VAMOS ACABAR COM AS IMBECILIDADES
Domingo, 27 de Fevereiro de 2011

Tudo

Tudo. Esta equipa, estes jogadores merecem tudo. Todo o apoio que nós possamos dar-lhes. São uma equipa à Benfica, com garra de campeã, e que esta noite soube lutar contra o azar, um guarda-redes em noite sobrenatural, o árbitro, o cansaço, o destino, e ir lá bem ao fundo buscar as últimas forças para nos darem uma vitória tão difícil quanto merecida. Seria uma injustiça atroz o Marítimo não sair derrotado da Luz.

O Benfica, com o Jardel no lugar do castigado Sídnei, mostrou desde o apito inicial aquilo que viria a ser o jogo: ataque constante, com o Marítimo juntando linhas, encostado à sua área. A primeira oportunidade de golo demorou pouco a surgir: com três minutos, um mau alívio do guarda-redes colocou a bola no Saviola, que falhou o chapéu por pouco. Infelizmente para nós, o erro inicial do guarda-redes não foi de forma alguma exemplificativo daquilo que viria a ser o desempenho dele no resto da partida, já que daí para a frente arrancou para uma exibição quase sobrenatural. O Benfica, insistindo sobretudo pela direita, e com o Aimar a pegar na batuta, foi dominando o jogo como queria, e a história da primeira parte resume-se praticamente a um massacre constante do Benfica à muralha defensiva do Marítimo, que ia sobrevivendo como podia. Aparecia sempre um pé ou uma cabeça a cortar a bola, por vezes até um braço, ou então era o seu guarda-redes que se mostrava intransponível, defendendo tudo o que lhe aparecia. Nos últimos dez minutos a equipa pareceu abrandar um pouco o ritmo, não deixando no entanto de continuar a atacar, e viu mesmo um grande remate do Gaitán (de pé direito) levar a bola ao poste.

O nulo ao intervalo era injusto, e a injustiça continuou na segunda parte, já que o perfil do jogo em nada se alterou. Ataque constante do Benfica, e o Marítimo pouco mais fazia do que chutar bolas para a frente na esperança de aproveitar a velocidade do Baba ou do Djalma. O golo, no entanto, continuava a teimar em não chegar: o guarda-redes do Marítimo parecia cada vez mais inspirado, e continuava a defender tudo. Quando o Cardozo acertou na barra da baliza, muitos terão começado a lembrar-se de jogos como aquele empate a zero com o Boavista. O árbitro também não ajudava: numa jogada em que o Aimar é claramente derrubado à entrada da área (lance que daria o segundo amarelo ao Ricardo Esteves), ele decide em vez disso mostrar o amarelo ao argentino. O esforço constante do Benfica na procura do golo, aliado à sobrecarga de jogos, começava agora a ter consequências no campo, e nos últimos vinte e cinco minutos alguns jogadores já estavam visivelmente fatigados, demorando muito tempo a recuperar posições (ou nem sequer recuperando em alguns casos - Gaitán). O Marítimo foi aproveitando para se mostrar mais atrevido nas saídas para o ataque, mas as oportunidades continuavam a ser todas para o Benfica, tendo o guarda-redes do Marítimo brilhado mais uma vez, com uma defesa fantástica a um livre do Cardozo. E como tantas vezes acontece nestas situações, quando nada tinha feito para o merecer, o Marítimo chegou ao golo, num cabeceamento do Djalma após canto que levou a bola a entrar junto ao poste mais distante. Faltavam treze minutos para o final.

Em condições normais, a maior parte das equipas não teria resistido a um soco no estômago destes. Mas nós somos o Benfica, e a nossa equipa, apoiada pelos fantásticos 55.000 espectadores que estiveram na Luz, arregaçou as mangas e não desistiu: cinco minutos depois estava reestabelecida a igualdade, com o Sálvio, já de ângulo apertado ao segundo poste, a corresponder a um centro do Coentrão na esquerda. Empolgou-se ainda mais a Luz, contagiando os jogadores, que se lançaram na procura da vitória. Por momentos reverteu-se ao início do século passado, e o Benfica passou a jogar em 2-3-5, com os laterais a juntarem-se ao Carlos Martins no meio campo e cinco avançados à sua frente: Salvio, Kardec, Saviola, Cardozo e Jara. O Benfica dava tudo por tudo, o ambiente criado pelo público era infernal, e o Marítimo agarrava-se ao empate com unhas e dentes como se a sua vida dependesse disso. Na baliza, o Marcelo continuava a fazer uma exibição surreal e defendia de forma quase impossível um cabeceamento do Kardec, levando a bola ainda a bater no ferro pela terceira vez no jogo. Aos noventa e dois minutos, golo do Luisão! Mas não, depois de ter visto o assistente correr para o meio campo, foi o árbitro quem descortinou qualquer coisa e invalidou o golo. Parecia que já não faltava acontecer-nos mais nada. Até que na última jogada do jogo, a bola foi despejada para a área e acabou por cair aos pés do Coentrão, que encheu o pé direito e meteu a bola no ângulo. Foi o fim do mundo. É por causa de momentos destes que amamos este jogo. A justiça ao cair do pano, a recompensa merecida por quem tanto lutou por ela, o castigo para quem não merecia tanta sorte, a comunhão perfeita entre equipa e público. E não tenho grandes dúvidas de uma coisa: mesmo que o remate do Coentrão tivesse ido para fora, mesmo que o jogo tivesse acabado empatado, a nossa equipa hoje sairia de campo debaixo de uma chuva de aplausos. Não se lhe pode pedir mais do que aquilo que deram hoje.

O homem do jogo é o Coentrão. Numa altura em que já mostrava claros sinais de cansaço, ainda arranjou forças para ganhar a linha e assistir o Salvio para o primeiro golo, e depois, num último fôlego, marcar o golo decisivo. O Aimar foi o motor do nosso ataque, mas foi perdendo fulgor à medida que o cansaço se foi acumulando. O Luisão esteve ao nível do costume, comandando toda a defesa e sendo ainda obrigado a algum trabalho extra, já que o Jardel pareceu hoje não estar ainda bem entrosado, e mostrou algumas dificuldades em acertar com a marcação ao ponta-de-lança do Marítimo. Muito importante também o papel do Javi, sobretudo na fase em que o Benfica já dava o tudo por tudo e ele era praticamente o único homem no meio campo, sendo responsável pela ligação entre os sectores e ainda tendo que acudir às dobras de todos os lados, porque muitos dos colegas já não recuavam. Acabou substituído a cinco minutos do final, porque já não dava mais.


Esta nossa equipa é digna da história do Benfica, e merece o lugar na história que já conquistou, estendendo hoje o registo de vitórias consecutivas para dezassete. Já o escrevi antes: há-de ser até à última gota. O título de campeão é nosso, e defendê-lo-emos enquanto for humanamente possível. Contra tudo o que nos atirarem. Podem roubar-nos o título, mas vão ter que suar para conseguirem esse roubo, e hão-de ter que acender uma velinha a Cosmes e Olegários para agradecer o título.

publicado por D'Arcy às 21:48
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