Quem ontem olhou para o 'Expresso', deparou-se com uma primeira página onde um indivíduo refastelado numa cadeira, em pleno relvado do Alvalixo, e envergando um fato aos quadrados que parece ter sido roubado ao palhaço pobre (mas que na óptica da personagem em questão deverá ter imenso estilo), orgulhosamente declara a sua condição de antibenfiquista. O indivíduo em questão é o Francisco Costa Costinha, director desportivo do sportém, e um sujeito com um domínio muito superficial da língua portuguesa - já encontrei arrumadores de carros (e não me estou a referir ao Pedro Mendes) que falam melhor português do que ele - mas que se julga um tipo com classe porque veste fatos e conseguiu o grande feito na vida de aprender a dar um nó de gravata (mas não o Windsor, que esse é demasiado complicado).
Esta declaração de antibenfiquismo é apenas mais um episódio na recente série de declarações deste tipo por parte da lagartagem. Durante anos, apesar disto ser óbvio para qualquer um, empenhavam-se a negar esta condição - decerto muita gente se recordará, por exemplo, da reacção do Dias Ferreira quando n'O Dia Seguinte o representante benfiquista o acusou de ser antibenfiquista, o que resultou num nível de indignação tal que até os piolhos da barba dele se precipitaram em pânico para o palito ao canto da boca de forma a saltarem para a liberdade. Mas nos tempos mais recentes, resolveram sair do armário e anunciar ao mundo o antibenfiquismo. No fundo, uma espécie de gay pride à moda da lagartagem (e desenganem-se, que não vou agora pôr-me a falar do Salema). Foi o Doutor dos Maus Fígados nas páginas d'A Bola, foi o energúmeno do Cardinal, agora o Francisco Costa Costinha. Mas o pormenor mais interessante neste orgulhoso sair do armário é a consequência disto: a declaração de antibenfiquismo funciona como uma espécie de declaração de inimputabilidade dos seus autores. Uma vez conhecida esta condição, estes sentem-se livres para dizer ou fazer as maiores imbecilidades, que depois a reacção é 'Ah, e tal, ele disse que é antibenfiquista por isso está desculpado'. O que de certa forma se compreende: quando se faz uma declaração deste nível de imbecilidade, é natural que as pessoas em questão passem a ser consideradas inimputáveis.
O Doutor dos Maus Fígados, depois de assumir o seu antibenfiquismo andou a dedicar-se (ainda mais) a escrever barbaridades sobre futebol (normalmente acompanhadas de mais declarações de inimputabilidade, que é dizer que não percebe nada de futebol - como se isso não fosse logo uma condição inerente ao facto de ser adepto do sportém). Em condições normais, as pessoas perguntar-se-iam o motivo pelo qual uma pessoa que pensa e escreve tais parvoíces teria direito a uma página sobre futebol, no maior diário desportivo português. Mas lá está, como se declarou antibenfiquista, a coisa passa. O Cardinal escarra no treinador do Benfica, provoca e insulta adversários e público. Em condições normais, isto seria um comportamento condenável, mas como disse que era antibenfiquista tudo se justifica. O Francisco Costa Costinha oferece o jogador mais regular e capitão de equipa a um teórico rival directo, hostiliza outro activo do plantel, pratica e diz imbecilidades dia sim, dia sim. Normalmente, o homem seria considerado um incompetente (tendo sido uma escolha do Cabeça de Cotonete, nem poderia ser outra coisa). Era uma besta dentro do campo, e continua pelo mesmo caminho fora dele. Mas não, ele proclamou ao mundo o seu antibenfiquismo, por isso tudo está perdoado. Até mesmo oferecer todo o plantel do sportém aos andrades, para que eles escolham quem bem lhes aprouver, seria justificado desde que isso ajudasse os andrades a ganhar ao Benfica.
Um dos motivos que sempre me fez desprezar o sportém foi precisamente achar que é uma agremiação sem identidade própria, cuja existência se resume à negação de algo, neste caso o Benfica. É interessante agora ver as pessoas ligadas a essa agremiação renderem-se às evidências, e assumirem sem pudor tal condição. No fundo, assumirem que não representam nada. O lema deles deveria ser Inveja, Ressaibo, Mesquinhez e Tristeza: eis o sportém. Neste somatório de comportamentos, é ainda de notar a incongruência característica da lagartagem: aqui há uns anos, o Simão disse que gostaria de impedir o sportém de festejar um título. Foi o fim do mundo. Tornou-se um proscrito, um mal formado, mau carácter que merecia os maiores azares. Ovelha ronhosa e má pessoa, a quem até os cães rosnavam na rua de tão ruim que era. Mas quanto aos lagartos, esses podem declarar aos quatro ventos o seu antibenfiquismo, que não só não é condenável, mas é mesmo louvável, e parece que faz deles melhores lagartos. É bonito.
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