Foram-se o Witsel e o Javi, o Maxi estava suspenso, o Luisão suspenso ficou pouco antes do jogo, mas no final o Benfica até acabou por sair com um empate de um estádio onde até hoje tinha perdido sempre. Acabou por ser um resultado positivo, mas que a frio até pode saber a pouco, porque as limitações deste Celtic foram evidentes durante todo o jogo. O que lhes sobra em coração e pulmão falta-lhes, e muito, em qualidade técnica e táctica.
A escolha mais inesperada para este jogo terá sido a do André Almeida para o lugar do Maxi, já que tudo vinha apontando para que fosse o Miguel Vítor a jogar. No meio jogou o Pérez, o que permitiu a entrada do Gatán no onze, e na frente a aposta foi num único avançado, o Rodrigo, regressando o Aimar à equipa. O ímpeto do Celtic causou alguns problemas nos minutos iniciais, já que o Benfica pareceu ter dificuldade em adaptar-se à pressão constante e uso do físico por parte dos jogadores do Celtic - ganharam praticamente todas as bolas em que conseguiam encostar-se aos nossos jogadores. Durante essa fase cheguei mesmo a pensar que a probabilidade do Celtic não acabar com onze seria alta, dado o 'voluntarismo' com que se entregavam a cada jogada. Os problemas ficaram restritos, no entanto, à incapacidade do Benfica para assentar o seu jogo, já que as perdas de bola eram muitas e os passes falhados também. Em termos atacantes, o Celtic não nos incomodou, o que aliás foi uma constante durante todo o jogo. O Benfica manteve sempre uma grande organização em termos defensivos, falhando apenas na altura de sair para o ataque, pois talvez o pudesse ter feito com um pouco mais de atrevimento. Mas isto são apenas suposições, e se calhar se o tivéssemos feito estaríamos agora a lamentar uma derrota. O jogo em geral foi sempre muito disputado, mas sem grande qualidade técnica, e com muito poucas situações de golo. Na primeira parte, a situação mais flagrante esteve nos pés do Rodrigo, que permitiu a defesa ao guarda-redes depois de receber um bom passe do Pérez.
Nem os onzes, nem o jogo se alteraram na segunda parte. A toada continuou a ser exactamente a mesma, parecendo imperar sobretudo o receio mútuo de perder o jogo. O Artur continuou a ser quase sempre um espectador, perante uma equipa cujo público celebrava um lançamento a seu favor dentro do nosso meio campo, que quase parecia festejar um golo de cada vez que conseguiam conquistar um pontapé de canto. A meio da segunda parte ainda passámos por um período em que o Benfica pareceu conseguir soltar-se um pouco mais e fazer algumas boas trocas de bola, mas o Celtic também nunca descurou a defesa e na altura do remate apareceu sempre um pé para interceptar a bola. Nos minutos finais passou-se o contrário, e foi o Celtic a conseguir ter algum ascendente no jogo, fruto também da maior ritmo de jogo que pareceram ter - não só estivemos quase três semanas sem jogar, como jogadores como o Gaitán, Aimar, Bruno César ou Matic ainda não fizeram muitos minutos esta época. De qualquer forma, o Celtic nunca conseguiu causar qualquer lance de perigo junto da nossa baliza, e o nulo final ajusta-se perfeitamente ao que se passou em campo.
Na minha opinião o Garay esteve simplesmente perfeito durante todo o jogo, assumindo com naturalidade o papel de líder na ausência do Luisão - e quando o Aimar foi substituído, achei perfeitamente natural ver a braçadeira de capitão ser-lhe passada. Gostei de ver o Pérez no meio, se calhar até mais do que nos jogos que fez nas alas. O André Almeida cumpriu sem quaisquer problemas a função de lateral direito, mas notou-se-lhe bastantes cautelas quanto a avançar no terreno. O Matic também fez um bom jogo, com muito trabalho no meio campo. O Aimar mostrou algumas dificuldades na fase inicial do jogo, parecendo ter problemas com o jogo físico dos escoceses, o que resultou em perdas de bola pouco habituais.
Por norma, um empate fora na Champions costuma ser considerado um resultado positivo. Se pensarmos que o empate foi num campo onde temos um péssimo historial, mais razões temos para vermos este resultado com bons olhos - e das duas últimas vezes que lá perdemos, na minha opinião, o Celtic já era tão limitado como eu o acho agora e por isso mesmo as derrotas custaram-me tanto. É verdade que, findo o jogo, podemos ficar a pensar que até poderíamos ter conseguido algo mais. Mas considerando todos os factores que afectaram a nossa equipa para este jogo, tenho que dar-me por satisfeito.
Amanhã o Benfica estrear-se-á na edição deste ano da Champions. Apesar do enorme ruído mediático que os jogos desta competição despertam, não me sinto particularmente entusiasmado com isso. Com muita pena minha. A Champions League é uma competição na qual o principal objectivo é ganhar alguns jogos e chegar longe de forma a que o nosso clube possa juntar uns preciosos milhões que muito ajudam as contas bancárias. Mas aspirar a ganhá-la? Para a grande maioria do comum adepto da maior parte das equipas, isso é uma utopia. E é por isso que, em termos puramente futebolísticos, a Champions League pouco interesse tem e acaba por representar muito daquilo que está mal no futebol actual.
Quando era miúdo e vivia longe do Estádio da Luz, as quartas-feiras europeias começavam a ser antecipadas no mínimo com uma semana de antecedência, Procurava descobrir mais sobre os adversários exóticos de países distantes que o Benfica iria defrontar e de quem nunca tinha ouvido falar. Depois seguia os jogos agarrado ao rádio, às vezes à tarde, outras vezes à noite - porque nessa altura não estávamos sujeitos à ditadura das TVs, e os jogos começavam à hora que era mais conveniente para os intervenientes, e não todos obrigatoriamente às 19:45 ou às 20:05 ou lá quando as TVs entendessem que lhes dava mais jeito. Quando, uns poucos anos mais tarde, ia para o Estádio da Luz numa quarta-feira à noite com algumas horas de antecedência, ficava sentado no Terceiro Anel à espera do início do jogo e a tremer de nervos. Porque os jogos eram mesmo a doer e não havia margem para erros. A Taça dos Campeões era para os campeões dos respectivos países (e o campeão europeu da última época). Uma noite menos inspirada e uma equipa podia estar fora da Europa em Setembro ou Outubro. Uma noite inspirada e uma equipa mais 'pequena' podia seguir em frente e deixar de fora um gigante.
A Champions League acabou com toda esta magia. Na Taça dos Campeões, uma campanha europeia poderia ser comparável à travessia de um precipício sobre um arame. Um passo em falso e era a morte do artista. A Champions League é mais ou menos a mesma coisa. Mas com rede de segurança e um cabo a segurar o artista (que, por via das dúvidas, leva um pára-quedas) ao arame. Ah, e o arame foi substituído por uma ponte, não vá o diabo tecê-las. Há clubes que investem demasiado dinheiro para se poderem sujeitar ao risco de ficar de fora da Europa logo no início da época. Por isso a Champions garante-lhes futebol europeu pelo menos até Dezembro, com meia dúzia de jogos a realizar. E até podem escorregar uma, duas, até três vezes, que normalmente ainda dá para recuperar do erro. Não admira que, olhando para as fases mais avançadas da competição, todos os anos acabemos por encontrar lá os suspeitos do costume. Que assim ganham ainda mais dinheiro, e aumentam ainda mais o fosso para os restantes (o exemplo do que nos últimos anos se passou em Espanha, com Barcelona e Real a descolarem do resto do pelotão, é o mais flagrante). Um feito como o do Nottingham Forest do Brian Clough, que em três anos foi da segunda divisão a campeão europeu (eliminando logo na primeira ronda precisamente o campeão europeu Liverpool), seria impossível hoje em dia - até porque em Dezembro os 'tubarões' habituais da Champions lhes levariam metade da equipa. Mas mesmo assim havia ainda um risco adicional: se por acaso a época corresse mal a esses clubes, e acabassem por não ser campeões dos seus países, os milhões da Champions ficavam fora do seu alcance. Isso era um risco que esses clubes não estavam dispostos a correr. Foi assim que a Champions se transformou no cancro que não pára de crescer e vai fazendo as competições europeias definhar.
De repente, os segundos, terceiros e em alguns casos até quartos classificados passaram a ser participantes de pleno direito da 'Liga dos Campeões'. Clubes que nunca foram sequer campeões na sua história passaram a disputar a competição dos campeões. A Taça das Taças foi a primeira vítima, já que por norma os vencedores das taças dos países eram equipas que terminavam os campeonatos nos lugares de topo e obviamente optavam pelos milhões da Champions, deixando a Taça das Taças para a equipa sensação que tinha conseguido chegar à final. A perda de qualidade da competição foi evidente, e a sua extinção inevitável. A seguir foi a Taça UEFA, que no seu estertor se transfigurou em Liga Europa, uma espécie de sucedâneo da Champions, tentando sobreviver a todo o custo. Mas que hoje em dia não é mais do que uma competição para decidir quem é o melhor quarto ou quinto classificado dos campeonatos europeus. O seu futuro é cinzento, e não me admirará se em breve acabar absorvida pela imparável 'Champions'.
O futebol hoje em dia é um negócio; todos nós estamos fartos de o saber. Mas é um negócio que procura prosperar à custa do romantismo dos adeptos, que insistem em olhá-lo através de lentes rosadas pela paixão pelo clube e por um futebol com que cresceram mas que, na realidade, já não existe e dificilmente voltará. A paixão pelo nosso clube é-nos vendida e explorada para fins comerciais. O nosso lugar é no estádio, a apoiar a equipa, mas só se tivermos umas centenas de euros para despender por esse lugar. Se não os tivermos, então o nosso lugar é lá fora, que a paixão não é aceite como forma de pagamento. E se possível, até podemos exprimir a nossa paixão deixando mais uns euros na loja do clube pela camisola da nova época, ou pela camisola alternativa que em nome do marketing muda radicalmente todos os anos. Em nome da nossa paixão vendem-se pedras pintadas no chão, à volta da estátua de um dos nossos ídolos do tempo em que o futebol era apenas um jogo. E se não as quisermos comprar, uma qualquer criatura num call center de telemarketing pergunta-nos despudoradamente ao telefone se não achamos que a nossa paixão pelo nosso clube merece que façamos mais por ele.
Amanhã o Benifca entra em campo para disputar a Champions. Espero que ganhe. Mas tenho saudades das verdadeiras quartas-feiras europeias. Isto não é saudosismo; é uma constatação: dantes, o futebol costumava ser melhor do que é hoje.
Mais do que todas as outras, as injustiças são questões da Justiça.
Acerca deste castigo [link], digam da vossa justiça.
O pensador José Gil explicou muito bem a sua tese acerca da não-inscrição na sua obra, já com uns aninhos, “Portugal, Hoje - O Medo de Existir”. José Gil atirou-nos à cara com a incapacidade que temos em fazer da experiência uma acção transformadora do real. Nada é, tudo é foi e a realidade acaba por ser uma espécie de espantalho de vento. Nada se inscreve, tudo é superfície, nada aconteceu nem acontece, tudo é conformismo e inércia. Se isso é Portugal, o futebol em Portugal é tudo isso com publicidade paga ao segundo e reportagens em directo.
Só assim se explica que o facto de um dirigente do Sporting ter enviado um funcionário seu depositar dinheiro na conta bancária de um fiscal-de-linha antes de um jogo que envolvia o referido clube e o dito fiscal ter ficado, como diria Alexandre O’Neill, numa “coisa em forma de assim”. Ou seja, passou, não se inscreveu, foi com a espuma dos dias. E o que dizer das inconsequências para o acto criminoso que gente identificada perpetrou ao atear fogo a uma bancada do nosso Estádio da Luz? Tudo passou, nada ficou. E o tal Sr. Costa que, há poucos meses e de acordo com os relatos públicos de um jornalista agredido, esbofeteou publicamente o dito e ainda gozou com a situação? E as acusações do mano Oliveira mais novo que repetidamente garante que o mano Oliveira mais velho manipula os títeres engravatados que decidem os destinos do futebol português? E os juízes que, nos camarotes, combinam com os réus as absolvições douradas entre apitos, charutos e gargalhas? E os agentes da PJ que previnem atempadamente os suspeitos do dia e hora das buscas domiciliárias? E os dirigentes desportivos e federativos sentenciados a penas suspensas de cadeia?
Nada disto aconteceu. Foi público, visível e nada disto foi real, porque nada disto se inscreveu e tudo é fátuo. Onde nada se inscreve fica a dor sem cicatriz e sem redenção. Eis Portugal, eis o futebol português.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 11 de Setembro e publicado na edição de 14/09/2012 do jornal "O Benfica".
[Se alguém quiser manifestar-me a sua opinião, pode fazê-lo para este endereço: tertuliabenfiquista@gmail.com]
Oiço Rui Gomes da Silva no “Dia Seguinte” acerca de dois temas – os valores da venda de Witsel e a defesa de Herculano Lima – e fico preocupado. Pareceu-me claramente, pela tibieza das posições assumidas, que ainda muito há para saber acerca da venda de Witsel e aguardo, com particular curiosidade, pelo próximo Relatório & Contas…
Nunca esperei (nunca esperei mesmo) ver um benfiquista defender o Dr. Herculano Lima.
Além disso, torna-se óbvio para o telespectador de que o que há entre os comentadores do “Dia Seguinte” não é bem rivalidade, aquilo é uma espécie de inimizade muito mal disfarçada. E isso transforma um debate numa sucessão de ofensas pessoais mal veladas. Objectivamente, nem Rui Gomes da Silva, como cidadão e benfiquista, nem, particularmente, o Benfica merecem estar sujeitos 'àquilo'.
José Veiga – Crime de Fraude Fiscal (dois anos e dois meses de prisão) e Crime de Branqueamento de Capitais (três anos e nove meses de prisão) = pena única, suspensa por quatro anos e meio + multa de 169.629 euros.
João Vieira Pinto – Crime de Fraude Fiscal (um ano de prisão) = pena suspensa por igual período + pagamento de 169.629 euros.
Luís Duque e Rui Meireles – Crime de Evasão Fiscal (dois anos de prisão) = pena suspensa por quatro anos e três meses. Ambos terão ainda de pagar ao Estado indemnização no mesmo valor.
Parece que todos vão recorrer.
(link)
Sem ‘mas’ nem meios ‘mas’, este final tardio da época de contratações na Europa do futebol foi, desportivamente, pernicioso para o nosso Benfica. As saídas de Javi Garcia e Witsel (excelentes negócios na perspectiva financeira) deixam o plantel mais fraco. Não transformam o plantel num plantel fraco, mas enfraquecem o poder futebolístico do Benfica e, por consequência óbvia, um plantel menos forte torna mais difícil o sucesso. No fundo, é apenas isto e nada mais do que isto.
Perante o sucedido, há agora duas atitudes possíveis: uma é lamentar “ad aeternum” a saída dos ditos futebolistas e recordar sistematicamente que deveríamos ter conseguido, atempadamente, prever a situação e arranjar soluções (e devíamos!); outra é perceber que há um conjunto de hipotéticas soluções internas dentro do plantel (e também na equipa B) e tentar moralizar os futebolistas que personifiquem essas soluções, dando-lhes confiança.
Neste momento, Jorge Jesus tem pela frente talvez o maior desafio desde que chegou ao Benfica: recriar e reinventar, em competição, toda uma dinâmica de equipa, equilibrada nos momentos ofensivos e defensivos, sem dois dos futebolistas que melhor garantiam esse equilíbrio. Terá de fazê-lo em tempo útil e com uma eficácia que permita ao Benfica conquistar um campeonato que os mais cépticos garantem hipotecado, à terceira jornada, com o Benfica a liderar a competição. Para que isso aconteça, é necessário engenho e arte da equipa técnica, disponibilidade total dos futebolistas e uma grande dose de confiança que deverá passar da bancada para o relvado.
Quanto ao resto, o que se tem visto é uma legítima emoção à flor da pele por parte dos adeptos perante a frieza do poder do vil metal. Para nós, adeptos benfiquistas, a paixão pelo Benfica não tem cláusula e não é rescindível.
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Artigo de opinião escrito e enviado para a redacção do jornal "O Benfica" no dia 04 de Setembro e publicado na edição de 07/09/2012 do jornal "O Benfica".
[Se alguém quiser manifestar-me a sua opinião, pode fazê-lo para este endereço: tertuliabenfiquista@gmail.com]
No futebol, tal como em outros negócios, quem tem mais poder tem maior capacidade negocial. Sempre foi assim. As melhores equipas, no plano desportivo, encontram-se normalmente entre as que dispõem de mais recursos financeiros e, portanto, maior facilidade em contratar os melhores.
A famigerada "Lei Bosman", de 1995, veio acentuar essa tendência, pois eliminou algum poder que os clubes menos abastados tinham em relação aos seus melhores jogadores, ficando assim mais vulneráveis ao poder dos clubes mais endinheirados.
Coincidência ou não, o Ajax, clube cujo sucesso se alicerçou na formação dos seus próprios jogadores, desde as camadas jovens, foi campeão europeu pela última vez em 1995. E desde então, pouco mais fez do que participar com alguma regularidade na Liga dos Campeões...
No futebol, tal como em outros negócios, os mercados volta e meia também ficam "nervosos". E tal como noutras situações, as regras não são iguais para todos os países dentro do espaço europeu (neste caso, regulado pela UEFA), com algum desfasamento nas datas de "fecho de mercado", favorecendo os países onde tal acontece mais tarde (e desses países, os clubes com mais dinheiro, claro).
No meio disto tudo está, claro, o Benfica. Que por ser o maior clube português, consegue movimentar jogadores que noutros clubes da liga são claramente titulares (mas que, no Benfica, acabam por ser jogadores de 2ª linha). Alguns deles ficam no plantel, outros são (re)emprestados ou transferidos para clubes portugueses ou estrangeiros onde mais facilmente serão titulares. E consegue, até, contratar Salvio, claramente um jogador de 1ª linha, capaz de fazer a diferença. E manter muitos jogadores que eram dados como cobiçados por outros clubes.
Todos menos 2. E logo aqueles que, de certa forma, formavam a "espinha dorsal" do meio-campo (e temos que esperar até dia 6...). Se no caso de Javi, Matic já deu sinais de que poderá estar à altura de desempenhar a função, Witsel tem características únicas que vão para além da posição que habitualmente ocupa. Tudo isto sem que se tenha resolvido o "problema dos laterais".
Face a este cenário, interrogamo-nos: qual a estratégia da direcção, perante esta dicotomia negócio-desporto? É que, para que o negócio do futebol seja rentável, há que não descurar a vertente desportiva... Ainda que no caso de Witsel pouco ou nada houvesse a fazer, e mesmo no caso de Javi, o valor da transferência foi muito interessante e difícil de recusar, põe-se a questão: não teria sido possível acautelar estas saídas, ainda que praticamente inevitáveis, num plantel onde predominam os médios ofensivos/extremos? E qual a razão da contratação de Lima, depois de se ter dispensado Saviola e emprestado Mora, N. Oliveira, H. Vieira e Michel? (E já agora, onde é que ficam os laterais no meio disto tudo?...)
A realidade é que, face à impossibilidade de colmatar estas ausências com novas contratações (será necessário esperar por Janeiro), a equipa B (que tem dado boas indicações) poderá assumir uma importância maior que aquela que inicialmente parecia ter. Quem vai substituir Matic nas suas ausências? E sabendo que Carlos Martins é bastante susceptível a lesões, quem mais poderá ocupar o lugar de Witsel?
Será uma possível aposta na equipa B uma opção ponderada ou uma inevitabilidade? Com a crise que Portugal atravessa, até que ponto será o Benfica capaz de resguardar os seus jogadores mais valiosos da cobiça dos clubes que (ainda) têm dinheiro para contratações e salários milionários e prever possíveis "ofensivas" de última hora, sem criar excedentes no plantel? (E os laterais?...)
Embora não regularmente, tenho tentado acompanhar os jogos da equipa B. Vejo ali uma equipa que, como poucas, disputa o jogo pelo jogo. Apesar de não sujeita à pressão dos resultados, faz tudo para garantir a vitória e, acima de tudo, procura praticar futebol de qualidade, que dá gosto ver. É que aqui que, quanto a mim, entra a vertente do futebol enquanto desporto (quase) puro.
Uma equipa formada por jogadores maioritariamente oriundos das camadas de formação, que compensam alguma inexperiência (numa liga competitiva como é a Liga de Honra) com muito talento em bruto e com uma enorme ambição de vencer. Uma equipa que não abdica do seu modelo de jogo e não recorre a subterfúgios táticos, em nome do "resultadismo". É o futebol em estado puro. É o futebol enquanto desporto que entusiasma quem gosta de bons espectáculos e apoia incondicionalmente a sua equipa e aqueles que usam o seu embelema.
Embora o "clubismo" dos jogadores seja, cada vez mais, uma memória do passado, o certo é que os jogadores da equipa B não são, certamente, indiferentes ao facto de o Benfica ser o clube que os tem projectado, desde muito jovens, para o futebol profissional. A ambição de, um dia, não muito longínquo, poderem transportar esse seu entusiasmo para a equipa principal, na certeza que esse será, a par do seu talento, o maior trunfo para atingirem patamares mais elevados, é um argumento não quantificável em milhões de euros.
Certo é que, agora que os milhões falaram mais alto, ficámos com os cofres mais cheios mas, em termos teóricos, com uma equipa menos forte. Mas, repito, em campo nem sempre o talento e ambição são directamente proporcionais aos milhões.
Sem dois jogadores de qualidade inegável que são Javi e Witsel, acima de tudo pela importância que tinham no jogo da equipa, abrem-se vagas àqueles que ambicionam, no lugar deles, ajudar a equipa a vencer.
Seja por estratégia ou necessidade (mais provavelmente a última...), correndo o risco de estar a criar expectativas demasiado altas, talvez esteja mesmo na equipa B a resposta. Não só pelos talentos que lá despontam, mas também pela abordagem entusiástica que têm aos jogos. Gostaria de ver (porque sou e sempre fui optimista em relação ao Benfica) a perda de 2 jogadores nucleares transformar-se numa oportunidade e de acreditar que, apesar de tudo, no Benfica o futebol é, acima de tudo um desporto (ainda que, no campeonato português, impere a vertente mais obscura do futebol enquanto negócio...), onde a ambição de vencer e a competitividade convivem com a valorização do futebol enquanto desporto e espectáculo.
Javi Garcia – Saiu por um valor abaixo da cláusula de rescisão. Eu gostaria que o Benfica, em razão da importância desportiva do jogador, obrigasse o Manchester City a pagar a cláusula de rescisão. Também gostaria que o Javi tivesse manifestado vontade de ficar. Mas o mundo é o que é e não se compadece com os meus devaneios.
Axel Witsel – Saiu pela cláusula de rescisão. Batida a cláusula de rescisão, a decisão de sair é do futebolista. O mundo é o que é e não se compadece com os meus devaneios.
Balanço: estamos mais fracos desportivamente do que estávamos há uma semana. Isto parece-me um facto e não um devaneio meu.
Logo, temos menos hipóteses de ser campeões do que há uma semana.
Em conclusão, benfiquismo há nas bancadas, no balneário há profissionais. Isto é escrito sem recriminações nem louvores.
Agora, lixadas que estão muitas das minhas esperanças, o meu benfiquismo de bancada obriga-me a apoiar e a acreditar nos profissionais Matic e (tenho essa secreta esperança) Miguel Rosa. O mundo é o que é e pode ser que se compadeça com os meus devaneios...
Num jogo com duas partes muito distintas, vitória justa do Benfica, por um resultado dilatado que acaba por nem deixar adivinhar as dificuldades por que passámos durante a primeira parte.
No primeiro jogo 'pós-Javi' a opção do nosso treinador acabou por ser num meio campo com o Carlos Martins e o Witsel, cabendo a este último ocupar a posição mais recuada. O resto do onze manteve-se igual ao que venceu tranquilamente em Setúbal a semana passada. Foi difícil a primeira parte, por culpa própria e também por culpa do adversário. Sabemos da extrema utilidade que o Javi tinha nos equilíbrios defensivos da equipa, mas durante a primeira parte onde a ausência se acabou por notar mais foi nas saídas para o ataque, na fase inicial da construção das jogadas. O processo habitual de recuo do médio defensivo para permitir que os centrais abram e os laterais subam rapidamente não resultou com o Witsel, de forma que a lentidão foi o tom dominante dos nossos ataques. O Carlos Martins esteve bastante apagado, e o recuo do Witsel pareceu também escondê-lo do jogo - foram várias as vezes em que vimos o Luisão a actuar praticamente como se fosse um distribuidor de jogo, e nunca é bom sinal quando a maioria das nossas jogadas de ataque têm que começar com um central a colocar a bola na frente. Do outro lado apanhámos um Nacional bem organizado a defender e acertado nas marcações e que conseguia, uma vez recuperada a bola, sair rápido para o ataque. Apenas por uma vez o Benfica conseguiu construir uma jogada de real perigo, que terminou num remate do Salvio ao poste. De resto, muita lentidão e falta de ideias. A um minuto do intervalo o Carlos Martins lesionou-se e para o seu lugar entrou o Matic, o que acabou por se revelar decisivo.
Com o Matic em campo na segunda parte, a equipa já jogou de uma forma mais familiar. A subida do Witsel no campo também beneficiou a equipa, pois esteve muito mais em jogo do que o Carlos Martins tinha estado durante a primeira parte e pressionou os jogadores do Nacional de forma mais eficaz - durante a primeira parte tiveram quase sempre demasiado espaço e tempo para jogar. Ao fim de dez minutos decorridos já o Benfica tinha praticamente resolvido o jogo, após marcar dois golos num espaço de cinco minutos. O primeiro nasceu de uma iniciativa do Melgarejo pela esquerda, que fez a bola viajar até ao Salvio na direita, para depois o Maxi desmarcar-se, evitar a saída do guarda-redes e centrar para a conclusão de cabeça do Cardozo. O segundo foi obra do Salvio, que sobre a direita, no meio de uma série de adversários, conseguiu arranjar maneira de sair dali com a bola e fazer um centro perfeito para uma finalização fácil do Rodrigo, de cabeça. Com o jogo resolvido o Benfica foi baixando progressivamente o ritmo do jogo, e os últimos vinte minutos foram jogados de forma muito pausada. Mesmo assim, foi quase a passo que o Benfica ainda fez o terceiro golo, novamente pelo Cardozo, a passe do Aimar já mesmo sobre a hora.
O melhor jogador do Benfica foi, na minha opinião, o Salvio. Mais uma vez a nossa ala direita esteve bastante activa, pois o Maxi acompanhou-o bem. Boa (e decisiva) entrada do Matic - o jogo desta noite deverá ter servido para clarificar que a opção natural para o lugar do Javi será mesmo ele, e também gostei do jogo que o Garay fez. O Rodrigo fez uma primeira parte muito apagada, mas acabou por conseguir fazer o golo da ordem. E o Cardozo mostrou continuar a ter jeito para fazer aquilo que sabe: apareceu no sítio certo na altura certa, e marcou por duas vezes.
Não foi tão fácil quanto o resultado poderá fazer crer, mas a vitória do Benfica é indiscutível. Fomos a melhor equipa no jogo, e soubemos ser eficazes no aproveitamento das oportunidades que criámos na segunda parte. A transfiguração da equipa da primeira para a segunda parte acabou por justificar plenamente a vitória. Os tempos do 'rolo compressor' já lá vão, mas não deixa de ser agradável termos dez golos marcados nos primeiros três jogos do campeonato.
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