória do Benfica foi justa, merecida e limpa. Apesar disso, alguma comunicação social apressou-se em inventar factos, retorcer a realidade, manipular a informação, envenenar a opinião pública… em suma, mentiram, tentaram agradar à irónica voz do dono e não esconderam o incómodo perante a vitória do Benfica. No que respeita à mentira, a TVI e a SICN têm muitas desculpas a pedir.
3 – As declarações de Jorge Jesus no pós-jogo foram de grande dignidade. Respondeu à altura a todas as provocações que alguns jornalistas, maldosamente, mascararam de perguntas e demonstrou um pragmatismo que se saúda e se deseja que continue até ao final da época.
4 – Olho para um dos nossos adversários, vejo a balbúrdia que por lá reina e pergunto-me o que diria a comunicação social se estivéssemos na situação em que eles estão: adeptos e futebolistas envolvidos à pancada após mais uma derrota, atletas de modalidades ditas amadoras a protestarem pelo facto de terem ordenados em atraso, presidentes de clubes estrangeiros a acusarem, sem ser com ironia, um presidente de querer pagar dívidas com “dinheiro da treta”… Tudo isto é branqueado e silenciado.
5 – O Benfica lidera o campeonato com cinco pontos de avanço para o segundo classificado. Nos próximos quatro jogos do campeonato pode estar o destino do mesmo. Dependemos de nós e da nossa capacidade de saber ultrapassar dentro do campo todas as armadilhas que nos preparam fora dele.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 31 de Janeiro e publicado na edição de 03/02/2012 do jornal "O Benfica".
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Um alargamento do número de clubes na principal competição futebolística portuguesa para alguns é desejável, para outros inevitável e para outros tantos é inaceitável. Mas, assumamo-lo, é possível.
O que subjaz a um hipotético alargamento prende-se com uma reflexão prévia e alargada que possa trazer diferentes abordagens e perspectivas para o tema em apreço. Importa saber qual a fundamentação, as motivações, o suporte desportivo e a sustentação legal. Importa perceber se há mercado que sustente, com o mínimo de dignidade, um acréscimo de clubes, se as infra-estruturas estão adequadas ao cariz profissional da prova. Essencialmente, importa perceber se há uma sustentação minimamente racional que faça de um alargamento um melhoramento. Caso contrário, um alargamento não passa de um alastrar de uma enfermidade.
O novo presidente da Liga sustentou o alargamento pretendido num único pressuposto: a sua eleição. Ou seja, fez tábua-rasa dos pressupostos de uma liderança em troca de uma eleição. Demonstra, entre muitas outras coisas, que, apesar de ter sido eleito, nunca será um líder. Esse estatuto foi vendido aos Fiúzas desta vida que, à primeira ocasião, vieram reclamar publicamente a entrega da mercadoria comprada e prometida. A primeira medida que se reconhece a este novo presidente da Liga é a tentativa de mudar as regras a meio do jogo, fazendo com que a verdade desportiva saia moribunda de um lodaçal em que já é ferida sucessivamente. Ou seja, o novo presidente da Liga apresentou-se aos adeptos com uma mensagem ‘interessante’: em prol da vitória ajusta-se o conceito de verdade à mentira de circunstância.
Objectivamente, há trinta anos que vemos a essa manipulação da verdade no futebol português, mas ainda não a tínhamos visto como promessa eleitoral.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 24de Janeiro e publicado na edição de 27/01/2012 do jornal "O Benfica".
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Num momento em que o Benfica domina o campeonato, o nosso Estádio enche e se perspectivam tempos de algum apaziguamento, há um assunto que nos tem preocupado nestes, aparentemente, plácidos tempos de benfiquismo: a anunciada renegociação dos direitos televisivos.
Há quem defenda que se deve fazer o melhor negócio possível, independentemente do interlocutor da negociação; há quem defenda que nem se deveria levantar a possibilidade de renegociar com a Olivedesportos; há quem defenda que a Benfica TV, com outro enquadramento, é a melhor solução; há quem defenda que se está a precipitar o tempo da decisão relativamente a este assunto… O tema está longe de ser pacífico e, no meio de tudo isto, surge uma nova personagem na presidência da Liga que defende e promete, demagogicamente e servindo interesses que não me parecem os do Benfica, a negociação colectiva dos ditos direitos.
A informação acerca do assunto é quase diária e nem sempre é credível. Há muito ruído e pouco esclarecimento. Deste modo, defendo que, neste momento, Luís Filipe Vieira deverá encontrar uma solução que permita, dentro da família benfiquista, discutir a situação, esclarecer os sócios acerca das suas intenções e ficar esclarecido acerca das intenções dos associados.
Nem sempre as emoções das massas são o melhor conselheiro na condução racional dos negócios do nosso Clube. Ainda assim, o assunto em apreço é de tal ordem sensível que uma decisão tomada apenas na solidão de um gabinete e indiferente à vontade dos sócios pode colocar em causa a própria decisão.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 17 de Janeiro e publicado na edição de 20/01/2012 do jornal "O Benfica".
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António Oliveira disse e repetiu, para que não houvesse dúvidas, que o presidente da Federação Portuguesa de Futebol é um títere que tem como função servir os interesses de uma empresa privada, a Olivedesportos. Disse que o anterior presidente também cumpria diligentemente esse trabalho e que o mesmo acontece na Liga de Clubes. Disse que ninguém é eleito para esse cargo sem o beneplácito do seu irmão e sócio maioritário da Olivedesportos.
Disse-o convictamente, num canal público de televisão, disse-o sem gaguejar e repetiu-o. A personagem que o disse é antigo sócio da dita empresa. Em seguida ficou o silêncio. Um silêncio quase total por parte da comunicação social. Um silêncio total dos visados. Um silêncio absoluto do poder político. Um silêncio que procura apenas uma coisa: o esquecimento, para que se possa perpetuar a mentira e a farsa em que se foi transformando isto. Os dias passam e toda a gente finge que nada se passou. Com que cara, com que legitimidade, com que dignidade alguém pode dirigir uma instituição quando sobre ele está lançada a acusação séria de que há quem mande em quem finge mandar? A cara com que esta gente se apresenta aos clubes e seus dirigentes por todos é conhecida. Mas com que cara é que esta gente se pretende apresentar perante os adeptos? Como é que ainda há quem ouse pensar que com o seu silêncio se pode limpar a nódoa em que se transformou o dirigismo desportivo em Portugal? No silêncio de todos está a conivência com a vergonha. No silêncio de todos está bem à vista a etiqueta e o respectivo preço. Não é o futebol português que está à venda, são os seus agentes que se venderam. É a vergonha que ficou penhorada algures por Penafiel.
Lamento, mas não pode haver silêncio quando se impõe um grito de indignação justa.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 10 de Janeiro e publicado na edição de 13/01/2012 do jornal "O Benfica".
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O ano começou com uma boa notícia para o benfiquismo: Saviola renovou o contrato com o Benfica.
Independentemente da melhor ou pior forma que este argentino atravesse, a sua supina qualidade é inquestionável. O pior Saviola é melhor do que a esmagadora maioria dessa cinzenta mediania de caceteiros esforçados que se arrastam pela maioria dos nossos relvados. O melhor Saviola é arte e inteligência em campo. Com Saviola em campo, os colegas percebem que tudo se pode tornar mais fácil, que aquele espaço entre os defesas e o guarda-redes passa a ser uma probabilidade quando muitas vezes parece uma impossibilidade.
Saviola e Aimar são, por mais que custe a muitos dos teóricos do nosso futebol, os únicos futebolistas no futebol português que têm uma dimensão verdadeiramente mundial. E, para exemplo de muitos colegas de profissão que têm uma dimensão meramente mediana, demonstram publicamente uma humildade que apenas os engrandece. Saber que Saviola renovou é sinónimo de que os que são verdadeiramente grandes sabem estar ao serviço dos clubes ainda maiores.
Em sentido contrário, ficamos a saber que Ruben Amorim se sente incomodado no Benfica. Não conheço os motivos que levam a que um benfiquista que tudo teve para se vir a tornar um símbolo, um capitão, uma referência, aparentemente queira sair. Ainda assim, nós, adeptos, vamos sentindo e fazendo sentir na bancada que nos identificamos com aqueles que se identificam connosco e não com os que viram as costas ao Clube.
Ficam os exemplos e a certeza de que há quem saiba reconhecer o bem que tem e outros que insistem em não perceber que estão bem. Ficam os exemplos dos que ficam na memória e dos que caminham para o esquecimento.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 03 de Janeiro e publicado na edição de 06/01/2012 do jornal "O Benfica".
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Passou quase despercebido, não foi capa de jornal nem deu direito a finas ironias, mas um dirigente do Sporting, Paulo Pereira Cristóvão, no intervalo de um jogo do seu clube, abordou o árbitro Artur Soares Dias. Este ter-se-á sentido de tal maneira incomodado com a peculiaridade da abordagem que, alegadamente, mandou um agente da PSP identificar o referido dirigente. Ou seja, a pedido de um árbitro, um dirigente do Sporting foi identificado por um polícia.
Este dirigente é o mesmo que recentemente, qual anão de saltos altos, se imaginou à altura do nosso Benfica e tentou, com declarações vergonhosas, achincalhar o nosso clube. O melhor que conseguiu foi “apenas” contribuir para que um grupelho de bandalhos arruaceiros incendiasse umas cadeiras da bancada onde haviam estado instalados para verem mais uma derrota do clube deles.
Ao ter conhecimento do comportamento do dito Cristóvão e da alegada identificação de que foi alvo, perguntei-me se algum dirigente do Sporting viria para a imprensa ameaçar Artur Soares Dias com uma gravação da referida conversa. O que se sabe é que a abordagem foi feita e que Artur Soares Dias não terá ficado nada agradado com a mesma. Felizmente para a saúde do árbitro não houve nenhum tropeção na escadaria de acesso aos balneários e pôde arbitrar a segunda parte do jogo…
Quanto ao senhor Cristóvão, já teve tempo e oportunidades de sobra para perceber que nem tudo é legítimo apenas porque um grupo de imbecis lhe legitima as atitudes com palmadinhas nas costas. Ou seja, já é tempo de o senhor Paulo Pereira Cristóvão perceber que, como diz o povo, “isto não é o da Joana”.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 27 de Dezembroe publicado na edição de 30/12/2011 do jornal "O Benfica".
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Noite de sexta-feira, Estádio da Luz, durante a partida Benfica-Rio Ave, minuto 36. Nolito recebe a bola, caminha para a área – passa a bola, penso eu. Ultrapassa o primeiro adversário, caminha para a linha de fundo – passa a bola, penso eu. Enfia-se literalmente na linha de fundo, passa o segundo adversário, fica sem ângulo para marcar, aparentemente perde a noção do tempo e do espaço. Dali é impossível marcar, a física e a geometria provam-no – passa a bola, grito eu da bancada. Golo. Todo o Estádio festeja o golo e a decisão do Nolito de não ter passado a bola. Nolito enfiara-se numa cabine telefónica, fintou dois defesas, iludiu o guarda-redes e saiu pela porta.
Festejava-se o futebol irreverente, o futebol de rua, o futebol em que o puto malandro se entretém a provar que isso dos impossíveis é preocupação de adultos cinzentos com medo da ousadia. O Nolito é essencialmente isto: o miúdo feito homem que se diverte no mundo profissional com a mesma ‘reguilice’ com que um puto enfrenta a baliza demarcada por duas mochilas da escola. Para trás ficam os aborrecimentos de quem pensa o futebol parametrizado em “basculações”, “transições ofensivas e defensivas” e “movimentos de rotura”. Ali, em Nolito, o futebol é um espaço que existe em função da localização da baliza. O tempo mede-se em adversários que têm de ser ultrapassados até chegar à baliza. O modo vive-se pelo gozo do momento. O resto são meros aborrecimentos de gente grande que se esqueceu de que a génese do futebol é a rua.
Feito o golo e festejado o momento, levanta-se a questão: como conciliar a irreverência do futebol de rua com as obrigações do futebol profissional? Haverá lugar para ‘Garrinchas’ no futebol actual? Verdadeiramente preocupante é tentar perceber que futebol é este em que se questiona se há nele lugar para os que acreditam que se podem marcar golos impossíveis.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 20 de Dezembroe publicado na edição de 23/12/2011 do jornal "O Benfica".
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Ao ver a desonrosa eliminação do nosso Benfica da Taça de Portugal, recordava-me das palavras de Padre António Vieira no “Sermão de Santo António aos Peixes”.
Em 1654, o ilustre pensador lusitano, referindo-se aos peixes roncadores, e criticando a soberba dos mesmos, dizia que “O muito roncar antes da ocasião, é sinal de dormir nela”. Nesta simples frase lá ia explicando o nosso grande orador que não é digno dos grandes falar antes da ocasião, pois corre-se o risco de ser a ocasião a ultrapassá-los.
Antes da eliminação frente ao Marítimo, foi um corre-corre de encómios e louvores: os resultados frente ao Manchester e ao Sporting deram azo a que as manchetes fossem feitas com as referências à sequência de vinte e tal jogos invictos. De repente, vi entrevistas exclusivas de futebolistas nossos a jornais desportivos e até a jornais que sobrevivem às custas de mentiras torpes sobre o nosso Benfica. As conferências de imprensa dividiram-se entre o auto-elogio e a tal estatística da invencibilidade… ou seja, roncou-se muito antes da ocasião. Resultado: dormiu-se nela. Foi-se a invencibilidade, foi-se a Taça de Portugal, espero sinceramente que se tenha ido, definitivamente, a falta de humildade no discurso. E, além da falta de muitas outras coisas – desde a sorte a alguns habituais titulares – a humildade foi o que de mais deficitário o nosso Benfica teve naquele Estádio dos Barreiros.
De uma derrota só tira algo de positivo quem tem a capacidade de perceber os erros próprios como uma lição, uma aprendizagem. Quero acreditar que todos, sem excepção, a tenhamos aprendido.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 05 de Dezembroe publicado na edição de 09/12/2011 do jornal "O Benfica".
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No passado fim-de-semana, após mais uma derrota do seu clube frente ao Benfica, alguns adeptos do Sporting incendiaram propositada e premeditadamente uma bancada do Estádio da Luz.
Antes disso, um vice-presidente do Sporting acicatou ânimos, insultou o Benfica e chegou a dizer, entre outas alarvidades, que a Direcção do Sporting se recusava a frequentar lugares como o camarote presidencial da Luz e camarotes adjacentes.
Após o criminoso acto pirómano dos seus adeptos, não há sportinguista com voz na comunicação social e responsabilidades no clube que não tenha vindo alijar responsabilidades próprias, fazendo piruetas com a coluna vertebral, para desresponsabilizar os responsáveis materiais do crime. Desta forma, acabam todos por ficar, moralmente, no patamar indecoroso dos criminosos que perpetraram o crime. Assim, há um grupelho de vândalos que vê os seus actos cobardemente protegidos pela desresponsabilização, escondendo-se por trás do grupo e de uma vergonhosa cultura de impunidade.
No mesmo fim-de-semana, mas numa outra latitude, um jornalista da TVI alega ter sido agredido e insultado na presença, e com a aquiescência, do presidente de um clube que prima pelas boas práticas exemplificadas nas escutas do processo “Apito Dourado”.
Neste reino pantanoso da irresponsabilidade, o absurdo não tem limites e, às tantas, ainda veremos as canetas de aluguer do costume a afirmar que as galhetas que o tal jornalista apanhou lá para as bandas do Freixo se deveram a uma rede no Estádio da Luz.
O Presidente da Liga assiste a tudo isto com a desresponsabilização do silêncio. E neste silêncio reside a mais fina ironia de tudo isto…
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 29 de Novembro e publicado na edição de 02/12/2011 do jornal "O Benfica".
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Não fui ver o Benfica a Old Trafford. O Benfica não ganhou em Old Trafford. Ouvi o Benfica desde Old Trafford. O Benfica ganhou Old Trafford.
Eu sei que estava lá o Aimar e o Luisão, o Artur e o Javi, o Jorge Jesus e o Pietra, mas o Benfica que ganhou Old Trafford foi um Benfica de adeptos, sócios, simpatizantes, portugueses e benfiquistas. Foi um Benfica nascido na vontade e expressado na voz e na emoção de quem gritou a alma benfiquista durante mais de noventa minutos. Foi o Benfica de quem não renova contratos, pois assinou no benfiquismo um compromisso para a vida, um compromisso incondicional e intemporal. O Benfica que ganhou Old Trafford foi o Benfica de três mil vozes que deram voz a milhões de vontades. No Benfica que venceu Old Trafford estava a eficácia de Rogério Pipi, a elegância de José Águas, o magnetismo de Coluna, a rapidez de Simões, a abnegação de Toni, a determinação de Bento, o génio de Chalana, o benfiquismo de Rui Costa, a magia de Aimar… Mais do que tudo, estavam também as lágrimas do benfiquista desconhecido a quem me abracei no Bessa, no jogo do título no ano de Trapattoni; o sofrimento do benfiquista de pelo menos sete décadas que se senta atrás de mim no Estádio da Luz e que, sempre em silêncio, festeja os golos do Benfica apertando as mãos (fundindo as mãos) como se naquele aperto estivesse a capacidade de transformar o caos em cosmos. No Benfica que venceu Old Trafford estavam os sorrisos, as lágrimas, os abraços, os impropérios, as injustiças, as esperanças de todos os que sabem que, se não fossem benfiquistas, não seriam as pessoas que vieram a ser.
Dizem os jornais que o Benfica empatou em Old Trafford. Mentira, o Benfica ganhou Old Trafford, porque, durante mais de noventa minutos, o que se ouvia era a voz do Benfica cantando bem alto o nome do Glorioso. O resto foi um teatro de sonhos a silenciar-se perante a voz do Benfica, a nossa voz.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 22 de Novembro e publicado na edição de 25/11/2011 do jornal "O Benfica".
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A Selecção da Federação Portuguesa de Futebol foi obrigada a jogar num campo de futebol bósnio que tinha um relvado num estado miserável e, para o piorar, os malvados bósnios até ousaram regar os poucos tufos de relva antes do jogo.
Não houve alma ligada ao futebol luso que não se tivesse indignado. Todos foram profícuos na adjectivação da situação: vergonhoso, ultrajante, inaceitável… Todos, sem excepção, condenaram o crime de lesa futebol, lesa verdade desportiva e lesa virilidade lusitana que os bósnios perpetraram. Houve jornalistas e opinadores que se revoltaram contra o facto de a Direcção da FPF se revoltar apenas nas entrevistas e não se revoltar formalmente, em documento próprio e enviado à UEFA, FIFA, ONU e Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. O Madaíl, antes que os indignados o atolassem no lamaçal bósnio, lá preencheu a papelada e, formalmente, lavrou protesto. Os indignados suspiraram de alívio e o Madaíl também. Jogaram, mas jogaram sob protesto. Foi comovente ver tamanha indignação, tamanha revolta e tamanha luta pela dignidade que deve ser inerente a qualquer partida de futebol.
Assim, percebemos todos que um ervado mal semeado e abundantemente regado é, obviamente, algo de inaceitável para quem manda no futebol português e para os jornalistas desportivos lusos. Pelo contrário, apedrejar selvaticamente um autocarro com os futebolistas lá dentro, obrigar a equipa adversária a equipar-se fora do balneário, agredir os jogadores adversários com bolas de golfe durante os jogos, interromper sucessivamente um jogo com apagões de luz, receber árbitros no domicílio na antevéspera de um jogo, oferecer prostituas a árbitros depois dos jogos ou aliciar futebolistas adversários com futuros contratos… são práticas consideradas normais.
Abençoado futebol bósnio.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 12 de Novembro e publicado na edição de 18/11/2011 do jornal "O Benfica".
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Antes do início do jogo, o treinador do nosso Benfica pediu apenas que, desta vez, em Braga, não ocorressem “coisas estranhas”.
Findo o jogo, constatámos que todo ele foi feito, mais uma vez, de coisas estranhas. Estranhamente faltou a luz por três vezes, durante a primeira parte do jogo. A EDP terá declinado responsabilidades, quem tem responsabilidades em organizar o jogo diz que é alheia a qualquer responsabilidade, o presidente da Liga de clubes demite-se de responsabilidades e de apurar responsáveis – nada de novo, vindo de quem vem – e o próprio Braga, num comunicado que poderia fazer parte do anedotário nacional, ainda acaba por ameaçar quem ousar questionar as suas hipotéticas responsabilidades no sucedido. Pela minha parte, quando as coisas são estranhas, questiono e não é com ameaças mais ou menos veladas que deixarei de as questionar. As coisas estranhas começam a acontecer com uma tal recorrência naquele estádio, aquando das visitas do nosso Benfica, que seria cegueira não as questionar.
Por falar em cegueira, pergunto-me o que terá levado o árbitro do jogo, o inefável Proença, a não querer ver uma grande penalidade sobre Luisão, uma agressão de Djamal a Gaitan, uma entrada violentíssima de Alan sobre Javi Garcia e a querer ver uma muito discutível grande penalidade do Emerson. Não incluo a exibição do senhor Proença no rol das coisas estranhas, pois a sua carreira habituou-nos a decisões deste teor, sempre extremamente criteriosas, que fazem dele um digno sucessor de árbitros da estirpe de Jorge Coroado ou Fortunato Azevedo.
Para finalizar, deixo ainda uma palavra a Alan e à sua indignação perante as palavras que, supostamente, Javi Garcia lhe teria dedicado. Alan habituou-nos a duas coisas: a enganar, através da simulação de agressões, a verdade desportiva; e a obedecer, de forma solícita, às orientações que lhe são dadas pelos seus superiores. Logo, não estranho as suas declarações, estranho o crédito que alguns lhe dão.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 08 de Novembro e publicado na edição de 11/11/2011 do jornal "O Benfica".
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Neste próximo fim de semana o nosso Benfica vai jogar a Braga, cidade de grande implementação de benfiquismo.
Tradicionalmente, os jogos contra o Sporting de Braga, em Braga, eram jogos difíceis, disputados galhardamente, mas sempre extremamente leais e com respeito mútuo entre atletas e adeptos. Recentemente, fruto de uma tentativa de descaracterização dos pergaminhos do clube minhoto, as deslocações a Braga transformaram-se em vergonhosas demonstrações de violência, intolerância, provocações várias, frases incendiárias proferidas pelo ‘speaker’ de serviço e uma agressividade inaudita por parte dos atletas bracarenses. Tudo isto nas barbas dos dirigentes da Liga, tudo isto numa impunidade espúria, tudo isto fruto de uma cultura alheia que tem parasitado o ilustre clube minhoto.
É contra tudo isto que o Benfica tem de jogar e é a tudo isto que temos de ganhar. A vitória nestas partidas com o Braga, fora e em casa, é determinante para o futuro do campeonato. Apesar dos bons resultados desportivos da história recente do Braga, é minha convicção de que ainda não são candidatos ao título de campeão. Da mesma forma, é também minha convicção de que aquele, de entre os candidatos a campeão, que menos pontos perder nos jogos contra o Braga é o que estará mais próximo de alcançar o título.
Assim, este próximo jogo, que marca o final do primeiro terço do campeonato, assume um carácter decisivo, ainda que não definitivo. É neste tipo de jogos que se demonstra quem tem mais vontade de vencer, quem tem menos receio de se sacrificar em prol da equipa, quem tem a crença nas suas forças e encontra motivação na adversidade. Acredito nos nossos.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 01 de Novembro e publicado na edição de 04/11/2011 do jornal "O Benfica".
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O Benfica foi jogar e ganhar a Aveiro. Mais de vinte mil benfiquistas nas bancadas ajudaram a trazer vida a um estádio novo e já decrépito, fruto de um investimento mal pensado aquando do Euro 2004, e com uma decrepitude resultante de uma gestão de merceeiro que não permite uma manutenção minimamente digna. Vinte mil benfiquistas serviram de bodo ao Beira-Mar, da mesma forma que vão servindo de bodo a tudo quanto é clube espalhado por este Portugal de mão estendida em busca de esmola.
A chico-espertice de uns quantos dirigentes associada a uma vergonhosa falta de eficaz regulação dos preços dos bilhetes leva a que se aproveitem despudoradamente dos benfiquistas a cada deslocação do nosso clube a casa alheia. Vemos, ano após ano, clubes a subsistirem desportivamente num beija-mão subserviente a um dono alheio que vai satelitizando e parasitando clubes com treinadores, jogadores e até dirigentes e outros homens de trazer no bolso. E vemos que esses mesmos clubes subsistem financeiramente em grande parte graças à receita que conseguem aquando da visita do Benfica.
Na presente época, devido aos bons resultados da equipa, começamos a ver crescer essa onda vermelha que acompanha a nossa equipa para todo o lado. A onda que recentemente mostrou em Basileia como é que, jogando fora na Champions, acabávamos por ter um apoio superior aos da casa é a mesma que em Aveiro demonstrou um apoio massivo e inequívoco à equipa. Desta onda fazem parte os três mil que se deslocaram recentemente, a meio da tarde, ao Estádio da Luz para ver um… treino.
Esta onda vermelha de crença e benfiquismo merece uma equipa vencedora e profissionais dignos e empenhados, mas merece também que quem regula o futebol em Portugal saiba tratar com respeito os que, pela sua presença nos estádios, garantem a subsistência do futebol em Portugal. Infelizmente, nem a Liga nem a Federação nos têm respeitado.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 25 de Outubro e publicado na edição de 28/10/2011 do jornal "O Benfica".
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Para a semana, celebrar-se-á mais um aniversário do nosso estádio. 25 de Outubro de 2003 foi a data de inauguração do actual ninho das águias, oficialmente denominado como Estádio do Sport Lisboa e Benfica. No entanto, é popularmente chamado como ‘Estádio da Luz’ e é apaixonadamente denominado como ‘A Catedral’.
Luz, Catedral… as amarras do nome oficial são quebradas pela identificação nominalista da universal família benfiquista. Assim, toda a nomeação é uma espécie de sacralização de um espaço profano, uma sacralização de origem profana, de simbólica profana, mas de linguagem sagrada. A mesma linguagem que nos leva a dizer que a camisola do Benfica é o ‘manto sagrado’ ou que o Benfica é o único clube que não permite a utilização da expressão ‘velhas glórias’, pois os que são denominados como ‘glória’ do clube jamais envelhecem na memória colectiva do benfiquismo.
Deste modo, temos a sacralização do espaço, do tempo, do símbolo e dos que, de entre todos, melhor o serviram. Olhar para a nossa Catedral, com todos os adeptos, os fiéis, ritualmente levantados durante a audição do “Ser Benfiquista” (para quando o regresso do nosso hino, “Avante, Avante p’lo Benfica”, ao nosso estádio?), levantando o cachecol antes de o recolocar, qual estola, em ombros, enquanto se espera a vénia dos nossos futebolistas aos adeptos tem algo de litúrgico. É a junção do ritual ao tempo, ao espaço e ao modo.
Compreende-se que vulgarmente se diga que o Benfica é uma religião. Objectivamente, não é. No entanto, sentimos que uma ida à nossa Catedral, à nossa casa, é mais do que uma viagem – é mais do que meramente passar por cima de uma experiência – é, essencialmente, uma forma profana de peregrinação. Ou seja, ir à nossa Catedral é viver uma experiência de crença no benfiquismo, de partilha de uma ideia de clube e de comunhão de uma vontade comum.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 18 de Outubro e publicado na edição de 21/10/2011 do jornal "O Benfica".
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A expressão não fez parangonas, não deu para grandes comentários, nem deu azo a que os pasquineiros tentassem criar uma crise artificial no seio do Benfica. A expressão era simples, Jorge Jesus disse que Aimar tinha a capacidade de transformar, no futebol, a ciência em arte.
Esta capacidade referida por Jorge Jesus vai ao encontro da ideia do professor Manuel Sérgio de que não há ciência sem imaginação. Ou seja, para que a sublimação se verifique é necessário esse arrojo de transformar os postulados científicos em algo que os transcenda: em arte. Interpretar dinamicamente os conceitos e os princípios de jogo defendidos por um treinador não está ao alcance de qualquer futebolista. Acrescentar, com qualidade, a essa dinâmica a tal imaginação está apenas ao alcance dos predestinados.
Temos, ao longo dos anos e mesmo após a geração de Eusébio, tido a felicidade de ver com o nosso emblema alguns desses predestinados. Chalana acima de todos, porque era o mais desconcertante, o mais imprevisível, o que conseguia, pela técnica e velocidade de execução, desequilibrar o adversário, empolgar a sua equipa e maravilhar plateias. Conheço muitos que, não sendo benfiquistas, iam à Luz para apreciar a arte de Chalana.
Actualmente é Aimar quem melhor sublima o futebol no nosso Benfica. Estranhamente, não tem o perfil dos que costumam empolgar as plateias. Não corre desenfreadamente pelas alas, não finta sucessivamente adversários, não surge com aquela irreverência de quem rejeita amarras tácticas e cria arte como solista. Não, o futebol em Aimar é arte na medida em que tem a imaginação para obrigar a que todos os que o rodeiam joguem com mais arte do que a que pensavam ter. Ou seja, Aimar tem a arte de potenciar a arte nos companheiros de equipa. E isto é uma ciência que poucos têm.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 11 de Outubro e publicado na edição de 14/10/2011 do jornal "O Benfica".
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Engana-se todo o que olha para o futebol e o considera essencialmente como uma actividade física. O futebol é antes de qualquer outra coisa uma actividade humana.
Nesta perspectiva percebe-se a importância da comunicação no desempenho do futebolista, da equipa, do clube. Perceber qual o tempo e o modo da mensagem é, quase sempre, tão importante como a própria mensagem. É impensável ter uma equipa onde não há uma cumplicidade entre os seus membros. É impensável a cumplicidade numa liderança equívoca ou que comunica numa polifonia de vozes contraditórias.
Muitos não sabem, mas o último título de campeão vencido pelo Benfica foi alicerçado também num esforço enorme de comunicação abrangente, envolvendo muitos benfiquistas e com uma definição clara de objectivos. Percebemos a mensagem, interpretámos correctamente o tempo e o modo, agimos em conformidade e, desde o futebolista sem lugar a titular até ao adepto de bancada, passando pelo treinador, dirigentes e diferentes meios de comunicação do grupo Benfica (sítio na internet, jornal, televisão, revista) toda a gente comunicou um benfiquismo feito de abdicação de interesses próprios em prol do interesse colectivo.
Desde o início desta época que noto com agrado um renovado esforço na comunicação, na tentativa de aglutinar o clube em torno de um rumo comunicacional. Concordando ou não, esse rumo está lá, existe e tem sido cumprido. Por vezes, o que o pode fazer desmoronar é a ausência de vitórias. Felizmente, estas têm surgido. Resta agora que saibamos todos, desde os técnicos ao atleta menos utilizado, passando pelos dirigentes, lidar com o tempo e o modo da comunicação em tempo de vitória.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 04 de Outubro e publicado na edição de 07/10/2011 do jornal "O Benfica".
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Banalmente, o Benfica empatou no estádio do FCP. Um empate é um resultado banal. O jogo foi banal. E nesta banalidade reside a novidade.
O facto de o Benfica ter ido jogar contra o FCP e ter acontecido apenas a banalidade de um jogo de futebol é algo de extraordinário. Não houve agressões gratuitas, não houve violência bárbara, não houve apedrejamento do autocarro dos nossos, não houve ameaças aos profissionais do nosso clube, não se criou um clima de terror, não se assistiu a espectáculos deprimentes dados por títeres de apito na boca e ninguém se lembrou de inocentemente incendiar o ambiente com ironia dita fina.
Tudo isto deveria ser referido, louvado e dado como a primeira explicação para que o Benfica pudesse sair do estádio do adversário com a ligeira vantagem de ter empatado no terreno do principal rival na luta pelo título. No entanto, e cito as palavras de Eça de Queirós, “Neste país, no meio desta prodigiosa imbecilidade nacional” o que serviu de tema para discussão foi (pasme-se!) um imaginado pontapé do Cardozo no rabo do Fucile. Pontapé que não existiu e que provocou em Fucile o acto reflexo de se queixar da cabeça antes de se lembrar que talvez fosse melhor queixar-se do traseiro. Sempre dava mais verosimilhança à encenação. Depois, foi um corre-corre de especialistas em física, cinética, balística e generalidades afins para provarem como a simples deslocação do ar junto à região glútea pode provocar dores imediatas na cabeça e, como tal, o malvado Cardozo deveria ter sido expulso por nunca ter agredido o Fucile.
Afinal, a banalidade manteve-se no pós-jogo. Por cá, já é banal fazer de um não existente pontapé no rabo um assunto de interesse nacional. Por outro lado, a corrupção no desporto, de tão banal, já nem é discutida. É, como tantos outros assuntos, convenientemente esquecida e diligentemente silenciada.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 27 de Setembro e publicado na edição de 30/09/2011 do jornal "O Benfica".
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Terminou a época de transferências. Ao longo de dois longos meses, depositamos a esperança de que as contratações sejam reforços e não desilusões. Sofremos com a possibilidade de vermos alguns dos nossos futebolistas preferidos a mudar de ares e vamos desconfiando do discernimento de quem tem a responsabilidade de formar um plantel equilibrado e capaz.
Há uns três anos, levei uma das maiores lições de futebol de que me recordo. Habituado que estava a formar planteis em diferentes jogos de computador e em muitas conversas de café, lá parti eu, cheio de certezas alicerçadas no empirismo de quem nunca teve a responsabilidade de formar um plantel com futebolistas reais num mundo real, para uma conversa com uma das maiores glórias do futebol português e internacional, e que tinha como função concretizar a construção de um plantel para ser campeão. Em poucos minutos percebi que eu nada sabia do que era um plantel, de como se formava, dos pressupostos. Poucos minutos bastaram para perceber que a ignorância é ousada e que muitas (mas não todas) das críticas que se fazem ao trabalho dos profissionais se deve ao puro desconhecimento do que é a realidade. Nesse dia, antes daquela conversa, achava que aquele plantel estava desequilibrado e não oferecia grandes esperanças. Após a conversa, percebia a lógica e a coerência que estavam subjacentes à sua construção.
No entanto, continuava teimosamente convicto de que havia decisões muito erradas, particularmente na construção de todo o lado esquerdo da equipa. Lembro-me bem de que, nesse dia, critiquei desbragadamente a saída de Reyes, a decisão de manter Di Maria no plantel e a possibilidade de um dia vir a ter o Fábio Coentrão como defesa esquerdo…
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 06 de Setembro e publicado na edição de 09/09/2011 do jornal "O Benfica".
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A notícia surgiu e, mais uma vez como em tantas outras ocasiões, obrigou-nos a reflectir. Ricardo Gomes apanhado à traição por um avc corria risco de vida.
No sítio do Benfica na internet (www.slbenfica.pt) surgiu o comunicado que fazia eco dos desejos de todos os benfiquistas. Nesse comunicado, Ricardo era considerado o “nosso” Ricardo. O que leva um futebolista a ser identificado com o sentir colectivo de milhões de adeptos do nosso Benfica? O que leva a que um futebolista, tanto tempo após ter terminado o seu percurso profissional no clube, possa ser considerado um dos nossos? Que relação emocional é esta com os adeptos de um clube (e com o clube) que ultrapassa contratos, cláusulas, adendas e outras minudências que transformam a paixão em razão?
Após os tempos de Humberto Coelho, Ricardo foi o melhor defesa-central que vi no Benfica. Jogava de cabeça levantada, comandava toda a defesa e liderava toda a equipa. Parecia jogar de smoking, tal era a classe do seu futebol. Impunha-se com a serenidade de quem sabe melhor do que os outros qual a melhor forma de ser eficaz. Vi-o como capitão de equipa do Benfica. Foi, salvo erro, o primeiro capitão de equipa do nosso clube que não tinha a nacionalidade portuguesa. Pela sua dimensão, essa “heresia” foi por todos encarada como uma virtude canónica. O Ricardo ultrapassava essa questão de ser português ou não. Para nós, o Ricardo era de nacionalidade benfiquista… mesmo quando envergava a braçadeira de capitão da canarinha.
Nos anos em que o vi com a camisola do Benfica senti (sentimos) que a sua presença ultrapassava o tempo do ‘agora’. O Ricardo é um dos nossos, essencialmente porque se distinguiu no Benfica como um grande Homem antes de ser um grande futebolista.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 30 de Agosto e publicado na edição de 02/09/2011 do jornal "O Benfica".
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O que há de mais fascinante no jogo é a imprevisibilidade do desfecho. Não sendo aleatório, é sempre impossível de determinar. Na esperança que antecede todos os jogos reside o fascínio do jogo. Antes do início de um jogo acreditamos que um desfecho é uma possibilidade e nunca uma certeza. Essa incerteza é o que nos faz ter a paixão pelo futebol.
Agora, imaginemos que deixamos de acreditar na imprevisibilidade, deixamos de acreditar que o desfecho do jogo se encontra no final do mesmo e passamos a saber que o desfecho do jogo foi determinado antes do seu início. Deixará de ser um jogo, passará a ser um embuste. Quando isso acontecer, matar-se-á o jogo, acabar-se-á o futebol, porque se acaba a inocência de acreditar.
Actualmente, o jogo está seriamente ameaçado. Declan Hill, em 2008, publicou “The Fix”, uma excelente obra sobre a falta de verdade no futebol. Essa obra foi recentemente publicada em Portugal e titulada “Máfia no Futebol”. Aconselho a sua leitura, sabendo que, após essa leitura, perdemos o que nos restava de inocência, mas percebemos melhor o comportamento de árbitros, dirigentes e futebolistas. Compreendemos melhor o que leva um determinado treinador, num qualquer minuto 58, a substituir os dois futebolistas que melhor estavam a jogar; compreendemos por que motivo um treinador se vê obrigado a substituir um excelente guarda-redes, ao intervalo, com o medo que esse futebolista facilite na segunda parte; compreendemos como a prostituição é tão importante para poder chantagear quem tem o poder de decidir um jogo…Percebemos que nem os jogos das fases finais dos Campeonatos do Mundo estão a salvo de serem decididos antes de terem começado.
Mais do que tudo, percebemos que a protecção do jogo não está na competência das regras, das leis ou dos regulamentos, está na seriedade das pessoas.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 23 de Agosto e publicado na edição de 26/08/2011 do jornal "O Benfica".
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Numa das escutas telefónicas que imortalizam a prestação do sr. Costa como dirigente desportivo, ouve-se o dito defender que Vítor Pereira, presidente da Comissão de Arbitragem da Liga, fica bem de cócoras.
De facto, os ‘vitores pereiras’ que andam há trinta anos pelo futebol português têm-se habituado a ter perante o sr. Costa essa atitude de fiel subserviência de quem abana o rabo na expectativa do osso. Só assim se percebe a nomeação de Olegário Benquerença para apitar o jogo do clube do sr. Costa frente ao Vitória de Guimarães. Já na época passada, este mesmo Olegário decidiu contribuir para a farsa de campeonato a que assistimos, ao ir àquele mesmo estádio prejudicar despudoradamente o nosso Benfica. Agora, foi lá prejudicar os da casa. Nos dois casos há uma constante: de cócoras, foi beneficiado o clube do sr. Costa. Para os mais saudosistas, dá para reviver os tempos de António Garrido, José Pratas, Martins dos Santos, Carlos Calheiros, José Guímaro, António Costa, Isidoro Rodrigues, Donato Ramos, Fortunato Azevedo e tantos outros ‘Coroados’ da vida.
No final, e afinal, está tudo como sempre esteve. E, de cócoras, a comunicação social subverte o primeiro dos seus propósitos, ou seja, silencia-se. Fá-lo de forma cobarde, conivente e hipócrita. No final da primeira jornada, todos – e bem – escreveram como o Benfica perdeu pontos por culpas e responsabilidades próprias; mas todos se esqueceram de referir que o clube do sr. Costa ganhou pontos à custa de ajudas alheias. E, assim, de cócoras e branqueando a voz do dono, ainda nos querem convencer de que as palavras de Falcao a pedir que o deixem sair é apenas uma brilhante estratégia urdida por quem nunca falha, nunca, nem quando o treinador lhe foge na véspera do começo da época…
Nesta imensa farsa, os únicos que nunca falham são os que, solícitos, ficam de cócoras perante o sr. Costa. Esses, realmente, há trinta anos que não lhe falham.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 16 de Agosto e publicado na edição de 19/08/2011 do jornal "O Benfica".
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Houve e há futebolistas que, pela sua capacidade de imprimir a todas as movimentações e decisões individuais um sentido colectivo, deixaram a sua impressão digital no imaginário dos adeptos.
Futebolistas como Johan Cruijff, Enzo Francescoli, Rui Costa ou Xavi exemplificam a capacidade de perceber o futebol para além do momento em que individualmente se tem a bola no seu domínio. De entre os vários nomes que se podem juntar a este grupo, destaco Pablo Aimar. “El Mago” Aimar é superlativo a pensar o futebol como uma dinâmica colectiva. À sua rapidez de raciocínio, que o leva a ter aquele centésimo de segundo que lhe permite antecipar a movimentação do adversário e da bola, junta uma invulgar qualidade de execução técnica. Olhamos para Aimar e vemo-lo dirigir toda uma equipa, descobrir espaço entre linhas adversárias, antecipar um desequilíbrio defensivo adversário, forçar esse mesmo desequilíbrio e obrigar a que todos os que o acompanham na sua movimentação ofensiva acabem por tirar partido das suas decisões. A capacidade que Aimar tem de descodificar o propósito das movimentações globais de companheiros e adversários manifesta-se com uma espontaneidade tal que aparenta ser um simples “puro acontecer”. Nessa ilusória simplicidade está encerrada a complexidade de perceber a sua acção como uma função em que nada é aqui e agora, porque todo o ‘aqui’ e ‘agora’ só existem com efectividade se forem a preparação de um espaço e tempo futuros. Se todos temos a percepção de que não há serviço colectivo nos futebolistas que não são capazes de se encontrarem com a equipa, basta ver as orientações que Aimar dá aos seus companheiros para perceber como há futebolistas que “obrigam” a que todos se encontrem entre si, de forma dinâmica.
Para além disso, há ainda a consciência de que em Aimar a vida se manifesta com mestria muito para além do futebol. Aliás, é na sua conduta como homem e cidadão que começa o futebol de autor que o imortaliza.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 09 de Agosto e publicado na edição de 12/08/2011 do jornal "O Benfica".
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Depois do discurso contra o Sul, do discurso sobre a penhora da retrete, do discurso em torno da fruta para dormir, do discurso em que imitava um aparelho de gps e indicava orientações sobre a localização da sua casa a um árbitro na antevéspera de apitar um jogo do seu clube e de tantos outros discursos a que a parvónia denomina “fina ironia”, o sr. Costa surgiu agora com o discurso da treta, referindo-se à venda dos direitos desportivos do guarda-redes Roberto.
Considero que o actual discurso da treta do sr. Costa constitui-se como uma evolução e, finalmente, está adequado à figura que o enuncia. Isto é de louvar. Aliás, foi também interessante ver como a comunicação social alinhada com o senhor do tal discurso da treta tentou, por todos os meios, desvalorizar o adversário do Benfica nesta fase da Liga dos Campeões. Numa atitude bacoca e a roçar um estranho e infundado complexo de superioridade, muitos foram os meios de comunicação social portugueses que não se cansaram de tentar desvalorizar o Trabzonspor. Houve mesmo alguns ‘opinadeiros’ que queriam demonstrar a fraqueza do nosso adversário referindo-se a uma suposta fraca qualidade e desorganização do futebol turco. Isto, meus caros, é uma treta. O futebol turco, no que respeita à tentativa de zelar pela verdade desportiva, dá lições a toda a organização do futebol português. No futebol turco, como se comprova com a actual situação criminal de alguns dirigentes (entre os quais os do Trabzonspor), não se considera uma treta a tentativa de adulterar resultados. Da mesma forma que não é um qualquer cacique de aldeia que, com duas tretas e um par de balelas, escarra na Justiça e leva um conjunto de lorpas a fazerem das tretas letra de lei e código deontológico.
Chegará o dia em que ainda nos vão querer obrigar a acreditar que há dirigentes de clubes que recebem árbitros em casa apenas para terem inocentes conversas da treta. Enfim, isto, como diria um tal de Calheiros, já são outros quinhentinhos…
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 02 de Agostoe publicado na edição de 05/08/2011 do jornal "O Benfica".
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Ter a possibilidade de, como atleta, servir um dos poucos clubes míticos no Mundo deveria ser encarado como um privilégio. Os privilégios agradecem-se.
Recentemente, ao ler o livro que Helena Águas escreveu sobre o seu pai, o nosso José Águas, percebia-se o sentimento de permanente agradecimento que o grande José Águas tinha para com o Benfica, os seus colegas de equipa e os adeptos do clube. A todos, em vários momentos, José Águas agradecia. Além disso, agradecia o privilégio de poder ter servido o Benfica com tal dignidade que acabou por fazer parte do património simbólico de todos nós, benfiquistas.
A vida deu-me o privilégio de trocar ideias, conversar e debater o Benfica com muitos dos que foram (e são) faróis do benfiquismo e exemplos de gratidão para com o Benfica. Desde Nené a Rui Costa, passando por Pietra ou Toni, todos demonstram, nos pequenos gestos, nas expressões que utilizam e nas ideias que veiculam, uma gratidão ao Benfica apenas ao alcance dos que sabem ser humildes na grandeza. São-no naturalmente, sem gestos calculados, sem teatralizar o sentimento, ou seja, são-no genuinamente. Perceberam que, pela sua conduta, passaram a fazer parte da história simbólica do Benfica. E, também por isso, não desperdiçam o privilégio de ficar com as pessoas, os adeptos, os benfiquistas, na sua história.
Alcançar este patamar não se consegue a beijar o emblema, a envergar a braçadeira de capitão ou a fazer declarações de circunstância. Consegue-se com respeito pelo Benfica e gratidão honesta pela possibilidade de se tornar um símbolo para milhões de pessoas. Uns sabem perceber o tempo, o espaço e o modo. Esses são os que ficam. Outros nunca perceberão sequer o tema abordado neste texto. Esses são os que passam.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 26 de Julho e publicado na edição de 29/07/2011 do jornal "O Benfica".
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A dimensão e implantação social do Benfica obriga-o a ser mais do que um clube. Essa dimensão acarreta responsabilidades para com o país, para com a construção de cidadania.
Neste âmbito, importa realçar o trabalho silencioso, inestimável e que muito me orgulha realizado pela Fundação Benfica. O trabalho desenvolvido ao nível da intervenção precoce sobre os factores de exclusão e o desenvolvimento de mecanismos que promovem o sucesso educativo de crianças e jovens deve ser salientado.
Recentemente, vi declarações do director da Fundação Benfica, Jorge Miranda, sobre os resultados obtidos, logo no primeiro ano de implementação, com o projecto “Para ti, se não faltares!”. Ou seja, um projecto que desenvolveu em largas centenas de jovens uma grande motivação para combater a falta de assiduidade às aulas e, deste modo, melhorar o rendimento escolar. A julgar pelos testemunhos dos pais dos jovens envolvidos, a medida foi um sucesso. Os responsáveis, perante o sucesso obtido, delinearam novas metas, novos objectivos, para continuar a ajudar ao desenvolvimento destes jovens.
Objectivamente, não são estes projectos que nos fazem vibrar e viver diariamente o Benfica. Todos discutimos apaixonadamente sobre quem será o lateral esquerdo, o defesa central que acompanhará o Garay, a necessidade ou não de contratar mais um guarda-redes, a táctica indicada para o plantel.,, Todos defendemos os nossos futebolistas preferidos e olhamos de soslaio para os que tardam em convencer-nos da sua competência. E tudo isto é feito de forma apaixonada e cheios de certezas absolutas que se transformam em certezas relativas com intervalos de noventa minutos.
No entanto, convém que também olhemos para projectos aglutinadores e válidos como os que são desenvolvidos pela Fundação Benfica. Porque o Benfica é, efectivamente, muito mais do que um clube…
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 18 de Julho e publicado na edição de 22/07/2011 do jornal "O Benfica".
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Há expressões a que, pela recorrência da repetição, deixamos de prestar a atenção devida. Recorrentemente, e fazendo uso de uma legítima indignação e de um legítimo sentido crítico, oiço consócios e adeptos do nosso Benfica dizerem que “este não é o meu Benfica”.
Sendo nós benfiquistas, somos do Benfica e somos Benfica. Logo, negar este Benfica como meu seria quase negar uma parte do que sou. Dizia o saudoso Manuel Bento, enquanto olhava, como adepto, para um jogo mal conseguido do nosso Benfica, que o Benfica não são os que estão dentro do campo – e ele que tantas e tantas vezes lá esteve – mas sim os adeptos, os que estão em partilha de crença, sofrimento e entrega ao Benfica. Talvez devido a este sentimento, ainda hoje me arrepio e emociono quando oiço os adeptos gritar em uníssono “O Benfica é nosso”. Sabendo que nessa afirmação mais do que um sentimento de posse está um sentimento de pertença ou, quando muito, uma afirmação da pertença pela posse.
Como é que a voz que grita “O Benfica é nosso” pode também dizer “este não é o meu Benfica”? Não sei, entendo-o apenas como um desabafo. Posso dizer, e já o disse em diferentes momentos destas quase quatro décadas que levo de adepto benfiquista, que “este não é o treinador que eu queria no meu Benfica” ou que “este não é o presidente que queria no meu Benfica” ou que “estes não são os valores que gostaria de ver no meu Benfica”. Mas espero que isto não me conduza ao desabafo de dizer que “este não é o meu Benfica”. O meu Benfica é este, porque não há outro que não este e porque quem vive o Benfica vive-o apaixonada e criticamente, mas nunca fazendo depender essa vivência da concordância ou discordância dada ao rumo do Clube.
O meu Benfica é o que foi, em 1983, ganhar ao FCP e buscar a Taça de Portugal às Antas, com um golo do Carlos Manuel, da mesma forma que é o que viu o FCP festejar o campeonato na nossa casa, em 2011. É o do sexto lugar em 2001 da mesma forma que é o do primeiro lugar em 2010…
Aliás, diz-nos a nossa gloriosa história que, nos momentos críticos em que urgia mudar o rumo, foi essencial que nenhum de nós se demitisse e todos nós fôssemos Benfica. Para isso, é necessário que todos percebamos que “este é o nosso Benfica” e é “nosso” porque lhe pertencemos.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 12 de Julho e publicado na edição de 15/07/2011 do jornal "O Benfica".
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Não há escolha sem contexto. Escolher é muito mais do que optar pelo que se quer, é também escolher o que se deixa.
Recordo uma conversa com o enorme Artur Correia, o “ruço”, em que ele me confidenciava que a sua saída do Benfica para o Sporting marcou toda a sua vida futura. Em Alvalade era sempre visto como o benfiquista e na Luz, até aos dias de hoje, há sempre quem se lembre de que ele optou por ir para o Sporting. Apesar de todos percebermos o contexto da decisão, aquela mácula acaba por perdurar.
Cada qual com o seu contexto, é impossível não recordar a escolha de um dos meus ídolos de adolescência, Rui Águas, ou a escolha de Paulo Sousa e Pacheco. Todos fizeram as suas opções, as suas escolhas, olharam para o presente, para o que queriam e, agora, olham também para o que deixaram. Não se pode dizer que foram escolhas certas ou erradas. Foram apenas escolhas que, queiram ou não, implicaram ganhos imediatos e abdicação de possibilidades futuras.
Há quem diga que o momento que marcou o destino de Rui Costa foram as lágrimas derramadas em plena Luz, no momento do tal golo pela Fiorentina. Penso que não. O momento que marcou o futuro de Rui Costa no universo do benfiquismo foi quando sacrificou interesses particulares em proveito dos interesses do Clube, escolheu a Fiorentina em desfavor do Barcelona. Foi um gesto de abdicação, nobreza e benfiquismo que calou fundo em todos nós.
Recentemente, Nuno Gomes escolheu jogar no SC Braga, clube que tem tido um comportamento execrável na forma como recebe os adeptos e futebolistas do nosso Benfica. Ainda mais recentemente, e num contexto completamente diferente do anterior, observámos como Coentrão escolheu 'forçar', até com declarações públicas, a sua saída do Benfica.
Com tudo o que há de legítimo e natural nessas opções, deve haver também a percepção de que, tal como em todas as escolhas, também se escolhe o que se deixa.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 05 de Julhoe publicado na edição de 08/07/2011 do jornal "O Benfica".
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Uns quantos milhões de euros após ter feito juras de amor e de devoção que chegavam a abranger o dia seguinte à eternidade, o treinador Villas-Boas abandonou o seu clube.
Não está em causa o cómico de situação que o seu gesto de abandonar a “cadeira de sonho” acarretou. Aliás, aprende-se com o tempo e contactando com o futebol profissional que, salvo raríssimas excepções, o clubismo e o amor desinteressado ao clube é um exclusivo do 'adepto de bancada', seja em que clube for. Deste modo, rimo-nos todos da situação caricata em que o jovem André deixou o Sr. Costa, sabendo, no entanto, que isso pode acontecer em qualquer clube.
E aqui é que reside o cerne da questão. Durante anos, habituámo-nos a ouvir um estribilho por parte dos ‘opinadeiros’ de serviço do futebol luso que nos dizia, constantemente, que este tipo de situação nunca aconteceria no clube do Sr. Costa, pois este tinha uma “estrutura” de tal ordem perfeita e organizada que nunca isto seria permitido. Esta idiotice foi de tal forma repetida que ainda hoje oiço alguns companheiros de benfiquismo a repetirem esta cartilha como se fosse uma verdade insofismável. Prova-se, agora de forma mais visível, que não há “estrutura”, nem profissionalismo, nem organização, nem ameaças de guardas pretorianas, nem promessas, nem teoria alguma que possa fazer frente à lei do dinheiro. Isto acontece em todos os clubes, todos sem excepção.
Estranho apenas os especialistas que outrora garantiam a infalibilidade do Sr. Costa e que agora alternam entre o silêncio envergonhado e o malabarismo circense, tentando demonstrar que, afinal, o palhaço está travestido em imponente domador de feras. Por mais que tentem mascarar a realidade, a verdade é que a dita “estrutura”, pacoviamente qualificada como infalível, ficou com as calças na mão a uma semana de começar a época. E isto, tal como o aconselhamento familiar a árbitros na antevéspera dos jogos, é um exclusivo da tal “estrutura infalível”.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 28 de Junho e publicado na edição de 01/07/2011 do jornal "O Benfica".
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Manuel Sérgio foi convidado para membro da “estrutura” futebolística do Benfica. Terá a função de consultor.
Foi, nos últimos tempos, a notícia relativa ao Benfica que mais me agradou. Mostra-me um Benfica mais perto da vanguarda, mais perto dos saberes e, logo, mais perto da vitória. Mostra-me que alguém, consciente ou inconscientemente, deu o passo mais importante para se poder conseguir a melhoria. Alguém percebeu que só um Benfica capaz de reconhecer as suas fraquezas e potencialidades competitivas pode melhorar. Saber que o professor Manuel Sérgio foi a pessoa escolhida para ajudar ao desenvolvimento desportivo do Benfica é uma excelente notícia. Significa que alguém se preocupou em pensar a componente desportiva do Benfica como um todo e não como partes independentes. Alguém percebeu que o ‘princípio da complexidade’, o ‘princípio da relação’ e o ‘princípio da motivação’ deverão passar a ser os grandes subordinantes do treino e da competição.
Esta questão parece tão distante do relvado e dos momentos decisivos da bola na trave ou da bola na rede que aparenta ser despicienda. No entanto, que ninguém se iluda, pois já lá vai o tempo em que o futebol estava reduzido a princípios redutores e sujeitos ao carácter aleatório da vontade e da crença espontâneas do futebolista. Hoje, essencialmente devido a pensadores do fenómeno competitivo do desporto, sabemos que esses factores decisivos podem ser compreendidos e condicionados na sua aleatoriedade. A epistemologia da competição desportiva é essencial para compreender a própria competição. Saber que o Benfica deu esse passo é algo que me deixa orgulhoso.
Dado o passo, é importante que agora se saiba aproveitar o passo dado e que dentro da “estrutura” se perceba que o desporto, a competição e o futebol jogado dentro das quatro linhas pode e deve ser verdadeiramente pensado. Só assim, a racionalidade da ideia, do pensamento, pode agir sobre a aleatoriedade do jogo.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 20 de Junho e publicado na edição de 24/06/2011 do jornal "O Benfica".
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Dizia-me recentemente um consócio benfiquista que é essencial olhá-los (aos obstáculos) olhos nos olhos. Nesta singela expressão de benfiquismo está o grande desafio de coragem lançado a Job “Olha de frente tudo o que é grande”. Ou seja, reconhece os obstáculos, reconhece a sua grandeza, e apenas sendo grande os poderás ultrapassar. Para os ultrapassar, olha-os de frente.
Por vezes, é a própria grandeza que se transforma no obstáculo. A dimensão gigantesca do nosso Benfica é a sua maior riqueza, mas essa mesma dimensão pode ser o maior dos obstáculos. Reconhecer, com coragem, esta realidade e olhá-la olhos nos olhos é a única forma de transformar a divisão provocada pela pluralidade na união necessitada pela realidade.
Como é que se pode aglutinar o que, por natureza, é diversificado? Como é que se pode unir o que, por natureza, é diferente? A aglutinação surge espontaneamente nos festejos das vitórias, tal como surge espontaneamente nos momentos em que sentimos em perigo a própria sobrevivência do Benfica. Ou seja, a união surge nos momentos-limite. E o que fazer nos momentos, como o actual, em que as vitórias não surgem, mas o Benfica não está (como esteve num passado não muito longínquo) em perigo de sobrevivência?
Nestes momentos, o único caminho aglutinador é a união em torno das referências, daqueles que têm sido exemplo e testemunho de benfiquismo, daqueles a quem vulgarmente chamamos símbolos do Benfica e exemplos de benfiquismo. Para seguir este caminho aglutinador é preciso olhar olhos nos olhos para tudo o que é grande. É um exemplo de grandeza manter os símbolos do benfiquismo na casa do Benfica. Se queremos unir os benfiquistas, não podemos desviar o olhar desta realidade, temos de nos olhar olhos nos olhos.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 15 de Junho e publicado na edição de 17/06/2011 do jornal "O Benfica".
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Costuma a pré-época ser uma espécie de renovação da esperança, de renovação do optimismo. Esta é-o, mas é também um tempo de reserva, de prudência e de algum cepticismo.
Notamo-lo nas pequenas conversas, nos comentários, na agitação da espuma dos dias que correm. Há ainda uma espécie de cicatrização inacabada das feridas da época findada e a expectativa desconfiada para os tempos que estão para chegar. Entre futebolistas, muitos, que são anunciados e confirmados e ameaça de saída de alguns que têm sido referência e porto de abrigo da alma benfiquista, fica aquela sensação de que vamos, novamente, enfrentar o desconhecido, desconhecendo as reais valias do nosso Benfica futuro.
Este cepticismo é um sentimento legítimo, sabendo que muitos dos nossos receios derivam da suspeita e não da realidade. Tal como sabemos que só enfrentando a realidade podemos dissipar receios passados e confirmar certezas futuras. Nestes momentos, é muito fácil cair num pessimismo sistemático e infecundo ou num pragmatismo de tal forma frio que se transforma em algo de acrítico, algo que subverte a nossa essência.
Assim, o equilíbrio do adepto, nestes momentos, é um exercício difícil e, muitas vezes, incompreendido. Em momentos de indefinição, joga-se o tudo ou o nada futuro, o que exige prudência na análise do momento presente.
Escrevia Miguel Torga que “a gente deve lançar a âncora numa praia verdadeira”. Estou convencido de que a praia verdadeira não é o apocalipse que alguns profetas da desgraça anunciam tal como não é o paraíso que alguns vendedores de ilusões apregoam. Está algures aí pelo meio. Saibamo-nos situar, para encontrar esse indispensável equilíbrio.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 07 de Junho e publicado na edição de 10/06/2011 do jornal "O Benfica".
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Num ambiente de grande perturbação provocada por um militante, pouco inocente e sistemático ruído exterior provocado por um sector específico da comunicação social, continua a preparar-se a próxima época da equipa sénior de futebol.
No entanto, o escarro constante que alguns chefes de redacção fazem no código deontológico da sua profissão leva a que as energias e as atenções que deveriam estar concentradas apenas na dita preparação da época vindoura dispersem pela necessidade de dar resposta às graves acusações que têm sido feitas a alguns responsáveis do Benfica.
Sobre estas acusações, e nos superiores interesses do Benfica, é essencial que as entidades competentes investiguem o que tiverem de investigar, que apurem a verdade dos factos e que este seja um processo justo. Para isso, é indispensável que haja independência e impermeabilidade a pressões. No imediato, louve-se a atitude dos responsáveis do Benfica, pois vieram a público esclarecer sobre a sua reafirmada inocência, não fugiram – ao invés de outros que coincidentemente viajaram para a Galiza – e continuam a poder andar de cabeça erguida.
Dito isto, importa que não sejamos ingénuos e saibamos que todo este ruído não aproveita apenas aos nossos rivais desportivos. Além de outros que se movimentam em águas bem mais profundas, lembremo-nos que também desse ruído contam tirar proveito alguns dos que esperam pela futura renegociação dos direitos de transmissão televisiva. Sabendo a quem aproveita o ruído, resta saber quem o provoca e agir em conformidade.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 29 de Maio e publicado na edição de 03/06/2011 do jornal "O Benfica".
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O processo é um velho conhecido e há velhos conhecidos em certos órgãos de comunicação que o desenvolvem com esmero.
Por esta altura, entre o balanço do que foi o passado recente e o vislumbre do que poderá ser o futuro imediato, surge sempre alguém que aparenta ter como incumbência minar a confiança, lançar a insinuação e provocar um ruído de fundo de tal ordem que inquina qualquer possibilidade de comunicação. Vemo-lo há bastos anos e revemo-lo no momento presente.
Nestas últimas semanas, o jornal “Record” tem surgido com conteúdos relativos ao Benfica de tal modo absurdos e ofensivos que apenas os entendo como provocação para com os benfiquistas ou como incompetência por parte dos responsáveis por tal publicação. Não os interpreto como má-fé, pois a julgar pela falta de qualquer pedido de desculpas aos leitores após sucessivos e abusivos ‘enganos’ depreendo que aquela gente acredita piamente na estrutura granítica da sua coluna vertebral. Dizem-me alguns que a culpa é das fontes inquinadas onde bebem a informação. A esses, digo-lhes que só os toleirões bebem água de fontes que eles próprios poluíram.
Como benfiquista e consumidor de informação desportiva, resta-me apenas não comprar esse pasquim que já foi um jornal. Obviamente que daqui não vem mal ao mundo e que com esta decisão nada mudará na sólida e granítica estrutura moral dos responsáveis por um pasquim que mente aos seus leitores.
Além disso, desejo que essa estrutura seja suficientemente sólida para não necessitar dos consumidores benfiquistas. Caso assim não seja, ficarão orgulhosamente a exibir o granito da estrutura, enquanto estendem a mão aos benfiquistas, para que, mais uma vez, lhes remendemos os telhados de vidro.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 24 de Maio e publicado na edição de 27/05/2011 do jornal "O Benfica".
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Recentemente surgiram declarações de um ex-árbitro, Jacinto Paixão, em que este confessava ter sido corrompido, para beneficiar o clube do Sr. Costa em troca de favores sexuais. E que, além disso, tal como a família Calheiros em tempos idos, também viajou por conta, através da agência Cosmos.
Não são boatos, não é o “disse-que-disse”, não são escutas telefónicas. É uma declaração confirmada. Um ex-árbitro declarou, sem margem para dúvidas, que fez parte de um esquema de corrupção desportiva. Ou seja, declarou-se como fazendo parte de um esquema criminoso e colocou em cima da mesa o nome da instituição que o aliciou. Não fosse o caso estranho, pioneiro e absurdo de em Portugal se poder dar a situação de se reconhecer a existência de corrupção e de corrompidos sem que se consiga provar a existência de corruptores e diríamos que tudo isto não passa de “fina ironia”. Uma ironia que escarnece da Justiça e envergonha o País.
Chegados aqui, é importante que os benfiquistas não percam a orientação. Este Paixão que agora denuncia a corrupção é o mesmo que, alegadamente, aceitou favores sexuais para prejudicar… o Benfica. Ou seja, esta paixão súbita pela verdade desportiva já se manifestara anteriormente em paixão duradoura contrária à mesma verdade e com claro prejuízo do nosso Benfica.
É importante, é mesmo essencial, que tenhamos presente a lição do provérbio bíblico que nos diz: "A sabedoria do prudente é entender o seu próprio caminho, mas a estultícia dos insensatos é enganadora". Ou seja, o caminho do Benfica não pode ser calcorreado na companhia da estultícia dos insensatos. Por mais arrependidos que se mostrem.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 17 de Maio e publicado na edição de 20/05/2011 do jornal "O Benfica".
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Terminada a meia-final da Liga Europa, o senhor Costa não resistiu à “fina ironia” e, pormenor que parece ter escapado à maioria, perdeu a compostura enquanto levantava a voz para exigir que os benfiquistas que, semanalmente, participam em debates televisivos se calassem. “Que se calem!”, vociferou por duas vezes o senhor Costa.
Compreendo o aborrecimento. O clube do senhor Costa ganhou com mérito, mas também ganhou de forma suja. Semanalmente, alguns dos benfiquistas recordaram essa mesma sujidade. Para o senhor Costa eram mais fáceis os tempos em que a docilidade de alguns comentadores e as pressões de alguns canais televisivos faziam com que essa sujidade se pudesse varrer para baixo do tapete, enquanto assobiavam para o ar. Agora não. Além da Benfica TV, há outros canais e outros comentadores que, sem medo, recordam a forma suja com que se alcançaram algumas vitórias. De entre as vozes que merecem o nosso apoio, destaco a de Manuel dos Santos (em debates radiofónicos) e a de Rui Gomes da Silva (em debates televisivos). É importante que sejam os benfiquistas e o Benfica os primeiros a defenderem quem nos defende de forma convicta e que, sem pejos e colocando em risco a própria integridade física, recorda as verdades que tanto incomodam o senhor Costa.
No entanto, as pressões que os amigos do senhor Costa fazem para silenciar essas e outras vozes começam a medrar. Vejo, com um misto de estupefacção e incredulidade, que há quem prefira, em nome de um silêncio ensurdecedor, que essas verdades incómodas não sejam recordadas. Foram demasiados anos a “comer e calar”. Foram demasiados anos a sujeitarmo-nos à ordem “Que se calem!”. Agora não se pode permitir que essa ordem volte a silenciar os benfiquistas. Ceder a essa renovada retórica do politicamente correcto é ceder à ordem do senhor Costa, é deixar de o incomodar com a verdade, e isso já não é admissível. Não é admissível em lado algum e muito menos dentro da nossa casa.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 10 de Maio e publicado na edição de 13/05/2011 do jornal "O Benfica".
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Olhar para o desempenho de uma equipa de futebol, para uma equipa de dirigentes ou para qualquer outra equipa é, também, observar o sucesso das lideranças. Por exemplo, quando observo o desempenho individual de cada um dos futebolistas do nosso Benfica, vejo as suas capacidades e a sua crença. Observa-se em que medida crê no modelo de jogo que interpreta, crê em si e crê nas ideias de quem o lidera. Quando o homem crê, o atleta quer. À junção do querer e do crer chama-se motivação.
No entanto, para que a motivação individual surja, é indispensável que haja na liderança a visão para detectar o talento, a potencialidade. Haja a coragem para desenvolver essa potencialidade e a lealdade para, pelo exemplo, motivar e unir um grupo (seja uma equipa ou uma massa associativa). Para isso, é importante que todos percebam que a vivência do sucesso não permite que se deixem de correr riscos, particularmente o risco de nos colocarmos em questão. Não há liderança onde não há conhecimento das virtudes e reconhecimento dos erros. Isto implica que uma das grandes marcas de uma liderança eficaz acabe por ser a reflexão sobre os erros cometidos e a capacidade de evoluir. Quem não tiver esta ousadia não será um líder. Quando muito será um chefe. Um líder deverá ter em si a loucura, o optimismo e a humildade para confiar na sua capacidade de aglutinar, motivar e, sempre que for caso disso, de mudar. Sendo que esta mudança, quando ocorre, deve revelar-se, antes de em qualquer outro, em si.
Nunca se poderá fazer um balanço do que foi, e está a ser, o momento presente do nosso Benfica, se não houver a ousadia e a humildade de questionarmos o nosso compromisso pessoal para com o Clube. Para este acto de liderança todos somos chamados: desde o presidente ao treinador, passando pelos atletas e, essencialmente, pelos adeptos.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 3 de Maio e publicado na edição de 06/05/2011 do jornal "O Benfica".
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Chegados aqui, a pouco mais de vinte dias do final da época, vivemos todos – adeptos, atletas, dirigentes – a ansiedade de saber, antecipar, adivinhar o futuro, o Destino.
Mas, ao contrário da “Anankê” grega, este é um Destino sobre o qual pode agir a condição humana. Escrevo este texto quando faltam dois jogos para atingir uma final europeia e três jogos para um título europeu. Três jogos para poder inscrever o nome na História, três jogos para que cada atleta, cada adepto, cada um dos que vive o Benfica possa inscrever o nome no tempo e, desta forma, transcenda a condição humana e se eleve à condição de herói.
A condição de herói não se consegue sem sofrimento. O saber latino ensinou-nos que “ad augusta per angusta”. Ou seja, alcança-se a glória através das provações. Pessoa dizia que “Quem quer passar além do Bojador / Tem que passar além da dor”. Também nós, benfiquistas, sabemos que o sofrimento está na antecâmara da glória. Na nossa História nada nos foi dado, nada nos foi facilitado e tudo o que conseguimos teve de ser conquistado com sacrifícios. Numa época em que se recordam, celebram e homenageiam os primeiros benfiquistas que conquistaram a Europa, tenhamos nos exemplos dos que eram liderados por Coluna e Águas a inspiração para perceber que a diferença entre a memória e o esquecimento está na capacidade de superarmos as nossas fraquezas. Ser Benfica é também isto. Exige o tempo presente que o saibamos ser de forma exemplar.
Escrevo este texto antes do primeiro jogo da meia-final da Liga Europa. Escrevo-o com a confiança de que todos os que são Benfica sabem o caminho para agir sobre o Destino. Sei que há que chorar juntos para podermos conquistar juntos. Esta época já chorámos. Agora chegou o momento de conquistar!
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Artigo de opinião publicado também na edição de 29/04/2011 do jornal "O Benfica".
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Nos últimos meses, Pinto da Costa, que tem o exclusivo nacional daquilo a chamam “fina ironia”, chamou ‘filho da puta’ a um jornalista, ‘palhaço’ a um dirigente do Benfica e, recentemente, referiu-se a um adepto do Benfica como alguém sobre o qual Victor Hugo escreveu “Os Miseráveis”. Tudo se lhe aceita, nada se lhe condena.
No entanto, uma inquietação deveria atormentar esse varão pio da fina ironia. Referir-se à obra “Os Miseráveis” deveria obrigá-lo a conhecer mais da obra do que apenas a leitura do título. Saberia o dito varão que Jean Valjean foi o miserável condenado, perseguido e atormentado durante toda a vida por ter roubado um pão para alimentar a família. De entre os que o perseguiram, destacava-se Javert, o implacável, obsessivo e patético inspector de polícia. O mesmo que usava e abusava do seu poder, para, em nome de uma moral muito própria e questionável, perseguir Valjean. E como não recordar Thénardier?! O corrupto dono de uma estalagem que se viria a associar a um bando de criminosos, terminando os dias como traficante de escravos. Uns em nome da justiça, outros em nome do bom nome que herdaram se arvoraram em baluartes da ordem, da moral e dos bons costumes. Todos eles se demonstraram verdadeiros miseráveis. Abusaram do poder, chantagearam, perseguiram e, pontual e despudoradamente, vitimizaram-se. De entre todos, o que pôde terminar a longa saga de Victor Hugo sem o epíteto de ‘miserável’ foi Jean Valjean. A miséria humana ultrapassa a miopia dos homens e, para quem leu mais do que o título da obra, é óbvio quem são os miseráveis a quem Victor Hugo se refere.
Ao varão lusitano e ilustre detentor do exclusivo da ‘fina ironia’ recomendo a leitura dos grandes escritores do Século XIX. Pode começar por Vitor Hugo e terminar no nosso Eça. O mesmo Eça que escreveu “Que Deus o proteja, e a polícia o não incomode!”.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 22/04/2011 do jornal "O Benfica".
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Nos dias que correm, tudo, mas literalmente tudo, serve para atacar o bom nome do Benfica. Agora, até o presidente do Vitória de Setúbal insulta os profissionais do nosso Clube porque, pasme-se, o Benfica não conseguiu vencer o Portimonense e a Naval. Eu, como benfiquista, também fiquei agastado, mas não esperava encontrar em Fernando Oliveira um companheiro de lamentação.
O inesperado da situação prende-se, essencialmente, com dois motivos. De facto, já vira presidentes adversários a decidir nomeações de árbitros, árbitros assistentes, observadores e, inclusive, a decidir sobre a constituição de plantéis de clubes satélite disfarçados de adversários. Até já vira dirigentes a tomar decisões sobre a oportunidade das famosas lesões na glândula da decência que impedem alguns futebolistas de clubes adversários de defrontar o seu clube. Mas nunca vira nenhum presidente de nenhum clube onde essas práticas aparentam ser correntes a querer tomar decisões sobre a constituição da equipa do Benfica. Fiquei surpreendido, pois Fernando Oliveira chegou a pensar em poder fazer no Benfica o que outros, aparentemente, fazem no seu Vitória.
O segundo motivo que me leva a tal espanto, prende-se com o facto de só agora Fernando Oliveira ter incluído a expressão “um jogo entre amigos” no seu discurso. Eu, por exemplo, já a uso há bastante tempo. Uma das vezes em que a usei foi em Abril de 2009, num jogo entre o Vitória de Setúbal e o FC Porto. Para os mais distraídos, foi o jogo do famoso ‘minuto 58’, o fatídico minuto em que, certamente por coincidência, Leandro Lima e Bruno Gama, jogadores emprestados pelo FC Porto ao Setúbal, e que estavam a ser os dois jogadores mais perigosos dos sadinos, foram substituídos. Antes da substituição o jogo estava empatado. No final, os de Setúbal tinham perdido para os do Porto.
Nesse dia não ouvi o actual presidente do Setúbal falar em verdade desportiva nem no infame minuto 58. Possivelmente, estaria a festejar a vitória dos amigos sobre o seu Vitória. De facto, de “jogos entre amigos” percebe ele.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 15/04/2011 do jornal "O Benfica".
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Não é o FMI, a crise, a corrupção ou o novo campeão nacional que marcam a actualidade portuguesa. Não, o que está na ordem do dia é o acto de desligar o interruptor que cortou a luz que testemunhava a festa de um clube rival no nosso Estádio.
Esse gesto – que eu considero precipitado e pouco digno dos pergaminhos do nosso Benfica – tem servido para que os bobos da corte se arvorem em torquemadas do moralismo. Assim, tem sido um desfilar patético de moralidadezinha em bicos de pés. O que se está a ver é um desfile hipócrita, em que tentam colocar um apagão no mesmo patamar de anos e anos de violência e crimes de corrupção. Critico o apagão, mas não dou para o peditório dos anjinhos de procissão que tentam branquear, com um apagão, trinta anos de crimes de lesa-desporto, lesa-futebol e lesa-país. Neste cortejo de penitentes, estão lá todos os que calaram, esconderam e branquearam recentes e idos episódios de violência. Episódios indignos que por muito pouco não resultaram em tragédia. Em suma, para este peditório não dei nem dou.
Registo que, em Lisboa, os dirigentes do adversário do passado fim-de-semana puderam passear-se antes do jogo. Fizeram-no em paz. Registo que, em Lisboa, os adeptos rivais podem festejar livremente na rotunda do Marquês de Pombal. Registo que, em Lisboa, nenhum adepto do FC Porto teve de se barricar na casa desse clube para proteger a sua vida.
Registo que o único mérito que o dito apagão teve foi o de iluminar a face dos que acenderam a velinha da hipocrisia moral. Agora, conheço-lhes as sombras do rosto.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 08/04/2011 do jornal "O Benfica".
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Esquecera-me de que jogava a selecção portuguesa. Liguei o rádio, ouvi a informação de que o lateral se lesionara e que dificilmente jogaria até ao final da época. Seguiram-se momentos de incerteza e ansiedade. Qual dos laterais, o esquerdo ou o direito? Fábio Coentrão ou João Pereira? O nosso ou o dos outros? Durante aqueles segundos, apenas me lembrava da lesão do Simão, há uns anos, num triste jogo pela selecção que já foi a de todos nós.
A informação chegou: o lesionado não era o Coentrão. Alívio para os nossos e solidariedade para com o atleta adversário. Nestes jogos amigáveis e inúteis da selecção da Federação Portuguesa de Futebol, encaixados de forma canhestra num calendário de competições igualmente mal-amanhado, vai toda uma sensação de indiferença que só não é total porque está presente a preocupação de que ninguém se lesione. Considero o jogo ganho, quando não vejo nenhum dos nossos no relatório clínico.
Estes jogos amigáveis surgem encavalitados antes de um Benfica-Porto. Partida que, com tudo o que traz de rivalidade, é sempre um clássico que faz extremar paixões e que nenhum adepto admite que seja encarada com ligeireza. Paulo Bento, o seleccionador, numa atitude míope e autista, já garantiu que nunca terá em consideração o contexto competitivo dos clubes e exigirá entrega total a todos os atletas. Nunca é agradável ver um seleccionador encher-se de brios e confundir convicções com cegueira. Impor-se assim, de forma absoluta e ignorando o contexto, é apenas negar-se e nunca afirmar-se.
Enquanto adepto não posso ignorar o contexto dos jogos e, preocupando-se Paulo Bento apenas com a sua equipa, sinto-me legitimado a preocupar-me apenas como meu Clube. Neste caso, a minha Selecção Nacional é o Benfica. E este é o interesse supino que me cabe defender.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 01/04/2011 do jornal "O Benfica".
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Mais uma agressão cobarde, mais um momento de vergonha. Quando li a notícia de que o autocarro do Benfica e o automóvel do seu presidente haviam sido apedrejados, perto da cidade do Porto, só pude lamentar. O lamento pelo futebol, pelo país, pela banalidade com que se perpetra e encara a violência.
Estes actos são extremamente graves, recorrentes e recorrentemente são branqueados. Sabemos todos de quem é a mão escondida que atirou a pedra. Sabemos todos onde está o rosto da cobardia, da violência e do crime. Sabemos também que a impunidade do crime se deve a responsáveis políticos e judiciais que, durante décadas, se demitiram das suas responsabilidades.
Um dia – haverá sempre um dia – os que mais calaram, os que mais contribuíram para este reles estado de impunidade, serão os primeiros a rasgar vestes e a lamentar a tragédia que se adivinha. Caso não haja uma responsabilização clara e objectiva do maior dos responsáveis por esta camorra que mata o futebol e contamina o país, deixaremos as lágrimas do drama e entraremos no sangue da tragédia. Os indícios são claros e só os não vê quem tem algo a ganhar com a manutenção deste insustentável estado de podridão.
Perante mais uma agressão vil, importa que, por parte do benfiquismo, não se caia na tentação de responder na mesma moeda. Seria um erro, pois imediatamente as canetas de aluguer transformariam os verdugos em vítimas. Para aqueles que desesperam com a inoperância de quem tem de zelar pela lei e pela ordem; para aqueles que sentem ser impossível mudar esta cultura reles e suja que agride o futebol… resta confiar na certeza de que o impossível só demora um pouco mais. Mas chegará.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 25/03/2011 do jornal "O Benfica".
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Experimentar as tensões do confronto de ideias só é negativo para quem ignora a possibilidade de as resolver pelo discernimento. A resposta possível às tensões é procurar o discernimento de nos situarmos nas balizas – e não à margem – dos valores edificantes.
Rui Gomes da Silva, vice-presidente do Benfica, sabe onde se situa, não foge às tensões, apresenta-se e expõe (expondo-se) pública e corajosamente as suas ideias na defesa do nosso Benfica. Isto só é crime para criminosos que não têm o discernimento de resolver as tensões e norteiam os seus valores pela razão da violência. Foi por não abdicar da defesa intransigente do Benfica que aquele benfiquista foi gratuitamente agredido na cidade do Porto.
Qualquer pessoa de bem só pode lamentar e solidarizar-se com Rui Gomes da Silva. Muitas pessoas de bem o fizeram. O presidente do FC Porto não o fez e, pior, agrediu-o verbalmente. Ao fazê-lo, legitimou, mais uma vez, uma espúria manifestação de cultura doentia, perversa e reles que envergonha qualquer pessoa e qualquer instituição de bem.
Ao chamar “palhaço” ao vice-presidente do Benfica, o presidente do FC Porto assumiu-se publicamente como um modelo de líder que vive valores precários e provisórios. Valores que, tal como a sua liderança, estão condenados à derrota porque estão alicerçados na periferia da verdade e da honra. São valores incapazes de contagiar pela positiva e que medram na violência, no ódio e em todas as margens da civilidade. Por isso, as suas palavras envergonham todos os que não são marginais. Por isso, as suas palavras são seguidas apenas por marginais. Por isso, só podem ser classificados como marginais os que, cobardemente, agrediram um vice-presidente do Benfica.
Na vertigem do momento e na impaciência do presente, os vis tiranetes vivem a ilusão da vitória. No entanto, a História demonstra que a vitória nunca é agarrada pelos que vivem na margem e à margem da verdade e da justiça.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 18/03/2011 do jornal "O Benfica".
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No Minho tenho vários e bons amigos. É gente de grande dimensão humana, daqueles que fazem questão de espelhar na hospitalidade a honra e a verticalidade que os norteia na vida. No Minho, em Braga, o Benfica foi, mais uma vez, mal recebido. Foi recebido, de forma indigna e mal-educada, por gente pequena que espelha na hospitalidade a tacanhez e a vergonha que os norteia.
Tal como não aceito que se confunda Portugal com o Benfica – pois o Benfica é muito maior do que Portugal – não aceito que se confunda a cidade de Braga com o Sporting de Braga actual, pois este é muito mais pequeno do que a cidade que indignamente representa.
As atitudes parolas e incendiárias do speaker de serviço na ‘pedreira’ são eco da política de parolice e pateguice implementada pelo seu actual presidente, o primeiro responsável pela violência e pelo acicatar da jagunçada acéfala que, pelos seus actos, escarra na história do próprio clube.
Após dezoito vitórias consecutivas, o Benfica perdeu em Braga. Perdeu para um árbitro que, repetidamente, reproduz em campo as tendências anti-benfiquistas que desabafa em privado. Perdeu para uma parelha de árbitros assistentes que reproduziram em Braga uma incompetência calculada e idêntica à que apresentara em Guimarães. Perdeu para um clube que, actualmente, reproduz uma cultura bebida, apreendida e encomendada noutras paragens.
Como benfiquista, lamento a derrota. Como observador do futebol, lamento as circunstâncias da derrota. Como benfiquista, sei que nenhuma derrota nos abate. Como observador do futebol, sei que este tipo de vitórias, conseguidas com base na violência, abaterá o clube que as consegue.
Clubes que, como o actual Braga, cospem na sua história e subvertem a sua matriz acabarão como acabam todos os corpos que servem de hospedeiros aos parasitas que lhes sugam a vida.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 11/03/2011 do jornal "O Benfica".
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O benfiquismo renovou-se, em festa, no dia 28. Mais de cem anos depois de os fundadores terem ousado sonhar o Benfica, uma obra em eterna construção, o benfiquismo demonstra-se saudável.
Serve a evocação simbólica da data fundadora para recordar que o Benfica se transformou em muito mais do que um clube, uma marca ou um produto. O Benfica transformou-se num veículo de valores morais e responsabilidades sociais que ultrapassam a miopia da espuma dos dias.
Hoje em dia, podemos olhar para a nossa história com a certeza de que nada nela nos envergonha e muito dela nos orgulha. Tivemos a dignidade de nos construirmos com vitórias e derrotas, com sonhos e frustrações, mas sempre com a honra de não alicerçarmos o nosso benfiquismo em práticas criminosas de corrupção desportiva. Também nisto nos diferenciamos de alguns, e também por isso podemos olhar para os nossos adversários com orgulho na nossa identidade e de olhos nos olhos.
No entanto, esta herança gloriosa implica responsabilidades para quem tem a honra de a viver diariamente. Obriga-nos a perceber o Benfica como uma causa e o benfiquismo como uma missão. Obriga-nos a que esta vivência seja absoluta e incondicional. Esta herança não permite que o benfiquismo seja uma vivência sujeita à volatilidade do momento, ao hipotético desânimo de circunstância ou aos caprichos das vaidades pessoais.
Tudo o que for aquém disto é ficar aquém da herança que festejámos no dia 28 de Fevereiro.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 04/03/2011 do jornal "O Benfica".
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Por mais que outros se coloquem em bicos de pé, o grande confronto desportivo, o que apaixona o país, o que se assume como grande clássico entre os clássicos portugueses é o Benfica – Sporting.
Independentemente dos momentos e contextos que condicionam a qualidade e o desempenho das suas equipas de futebol, o suporte histórico destes dois clubes faz com que a vitória represente para os respectivos adeptos uma questão de honra. E com esta não se brinca, nem se admitem brincadeiras. Nos dias que antecedem o jogo, este transforma-se no alfa e ómega das conversas quotidianas dos adeptos. Cada adepto revê a sua paixão clubista nos futebolistas que defendem as suas cores. Cada discussão que antecede o jogo é uma evocação de rugas, de vincos do passado, mas é também é um encontro de desejos e esperanças.
Felizmente, vencemos o Sporting, concretizámos a esperança e juntámos este jogo às boas memórias, às tais rugas que nos ajudam a inscrever os momentos no devir da história. Agora, importa salientar que só vencemos o jogo porque na base do talento, da organização e da qualidade do nosso jogo esteve o empenho e a capacidade sofrer. Depois do árbitro nos inibir com uma chuva despropositada de cartões amarelos e de sermos obrigados a jogar metade do jogo com menos um em campo, restava responder ainda com mais entrega, com mais humildade. Soubemos ser humildes e isso deu-nos a vitória.
No final, resta apenas tentar digerir o sucesso ou insucesso com a dignidade a que a história dos nossos clubes nos obriga. Que o benfiquismo vencedor saiba festejar os nossos sem humilhar os outros, e que os vencidos saibam respeitar o mérito de quem alcançou os louros de forma limpa e justa. E, mais do que tudo, saibamos nós, benfiquistas, viver o benfiquismo em função do Benfica e não em função do gratuito apoucamento alheio. Isto também faz parte da tal humildade que nos faz enormes e gloriosos.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 25/02/2011 do jornal "O Benfica".
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O futebol é jogo, desporto, competição e espectáculo. A partida entre o Benfica e o Guimarães foi tudo isso e, também, arte. O Benfica venceu, marcou três golos, anularam-lhe mais dois, desperdiçou uma grande penalidade, acertou com a bola uma vez na barra e outra no poste. Juntou à competição, um espectáculo de dinâmica, estética e virtuosismo. As bancadas encheram-se de benfiquistas incondicionais que esqueceram a chuva, o frio, o atraso pontual para o primeiro classificado e mostraram como um grande espectáculo tem obrigatoriamente um grande público. Depois de termos visto aquele passe de quarenta metros do Sidnei para a mestria do Aimar e para golo que este marcou, lembrámo-nos de Beckenbauer e Maradona. Lembrámo-nos dos que fizeram com que vivamos esta paixão por um desporto que se sabe transformar em arte. Depois de termos visto aquele chapéu fabuloso do Carlos Martins, recordámos a espontaneidade irreverente de Cantona e percebemos como a genialidade livre se manifesta sem pedir licença ao calculismo. Depois daquele jogo, os espectadores transformaram-se em testemunhas do que há de melhor num desporto chamado futebol.
Dois dias depois, recordo o que Santiago Segurola, director adjunto do jornal espanhol “Marca”, escreveu em 2008. «Es terrible lo que está pasando en el fútbol, un poco ante la mirada condesciente del periodismo. En los últimos años se han comprobado casos […] de compraventa de partidos tanto en Italia como en Portugal, con equipos como la Juve y el Oporto en medio del embrollo.»
E lembro-me de que também somos testemunhas do que de pior há no futebol: a batota, a subversão suja das regras. Releio as palavras de Santiago Segurola e recordo-me de que também somos testemunhas de que em Itália chamam corrupção à batota, e de que em Portugal a batota é denominada ‘fina ironia’. Perante isto, só nos resta não ser testemunhas silenciosas.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 18/02/2011 do jornal "O Benfica".
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Na minha Beira Baixa natal, aprendi, pelo exemplo, o que representava ser um povo da ‘rama do castanheiro’. Entre a teimosia de não vergar e a resistência epidérmica a quebrar está uma crença telúrica de que vivemos o Mito de Anteu porque, independentemente de onde nos encontremos, trazemos connosco as encostas da Serra da Gardunha. E, quando tudo parece perdido, sabemos que desistir não é opção.
Olho para o nosso Benfica, sinto a inabalável crença do benfiquismo e encontro essa mesma crença, essa mesma fé, essa mesma cepa comparável à estrutura de quem é feito da ‘rama do castanheiro’.
Ninguém pode desistir no meio da tempestade. Ninguém pode olhar para o atraso pontual no campeonato e renegar a cepa do benfiquismo, desistindo. E ninguém o está a fazer. A equipa luta com a abnegação de quem, contra a frieza dos números, tem uma crença total nas suas próprias capacidades para renovar o título de campeão nacional. Nós, os benfiquistas, acompanhamos a equipa nessa crença. Adeptos e equipa vão a par nesta teimosia de não quebrar nem torcer diante das adversidades. Perante esta demonstração de fé inabalável, os adversários demonstram-se nervosos, desorientados e receosos.
Os que se dizem observadores imparciais (como se os houvesse…) demonstram cepticismo e chamam ilusão a toda esta fé e obstinação do benfiquismo. Não percebem que, como escreveu Miguel Torga, “Triunfar é ir cego para a meta, contra a força dos próprios impulsos. Os deuses do êxito, quando nos abençoam, querem-nos tão desalmados como eles.”
É assim que nos sentimos, abençoados pelos deuses do êxito, sabendo que triunfaremos se mantivermos este sonho, esta ousadia de nos recusarmos a ver a derrota, de nos recusarmos a vergar e quebrar. Tal como aprendi com o povo da ‘rama do castanheiro’, tal como aprendi com o benfiquismo.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 11/02/2011 do jornal "O Benfica".
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Combinava-se que o tempo, a duração do jogo, se media em golos (mudava aos cinco e acabava aos dez), dividíamo-nos em duas equipas, media-se a baliza em passos e fazia-se das mochilas da escola ou dos paralelos da rua os seus postes. Preparado o campo, escolhíamos quem queríamos ser, acreditávamos ser os nossos ídolos, tínhamos a capacidade de nos ‘outrar’, de sermos o outro.
Encarnávamos a categoria senhorial do Humberto, a força e a determinação do Toni, a eficácia do Nené, a frieza do Filipovic, o carisma do Bento ou o talento ímpar do Chalana. E, deste modo, ‘outrando-nos’, elevávamo-nos ao patamar dos nossos ídolos e elevávamo-los à condição de heróis, numa condição situada algures entre os homens e os deuses. Não era por acaso que, na inocência infantil de quem escolhia os nomes com a simplicidade de quem olha para o mundo com olhos limpos, havia nomes escolhidos, e até disputados, em contraste com outros sistematicamente ignorados. Era um critério que ultrapassava o mero reconhecimento do talento, implicava algo de bem mais profundo, mas menos mensurável. Escolhíamos os nomes daqueles com quem nos identificávamos, aqueles nomes que, num processo que não se explica, mas que se sente, tinham conseguido uma relação tão especial com os adeptos que os sentíamos como património colectivo do benfiquismo e não apenas como bons jogadores do Benfica. E, nestas coisas, a miudagem não se engana.
Contava-me, na terça-feira, uma grande benfiquista que vira a Carolina, uma benfiquista dos sete costados e tenros anos, largar uma lágrima grossa e sincera por causa da transferência do David Luiz. Não foi por acaso, foi porque o David Luiz conseguiu, nos tempos actuais, a tal identificação com o benfiquismo. A tal que não se explica, mas que se sente.
Que sirva de consolo à Carolina o facto de o David Luiz ter saído do Benfica, mas ter levado em si o benfiquismo que todos partilhamos.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 05/02/2011 do jornal "O Benfica".
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No passado fim-de-semana houve atitudes reprováveis no final do jogo com o Nacional da Madeira. Um dos intervenientes foi Jorge Jesus, treinador do nosso Benfica.
Imediatamente se levantaram vozes indignadas, sedentas de sangue, a dar voz à medíocre moralidadezinha hipócrita dos opinadores de bolso. Rui Santos foi o primeiro a exigir uma punição exemplar para Jorge Jesus [que Jorge Jesus não se esqueça de lhe dar mais uma entrevista exclusiva no final desta época…]. E depois vieram todos os outros, com ar mais ou menos indignado, mais ou menos compungido, mais ou menos convincente, mas todos, todos sem excepção, com o ferrete da hipocrisia estampado na máscara de justiceiro de bairro com que se apresentaram.
Os que calaram perante as escutas em que um presidente de um clube recebe um árbitro na antevéspera de um jogo, os que calaram perante as escutas em que se ouvem árbitros a pedir prostitutas a dirigentes de um determinado clube em troca de serviços prestados, os que mascaram o crime de corrupção em malabarismos de linguagem e que à prática da corrupção chamam “estilo de liderança” são os mesmos que exigem punições exemplares para um ‘crime de lesa futebol’ constituído por uns empurrões e duas bofetadas que nem ao destino chegaram.
O que aconteceu no final do dito jogo foi lamentável, mas foi menos lamentável do que as exibições públicas de moralismo bacoco, parolo e pequeno que se lhe seguiram. Quem calou e ajudou a branquear a corrupção não tem qualquer autoridade para levantar a voz, exigindo punições sumárias e exemplares para… um par de empurrões.
Além destas reacções, uma outra houve, por parte do treinador do Porto, que merece uma resposta clara e inequívoca por parte de Jorge Jesus. Que a resposta lhe seja dada dentro do campo, num jogo de futebol que não esteja condicionado pela oferta de “fruta para dormir”.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 28/01/2011 do jornal "O Benfica".
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Há uma diferença entre ‘memorizar’ e ‘saber de cor’. Há quem memorize, racionalize o saber mecânica e esforçadamente e que, depois, com eficácia o demonstre. Saber de cor é o saber do “cuore” italiano, do “coeur” francês ou do “coração” português. É um saber emocional, intrínseco, espontâneo e natural.
Saviola e Aimar conhecem-se de cor, sabem-se de cor e jogam de cor. Desde os tempos iniciais do River Plate que esta dupla se complementa e se constrói em campo. O mundo do futebol conhece-os desde o início, admira-os desde o início e esperava o reencontro desta dupla mítica no seu clube de origem. Só um clube mítico como o Benfica poderia antecipar e antecipar-se à história, promovendo o reencontro destes dois predestinados. E é importante que a história sublinhe o papel que Rui Costa (outro dos que conhece o futebol e o benfiquismo de cor) teve na promoção do reencontro destes dois maestros no nosso Benfica.
Daqui a muitos anos, quem escrever a história do futebol mundial continuará a dar testemunho desta dupla argentina que tem a faculdade de transformar o talento em arte. E nesse testemunho, nessa eternização destinada aos heróis, aos que se transcenderam, estará o símbolo do Benfica, do nosso Benfica. E isso é uma honra. Da mesma forma que é também para eles uma honra poderem ter na sua história, no seu percurso de vida, a responsabilidade de terem representado o Benfica.
Tenhamos a noção de que o talento que se complementa em Aimar e Saviola não é o resultado de uma aprendizagem, é antes uma disposição inata do espírito. É um encontro de talentos que se reconhecem e se sabem de cor. Pergunto-me se nós, benfiquistas, temos a noção de que uma das mais belas páginas da história do futebol está a decorrer no Benfica.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 21/01/2011 do jornal "O Benfica".
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Com fina ironia, nos últimos 30 anos instalou-se uma espécie de cultura do medo e da ameaça no futebol português.
Há jornalistas ameaçados, chantageados, agredidos e humilhados. Confessam-no em privado, negam-no em público. Há árbitros vendidos, impunemente comprados, escutados a pedir favores em troca de favores e que ficam, convenientemente, calados numa teia de dependências habilmente montada. Há juízes que se julgam à margem da lei e que, com fina ironia, riem da beca que envergam e envergonham.
Há políticos que recebem ameaças à democracia na casa da democracia e que, ironicamente, mais do que prestigiar o convidado desprestigiam a missão que lhes foi dada pelo povo. E em nome do povo ajoelham e beijam a mão a quem escarnece da justiça num Estado de direito. Tudo isto servido com ironia mais ou menos fina consoante a ocasião. E todos sabemos que a ocasião faz o ladrão (sem ironias).
Há quem tema opinar sem amarras e livremente criticar e questionar. Há quem aceite a canga do medo e, em nome da necessidade, queira amordaçar a verdade que um dia será gritada.
Quando se fizer a autópsia do futebol português dos últimos anos, encontrar-se-á uma ficção feita de fina ironia e de medo. Ainda assim, restam-me duas certezas: a de que o benfiquismo não aceita hoje, como nunca aceitou, cangas e mordaças; e a certeza de que todos os que viveram a meter medo acabaram, ironicamente, a meter dó.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 14/01/2011 do jornal "O Benfica".
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A história demonstrou que, quando a justiça de Atenas matou o seu mais célebre pensador, a cicuta matou a justiça e ajudou a eternizar o pensador. Na miopia do presente, quem lidera os árbitros que no jogo têm a obrigação de aplicar as regras com justiça considera que faz justiça ameaçando quem se queixa das injustiças.
Na semana passada, Jorge Jesus referiu-se, numa entrevista, às más arbitragens que têm influenciado resultados e, consequentemente, a pontuação dos clubes.
A resposta de Vítor Pereira foi desajustada, canhestra e pequenina. Foi uma resposta tendenciosa, ao nível das arbitragens perpetradas pelos árbitros que ele dirige. Vítor Pereira não argumentou, não refutou com factos e não demonstrou a hipotética falta de razão de Jorge Jesus. Vítor Pereira, para demonstrar a sua razão em desfavor da razão alheia, limitou-se a ameaçar o Benfica, dizendo que quem se queixa das injustiças será ainda mais injustiçado.
Já me habituara a ver Vítor Pereira em ladainhas de circunstância. Durante bastante tempo era uma ladainha em tom de ‘ora pro nobis’, pedindo paciência, compreensão e profissionalização para os “seus” árbitros apanhados em escutas pouco dignas no processo “Apito Dourado”. Agora, ameaçando o Benfica, a ladainha saiu-lhe errada, pois, onde ele antecipa um silêncio medroso por parte dos benfiquistas, vai colher um dobre a finados sobre o seu feudo arbitral.
É importante que os ameaçadores do presente aprendam para o futuro uma lição que já vem do passado: o camelo e o burro são os únicos animais que ajoelham para aceitar a carga. Está para vir a primeira ameaça que faça ajoelhar o benfiquismo.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 07/01/2011 do jornal "O Benfica".
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No final do ano é tempo de balanço. E neste caso o balanço é balanceado, no que ao futebol diz respeito, entre seis meses iniciais de qualidade, competência, união e vitórias que contrastam com os seis meses finais em que se perdeu muita da dinâmica de vitória por responsabilidades próprias e, convém não esquecer, por obra de algumas manobras alheias e pouco claras…
O ano termina com a sensação de que o Benfica, apesar de alguns tropeções evitáveis, deve, pode e conseguirá reerguer-se a tempo de chegar a Maio com as vitórias indispensáveis para viabilizar a continuação do caminho que se começou a criar há alguns anos.
Entre o melhor do ano (a vitória no campeonato nacional 09-10) e o pior (o começo do campeonato nacional 10-11) fica um período que nos recorda a necessidade de se vestir smoking apenas um dia por ano, no momento da vitória, e, em todos os outros, trabalhar de mangas arregaçadas, sem quartel, sem descanso, sem tréguas e tratando como adversários todos os que tentam evitar o nosso sucesso, independentemente da pele de cordeiro com que conveniente e pontualmente se vestem. Saibamos que sob essa pele tanto pode estar um candidato a presidente da Liga como um presidente de um clube rival.
Deste modo, muito me agrada ver a resposta que o nosso treinador deu a quem recentemente lhe teceu loas interesseiras, nada inocentes e pouco recomendáveis. Leio nessa resposta um sinal claro de que o balanço do ano foi convenientemente feito por quem tem a responsabilidade de o fazer.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 31/12/2010 do jornal "O Benfica".
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No passado fim-de-semana, na Mata Real, lá vimos mais um. Desta vez foi o Artur Soares Dias, mas podia ter sido um dos outros, um daqueles que continuam a perpetuar um cortejo que já vai longo. Há quase trinta anos que os vemos: António Garrido, José Silvano, José Pratas, Martins dos Santos, Miranda de Sousa, Carlos Calheiros, Jacinto Paixão, José Guímaro, António Costa, Paulo Costa, Donato Ramos, Fortunato Azevedo, Augusto Duarte e tantos outros Coroados da vida. Coitados, o destino não lhes dá tréguas.
E nós, adeptos, lá vamos protestando num diálogo inútil com um poder bafiento, ultrapassado e que recentemente, ao enlamear o nome do juiz Ricardo Costa, fez o funeral ao último resquício de dignidade que por lá andou. E enquanto a dignidade não volta, apercebemo-nos de que já se vai preparando um qualquer Paulo Costa para se atirar aos destinos da arbitragem, quando esta passar a ter coutada e feudo na publicamente inútil Federação Portuguesa de Futebol. E tudo continuará como tem sido: com a fina ironia a manifestar-se nos intervalos da generosa missão de receber árbitros em casa nas antevésperas dos jogos.
E não, isto não é um lamento nem uma revolta – já lá vão esses tempos – é apenas a garantia de que só nos vencem no dia em que baixarmos os braços, no dia em que desistirmos. Até lá, é derrotado o futebol e são derrotadas as instituições que deveriam garantir a justiça; é derrotado Portugal e são derrotados os portugueses que aceitam servilmente este jugo hipócrita. Derrotados nunca serão os que não desistem, porque podemos andar de cabeça erguida e olhá-los nos olhos, enquanto vemos passar este cortejo de indecentes disfarçados de penitentes.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 24/12/2010 do jornal "O Benfica".
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Acredito, tal como Manuel Sérgio, no postulado de que “o espírito de equipa nasce do consenso entre objectivos e interesses comuns”. Como é que se conjuga a comunhão dos objectivos comuns com os interesses individuais de cada um dos que compõem a equipa?
Gerir os egos (os “eu”) dum balneário é uma tarefa particularmente difícil, na medida em que o sucesso individual de cada um depende do sucesso de todos e do todo, mas nem todos colocam o todo à frente dos seus interesses individuais.
Qual é a fórmula que permite o equilíbrio deste aparente paradoxo? Não há uma fórmula certa, pois a fórmula certa é aquela que, no final, apresenta a concretização do objectivo comum. Objectivo este que pode ser conseguido de diferentes formas, por diferentes caminhos, em diferentes culturas de clube, por diferentes treinadores, por diferentes líderes. O caminho de Menotti era diferente do de Cruyff. Tal como o caminho de Mourinho é diferente do de Jorge Jesus que, por sua vez, é diferente do de Guardiola e por aí fora. Sendo todos estes caminhos diferentes, todos são o caminho certo, quando se consegue alcançar o objectivo.
Isto faz com que estes mesmos caminhos estejam errados caso não alcancem o objectivo? Na minha opinião, não. Desde que seja visível, em todos, uma crença progressiva de que estão a ser conduzidos (e que são todos condutores) para um objectivo nítido, para uma causa maior, o caminho é certo e frutificará. Isto faz com que (e volto a Manuel Sérgio) uma grande equipa viva de uma grande crença.
Esta crença não pode depender de caprichos individuais e momentâneos, e não pode, nunca, ficar sujeita à miopia de dar respostas de ontem a desafios de amanhã. Acredito, obrigo-me a acreditar, que esta crença é a expressão maior do benfiquismo e é vivida por todos nós, por todos – sem excepção – os que vivem o Benfica.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 17/12/2010 do jornal "O Benfica".
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Cimentei o benfiquismo olhando para os bons exemplos que via no nosso plantel. Admiro, particularmente, aqueles que, sendo adeptos do clube, o representaram exemplarmente enquanto profissionais. Lembro Toni, Humberto, Bento e tantos outros que, pelo exemplo, me mostraram como se pode servir o Benfica.
Esta ligação emocional ao clube é, actualmente, a melhor garantia que tenho, enquanto adepto, de que, por mais que insistam em chamar “activo” a um futebolista e “SAD” a um Clube, há uma essência emocional que se mantém e garante que os valores primordiais do benfiquismo perdurarão.
É com agrado que vejo referências como Nené, Bastos Lopes, Chalana ou José Henrique a ajudar à formação de jovens futebolistas. A satisfação de ver benfiquistas da cepa de Shéu, Pietra e Rui Costa com responsabilidades na condução do futebol do Benfica é imensa. Sei que no exemplo destes homens está a garantia de que o benfiquismo será respeitado.
Olho para o futuro e vejo que há continuidade. Desde o nosso capitão, Nuno Gomes, até Ruben Amorim são vários os exemplos de benfiquismo puro que não se confundem com os que, em nome da sua imagem, beijam o emblema em momentos festivos.
O que há de comum em todos os nomes referidos é o facto de, apesar de inúmeras vezes terem sido injustiçados pelos adeptos, nunca terem faltado ao respeito aos benfiquistas que, nas bancadas, de forma mais ou menos apaixonada, por eles torcem, choram, sofrem e exigem na mesma medida em que dão. Na relação emocional destes futebolistas com os adeptos do Benfica nunca lhes vi um gesto público de desagrado ou de impaciência. Ou, pior do que tudo o resto, nunca os vi mandar calar os adeptos, pois sabem que isso seria mandar calar o Benfica.
Também nestes pequenos, mas significativos, gestos se faz a caminhada da transformação em símbolos de um Clube centenário.
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Artigo de opinião publicado também na edição de 10/12/2010 do jornal "O Benfica".
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É com sentida gratidão que agradecemos a simpatia e a bondade das palavras que José Nuno Martins dedica à Tertúlia Benfiquista na última edição do jornal “O Benfica” (19/12/08). Foi um excelente presente de Natal para a Tertúlia e mais um momento (no seguimento de outros blogues que têm merecido destaque no jornal do nosso Clube) em que o Benfica reconhece a importância da blogosfera no abrangente paradigma da comunicação.
Para ler o artigo basta clicar aqui.
Desejamos, agora, que o nosso Benfica nos dê, na segunda-feira, o presente natalício que todos desejamos: mais uma vitória. Viva o Benfica!
Não está no código genético dos membros desta casa a exibição pública dos nossos brios. No entanto, há momentos em que o excesso de humildade é tão pernicioso como a falta da mesma.
Vem este intróito a propósito do editorial do mais recente número do Jornal “O Benfica”, em que José Nuno Martins, partindo do último jantar de Bloggers Benfiquistas, destaca o papel dos blogues na defesa do Benfica e do benfiquismo. Neste particular, José Nuno Martins dirige à “Tertúlia Benfiquista” um conjunto de elogios que, além de muito nos terem sensibilizado e orgulhado, nos dão uma motivação extra para continuar e uma responsabilidade acrescida para que possamos estar à altura do que os nossos leitores esperam da "Tertúlia": a defesa incondicional do Benfica e o testemunho de benfiquismo.
Em nome de todos os membros desta tertúlia, agradeço as palavras e a atenção de José Nuno Martins.
Viva o Benfica!
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