VAMOS ACABAR COM AS IMBECILIDADES
Domingo, 27 de Agosto de 2023

Risco

Uma vitória que devia ter sido mais tranquila num jogo em que o Benfica foi melhor e mais forte mas no qual a partir de um dado momento na segunda parte, ainda por cima quando tinha tudo para o encarar da forma mais tranquila possível, de alguma forma deixou que o seu controlo lhe escapasse, entrando assim numa toada demasiado partida que em nada nos beneficiou e acabou por deixar mesmo no ar a ideia da vitória poder escapar-nos. Foi uma atracção do Benfica pelo risco totalmente desnecessária e inesperada.

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Se eu fosse pessoa para apostar, teria metido dinheiro em como neste jogo três coisas eram garantidas: o Samuel continuaria na baliza, o Aursnes voltaria a ser lateral esquerdo, e o Neres continuaria no banco. Se há uma faceta que o nosso treinador tem insistido em mostrar é a sua teimosia (ou se preferirem, que é um homem de 'convicções fortes'). Confesso que não é das características que mais me agradem, porque tem o condão de me recordar outra personagem que por cá andou várias épocas que fazia da teimosia uma imagem de marca, e que ainda por cima tinha um fétiche por inventar laterais esquerdos. Enfim. A novidade no onze foi a entrada do Florentino para o lugar do João Neves para dar mais consistência defensiva. A primeira parte é fácil de descrever: superioridade total do Benfica, desde o apito inicial. O Gil Vicente praticamente não passava do meio campo (fez o primeiro remate no jogo já nos descontos sobre os descontos) e o Benfica jogava permanentemente no ataque, ainda e sempre bastante dependente daquilo que o Rafa fazia, acompanhado do Di María. Na esquerda, o João Mário apresentou-se num nível melhor do que tinha mostrado nos primeiros jogos, mas o Aursnes voltava a mostrar as dificuldades naturais de não ter pé esquerdo. Quando conseguia ganhar a linha (o que não aconteceu poucas vezes) ou acabava por ter que puxar para dentro e até voltar para trás, ou então saía mesmo com a bola directamente pela linha final. Valeu-nos uma maior liberdade do Di María, que também surgiu algumas vezes por aquele lado para dar profundidade. O Gil Vicente, não sei se inspirado por aquilo que viu o Boavista fazer na primeira jornada, ao fim de algum tempo a não conseguir fazer muito mais do que cheirar a bola, tentou enveredar pelo caminho das faltas frequentes e duras, com o Rafa a ser um dos alvos mais frequentes, beneficiando de um critério disciplinar largo por parte do árbitro João Pinheiro, a deixar por mais do que uma vez o amarelo no bolso. O golo do Benfica apareceu aos dezanove minutos, num penálti marcado pelo Di María depois de uma falta assinalada sobre o João Mário. O golo em nada mudou o jogo, no qual o Benfica continuou sempre por cima mas foi incapaz de chegar a um segundo golo que, a ter acontecido ainda na primeira parte, creio que poderia ter deixado o jogo praticamente resolvido. Entretanto o critério disciplinar largo já não se aplicou ao Kokçu, que à primeira oportunidade viu o amarelo, com a ironia disto ter ocorrido pouco depois do Rafa ter levado duas sarrafadas seguidas, ambas merecedoras do amarelo que na ocasião se manteve no bolso do árbitro.

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O Benfica chegou ao desejado segundo golo ainda na fase inicial da segunda parte - aos cinquenta e três minutos - numa jogada de transição rápida, na qual o passe inicial do Kokçu descobriu o Rafa solto entre linhas, que depois foi progredindo no terreno até à entrada na área. A jogada foi bem acompanhada pelo João Mário, que recebeu a bola mais sobre a esquerda e a soltou ainda mais na esquerda para a entrada do Aursnes na área. Numa rara utilização do pé esquerdo, o norueguês colocou a bola no meio, onde o Rafa apareceu solto para a desviar e a fazer entrar junto ao poste mais distante. Tudo bem encaminhado, e julgo que não terei sido o único a pensar que o jogo estaria praticamente resolvido, não só por causa dos dois golos de vantagem mas também pela completa superioridade do Benfica no jogo até então, sendo muito mais previsível um terceiro golo para o nosso lado do que um qualquer ressurgimento do Gil Vicente no jogo. Até conseguimos colocar a bola na baliza outra vez, mas o golo foi bem anulado por fora de jogo do Rafa no início da jogada. A partir do meio da segunda parte, e repito, de forma inesperada o jogo mudou. Primeiro o Benfica trocou o Arthur e o João Mário pelo Tengstedt e o Neres. Depois, o Florentino viu o cartão amarelo (mais uma vez, tolerância zero para um jogador do Benfica) e ficámos com os dois médios amarelados  - e para piorar as coisas, o Rafa protestou e viu também amarelo, portanto mais uma vez o jogador violento que é o Rafa já vai com dois amarelos em apenas três jogos. Com ambos os médios a jogar mais retraídos o jogo começou a escapar ao nosso controlo e a ficar mais partido, e ainda por cima as ocasiões que conseguimos criar com o jogo nesta toada de ataque - contra-ataque foram sendo desperdiçadas. Fiquei particularmente irritado com uma jogada em que o Rafa teve tempo mais do que suficiente, e em mais de uma ocasião, para oferecer o golo ao Tengstedt mas optou pela jogada individual, e acabou por rematar contra um defesa. O pior que poderia acontecer seria um golo do Gil Vicente e este apareceu mesmo, numa jogada em que de forma pouco aceitável vimos quatro jogadores do Gil Vicente juntos no interior da área - em superioridade numérica sobre os três defesas do Benfica que lá estavam - e depois de uma série de toques e ressaltos acabou por sair o remate para o golo. Reagiu o Benfica trocando de uma vez os dois médios, entrando o Chiquinho e o João Neves, e pareceu-me que conseguimos estabilizar um pouco o jogo, mas era imperativo chegar a um terceiro golo. O que só aconteceu já em período de descontos, e já com o Musa em campo (substituiu o Rafa, e voltámos a ver, ainda que por breves instantes, o Benfica a jogar com dois pontas-de-lança, coisa). Na primeira vez que interveio, uns trinta segundos depois de estar em campo, recebeu um bonito passe do João Neves sobre a defesa do Gil Vicente e rematou para o golo, com a bola ainda a desviar num defesa. Vitória finalmente garantida, mas no pouco tempo que restava até ao final do período de compensações o Chiquinho ainda teve tempo para fazer asneira - tentou fintar na zona da meia-lua, foi desarmado e cometeu falta, oferecendo assim um livre muito perigoso ao adversário. Depois na marcação do mesmo a barreira abriu (e foi o mesmo Chiquinho o responsável por abrir esse buraco) e a bola passou por aí para o golo do Gil Vicente.

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Para mim o melhor em campo voltou a ser o Rafa. Mesmo com os excessos que por vezes comete (como a tal jogada em que podia e devia ter oferecido o golo ao Tengstedt) é sempre ele quem causa os maiores desequilíbrios e o jogador que a equipa procura para iniciar a maioria das jogadas de ataque. O João Mário fez o seu melhor jogo esta época. O Di María voltou a ser influente no ataque, mas na minha opinião terminou o jogo em claro défice físico. Se não gosta de ser substituído é problema dele, mas para mim esteve demasiado tempo em campo. Não é possível avaliar a exibição do Musa porque só jogou uns quatro minutos, mas face à ainda clara inadaptação do Arthur, acho que neste momento é o avançado que mais justifica a titularidade.

 

Ganhámos, mas na minha opinião perdemos uma óptima oportunidade para conseguir aquela vitória convincente que faria falta nesta altura para reforçar os índices de confiança. Não se justifica que a vinte e cinco minutos do final, e com dois golos de vantagem, tenhamos sido incapazes de fazer uma gestão eficiente do jogo e deixado que este resvalasse para o cenário que se verificou. Quanto ao nosso treinador, confesso não ser particular fã da teimosia que ele parece querer revelar esta época. Não gosto, de todo, da insistência do Aursnes a defesa esquerdo. Ninguém me vai convencer que o Ristic, um defesa internacional sérvio (que era titular antes de vir para o Benfica), não é melhor do que pelo menos uns 90% dos laterais esquerdos que existem na nossa liga, e que o facto dele jogar tornaria a equipa tão mais fraca do que com um jogador que nunca jogou ali, ao ponto de arriscarmos não ganhar ao Gil Vicente ou ao Estrela. A mim, parece-me mais uma embirração pessoal e esse tipo de critérios retiram objectividade. É ele o treinador, tenho toda a confiança nele e é ele quem ultimamente vive ou morre pelas suas opções. Mas também me parece importante que se tenha a capacidade de reconhecer quando não estamos certos, e algumas das opções que ele tem tomado ultimamente fazem-me duvidar um bocado disso. Para casmurrice, já tivemos cá um durante tempo a mais.

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publicado por D'Arcy às 09:38
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Domingo, 20 de Agosto de 2023

Nervos

Regresso às vitórias num jogo de superioridade total do Benfica, mas que acabou por ser um exercício aos nervos muito mais intenso do que qualquer um de nós esperaria ou desejaria. O primeiro golo tardou, mas as mexidas vindas do banco resultaram em cheio e acabaram por trazer justiça ao resultado.

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O jogo ficou logo marcado à partida por duas opções tomadas pelo nosso treinador: a primeira, a atribuição da baliza ao Samuel Soares, que assim se estreou a titular pelo Benfica - o Vlachodimos nem no banco se sentou, sendo esse lugar ocupado pelo recém-chegado Trubin. A segunda, a muito questionável opção pelo Aursnes na posição de lateral esquerdo, relegando o Ristic para o banco. No ataque, opção pela estreia do Arthur Cabral face à suspensão do Musa. E no meio de tudo isto, o quase sorrateiro regresso do João Mário ao onze acabou por passar praticamente despercebido. O que não passou despercebido, e logo desde os instantes iniciais, era que contra uma equipa que defendia muito e de forma razoavelmente organizada, o Benfica no ataque vivia quase exclusivamente das acelerações do Rafa para criar algum tipo de desequilíbrio. Ficou também evidente que era um erro a aposta no Aursnes sobre a esquerda. Juntamente com o João Mário ficávamos com dois jogadores destros daquele lado, que não davam qualquer tipo de profundidade ou largura. Tinham sempre que puxar a bola para o pé direito e vir para dentro - comparemos isto com as dinâmicas que a época passada o Grimaldo dava, e a diferença era como da noite para o dia. Para além do Rafa, eram as movimentações do João Neves no meio campo e algumas iniciativas individuais do Di María na direita que iam dando alguma dinâmica ao nosso jogo, com o Kokçu a mostrar muita qualidade de passe. Também nos vimos confrontados com a habitual inspiração do guarda-redes adversário, que negou o golo ao Di María e ao Arthur Cabral durante a primeira parte. Irritante também foi alguma cerimónia dos nossos jogadores na altura da finalização, tentando optar por um último passe para um colega mesmo quando estavam dentro da área e em aparente boa situação para finalizar - o Rafa fez isso mais do que uma vez.

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Pensei que ao intervalo, e face ao que tínhamos visto durante a primeira parte - por mais de uma ocasião eu olhei para o campo e vi quatro jogadores (João Mário, Rafa, Di María e Arthur) num espaço de pouco mais de dez metros quadrados, no meio do terreno e à frente da sobrepovoada defesa do Estrela - houvesse uma reacção imediata e se fizessem alterações no nosso lado esquerdo, mas a única alteração foi a troca do João Neves (certamente o amarelo que viu terá pesado) pelo Florentino. A entrada do Florentino revelou-se útil, porque não só a equipa passou a pressionar mais alto como o Kokçu se soltou mais para apoiar o ataque. Mas o nulo mantinha-se teimosamente, com o guarda-redes do Estrela a responder sempre à altura quando conseguíamos alguma situação de finalização - mais um golo 'roubado' ao Di María. Entretanto, um enorme susto para o Benfica quando o Estrela, numa das raras subidas à nossa área, viu o árbitro assinalar penálti a seu favor quando uma bola cruzada embateu no braço do Florentino. Corrigiu o VAR (o braço estava em baixo, em posição natural ao longo do corpo) e salvámo-nos de ficar numa situação ainda mais incómoda e injusta. A aposta no Aursnes na lateral esquerda manteve-se teimosamente, e a no João Mário durou até cerca de vinte minutos do final, altura em que finalmente deu o seu lugar ao Neres. Que assim que entrou começou imediatamente a criar desequilíbrios, e a jogar como extremo na esquerda, ele que normalmente até costuma ser mais utilizado na direita, onde pode vir para o meio para explorar o remate. De jogadas dele pela esquerda criámos uma ocasião para o Kokçu, cujo remate à entrada da área proporcionou mais uma defesa inspirada ao guarda-redes, e outra no meio da área, onde mais uma grande defesa por instinto negou o golo ao Arthur na sua estreia. Por essa altura o Arthur já dava evidentes sinais de cansaço e, a doze minutos do final, cedeu o seu lugar ao Tengstedt. Logo a seguir, nova incursão do Neres pela esquerda (a jogada começa com uma recuperação de bola do Florentino em antecipação quase em cima da linha da área adversária), foi à linha final e o passe rasteiro para o interior da pequena área foi desviado para golo pelo Tengstedt, no seu primeiro toque na bola. Estava feito o mais difícil e desfeito o nulo, e daí até final o Benfica teve mais espaço para criar jogadas de perigo. Foi por isso com alguma naturalidade que já no período de compensação o Rafa, a passe do inevitável Neres, ficou isolado e fez o segundo já quase em cima da baliza, e logo a seguir quase fez o terceiro a passe do Tengstedt na direita, acertando em cheio no poste.

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O homem do jogo é inevitavelmente o Neres. Foi a entrada dele que mudou tudo, e teria sido difícil ganhar este jogo se tudo continuasse na mesma até final. Boa entrada também do Tengstedt, não só pelo golo, mas pela maior mobilidade que trouxe ao ataque. O Arthur foi um avançado mais fixo entre os defesas, e as movimentações do Tengstedt ajudaram a criar mais espaços e desequilíbrios. Importante também a entrada do Florentino. Sem desprimor para o João Neves, que até foi dos melhores na primeira parte, mas eu acho sempre que a equipa precisa de um jogador como o Florentino em campo, porque permite à equipa jogar mais adiantada - o Kokçu foi um dos que pareceu beneficiar bastante da presença do Florentino. Em apenas meio jogo tenho a certeza de que terá sido o jogador com mais acções defensivas da equipa, e o golo que abre o marcador nasce de uma bola que ele vai recuperar à entrada da área adversária. Por falar no Kokçu, gostei muito do jogo que fez, e a visão e qualidade de passe que mostrou várias vezes deixaram um cheirinho ao que o Enzo fez por nós a época passada. O Di María também não esteve mal e não tivesse apanhado um guarda-redes teimosamente inspirado pela frente muito provavelmente teria feito pelo menos um golo. Finalmente, o Rafa, que se não fosse o Neres seria a minha escolha para melhor em campo. Até à entrada do brasileiro achei que a equipa viveu praticamente dele no ataque. Tal como a época passada está a iniciar esta em grande forma e só gostava que fosse um bocado mais egoísta na altura de finalizar, porque me irritei várias vezes por ter optado pelo passe quando podia rematar em situação muito boa.

 

O assunto da semana será a novela Vlachodimos. Eu não gosto nada do conceito de penalizar imediatamente um jogador por causa de um erro, porque me parece uma má gestão humana que coloca pressão adicional sobre os jogadores. Mas sendo ele o treinador, e tem toda a legitimidade para decidir trocar de guarda-redes titular quando muito bem lhe apetecer - outros já o fizeram antes, tal como o Trapattoni, o Rui Vitória ou o JJ. O que era dispensável para mim era discutir o assunto publicamente antes do jogo e apontar o dedo directamente ao jogador. Só que o Vlachodimos não assinou contrato para ser titular, tem é que ser profissional e acatar as decisões do treinador, mesmo que imagine que não esteja propriamente satisfeito com a insistência do Benfica em contratar um novo guarda-redes este defeso. Além de que o Vlachodimos já não é virgem neste tipo de comportamento, porque quando o JJ colocou o Helton no lugar dele vimo-lo imediatamente a ter declarações públicas sobre querer sair. Posto isto, a decisão de não o convocar era a única possível. Já no que diz respeito ao Aursnes na lateral esquerda, é uma forma muito clara de dizer que não conta muito com o Ristic. Depois de ver sair o titular e do outro lateral esquerdo do plantel estar lesionado, nem assim conseguir jogar deve ser muito desmotivante para qualquer um. Nem percebo o que é que o nosso treinador quis dizer quando disse que o Aursnes 'podia dar-nos algo mais', porque o que nos deu foi uma exibição perfeitamente banal numa posição que de todo não lhe é natural, e uma asa esquerda inoperante durante mais de dois terços do jogo. Se calhar é demasiado ingénuo da minha parte, mas julgo que não serei o único a sonhar com o trio Di María, Rafa e Neres a jogar em apoio ao avançado, como vimos na fase final deste jogo. Ainda consigo perceber que por vezes jogue o Aursnes numa das posições para dar mais consistência defensiva em jogos que o justifiquem, mas contra adversários que se vêm fechar a sete chaves na Luz já me parece menos apropriado. Ainda mais difícil quando a opção é pelo João Mário, que está claramente em má forma e pouco dá à equipa no aspecto defensivo. Enfim, o mais importante foi mesmo o regresso às vitórias e os três pontos amealhados. Esperemos agora um regresso também à normalidade o quanto antes.

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publicado por D'Arcy às 18:28
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Terça-feira, 15 de Agosto de 2023

Falso

Arranque em falso na liga, por culpa de um jogo onde praticamente tudo o que poderia correr mal correu mesmo. Isto redundou num resultado igualmente falso - uma derrota num jogo que tudo fizemos para ganhar e merecemos mesmo ganhá-lo, mas no qual por caprichos do futebol a vitória acabou mesmo por cair para a equipa que não fez absolutamente nada para a conquistar.

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O onze que apresentámos não teve surpresas, houve apenas duas alterações em relação à equipa que conquistou a Supertaça e eram mais do que esperadas: Jurasek no lugar do Ristic e entrada do Musa para a frente de ataque, com a consequente saída do João Mário do onze. O início de jogo mostrou-nos um Boavista a jogar de forma tipicamente agressiva, tentando entrar de forma a intimidar o Benfica. Isto dificultou a nossa tarefa de impor o nosso jogo durante os minutos iniciais, mas o arraial de pancadaria do Boavista valeu-lhe três amarelos aos três médios ainda no primeiro quarto de hora, o que contribuiu para lhes refrear os ânimos. Melhor ficaram as coisas quando aos vinte e dois minutos o Benfica se colocou em vantagem: ainda sobre o meio campo o Rafa ganhou uma bola em antecipação a um defesa, correu isolado em direcção à baliza e depois já na área tocou a bola para o lado, deixando ao Di María a tarefa simples de empurrá-la para a baliza deserta. Tudo a correr bem, jogo completamente controlado e Boavista quase inofensivo, até porque a desvantagem no marcador era um duro golpe para um equipa cujo único objectivo parecia ser jogar para o pontinho. No entanto, e se calhar porque eu tenho tendência a estar permanentemente insatisfeito, achei que com o controlo quase absoluto que tínhamos do jogo nos faltou um bocado mais de assertividade. Pareceu-me que a nossa atitude esteve quase a roçar a sobranceria, demasiado convictos da nossa superioridade e de que mais cedo ou mais tarde novo golo acabaria por surgir, sem que tivéssemos que carregar muito para que isso acontecesse. Pareceu-me muito aquele espírito do 'deixa andar' que isto se resolve.

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Nada parecia indicar que as coisas mudariam na segunda parte, mas logo nos minutos iniciais o Musa, ao disputar uma bola, deixou o pé resvalar sobre a mesma e acertou em cheio com os pitons na canela de um adversário. O vermelho naquela situação era simplesmente inevitável, e vendo-se em desvantagem numérica a opção do Roger Schmidt foi trocar o Di María pelo Morato e passar a jogar com três defesas. Para piorar a situação, quase de seguida o Boavista aproveita uma bola que ficou solta na zona do segundo poste depois de um cruzamento fazer a bola bater no Jurasek, e no primeiro remate que fez à baliza empatou o jogo. A situação complicava-se: empatados e em inferioridade numérica, perante um adversário motivado por ter aproveitado a expulsão para imediatamente empatar. Mas como escrevi antes, a única estratégia do Boavista era jogar para o pontinho, e o empate tinha-lhes caído literalmente do nada. Foi por isso completamente indiferente que o Benfica estivesse em desvantagem numérica, porque dominou completamente o jogo apesar disso, e de forma ainda mais evidente do que o tinha feito durante a primeira parte com onze contra onze. O segundo golo não era apenas provável mas quase inevitável, e depois de já ter visto o Rafa acertar na trave, foi o mesmo Rafa quem o obteve, numa jogada em que só à terceira tentativa a bola entrou, depois de duas defesas do guarda redes em que a segunda, depois de uma recarga do João Neves, levou a bola a embater na trave. Faltavam quinze minutos para o final, o Benfica dominava, o Boavista mostrava uma completa incapacidade para reagir e tudo parecia encaminhar-se para um final feliz. Até que mesmo sobre o final do encontro, e à falta de melhores ideias, o Boavista optou pelo chutão para a área. Um lance aparentemente inofensivo, só que o Vlachodimos teve uma branca e saiu desmioladamente da baliza. A defesa não foi eficaz a afastar a bola e o lance acabou com um penálti cometido pelo António Silva, que mais uma vez de forma completamente inesperada e imerecida deu o empate ao Boavista - que desde o seu primeiro golo não tinha voltado a rematar à nossa baliza. Ainda longos minutos de compensação, mais uma vez o Benfica completamente por cima e a carregar à procura da vitória, e mais uma vez a falta de sorte a aparecer: um remate de primeira do Neres à entrada da área levou a bola a embater com estrondo na barra e a ressaltar para fora - teria sido logo a abrir um dos golos do ano. E para piorar, como se o empate não fosse já uma injustiça atroz, nos instantes finais (já em igualdade numérica, depois do VAR ter alertado para uma expulsão de um jogador do Boavista) lançámo-nos de forma completamente irresponsável para o ataque, colocando os centrais na frente, e uma perda de bola deixou um adversário isolado para correr metade do campo e fazer o terceiro para o Boavista. O Boavista fez três remates à baliza durante o jogo, e marcou três golos.

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O melhor jogador do Benfica foi o Rafa. Assistência para o primeiro golo, marcou o segundo, enviou mais uma bola à trave e foi sempre o jogador mais perigoso do Benfica. Para além dele, bom jogo do João Neves, que raramente sabe jogar mal, e boa entrada do Neres no jogo. Pela primeira vez em várias épocas o Vlachodimos tem concorrência séria pelo lugar e não pareceu lidar bem com a pressão. A cometer erros como o que resultou no segundo golo do Boavista só está a facilitar a vida ao seu concorrente.

 

É mau começar o campeonato a perder, mas isto não foi um jogo normal. Houve demasiada coisa a acontecer, e ao menos se é para nos correrem mal as coisas, então que aconteça logo tudo num só jogo. A parte positiva para mim foi mesmo a forma como lidámos com a expulsão: mesmo em inferioridade numérica dominámos completamente o adversário e fomos muito superiores. Acabámos por não ser felizes, também por culpa própria e erros individuais, mas há outras coisas que fazem parte do jogo e que não controlamos. Se o remate do Neres tem entrado provavelmente estaríamos aqui a falar de uma vitória épica. É deitar este resultado rapidamente para trás das costas e retomar o caminho certo.

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publicado por D'Arcy às 15:44
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Quinta-feira, 10 de Agosto de 2023

Regresso

Regressou o futebol a sério, e pouco mudou. Acabámos a última época a festejar, e começamos a nova no mesmo tom. Para que não houvesse estranheza ou choque com grandes mudanças de uma época para a outra, a nova época também começou com o treinador do Porto a ser expulso e a adicionar um novo número ao seu cada vez mais rico repertório.

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Sem querer armar-me em especialista, julgo que quase todos os que olharam para o onze inicial do Benfica terão pensado que era um erro. Dois reforços de início, o Kokçu e o Di María, mas uma estranha opção por não jogar com um avançado fixo de início. Já tínhamos visto algo semelhante o ano passado em alguns jogos, quando na ausência do Gonçalo Ramos jogámos com o Gonçalo Guedes na sua posição, mas mesmo assim em termos de presença na área ainda há alguma diferença entre ter ali o Gonçalo Guedes ou o Rafa. Alinhámos portanto com João Mário, Aursnes, Rafa e Di María à frente da dupla Kokçu e João Neves. Não há outra forma de descrevê-lo: durante os primeiros vinte e cinco minutos fomos quase atropelados pelo Porto. O Benfica tem revelado algumas dificuldades em jogar contra equipas agressivas na pressão, e foi isso mesmo que o Porto fez. Raramente conseguimos sair a jogar, chegando ao ponto de termos que optar pela saída com bolas longas, o que sem uma referência no ataque estava quase sempre condenado ao insucesso. O jogo foi por isso quase sempre disputado dentro do nosso meio campo, ainda que o Vlachodimos não tenha sido obrigado a qualquer intervenção mais difícil - o Porto dispôs de duas situações mais perigosas ainda nos minutos iniciais, do Galeno e do Taremi, mas os remates saíram tortos. Era sobretudo pela nossa direita que o Porto nos criava dificuldades, já que o Di María pouco ajudava a defender e o Bah tinha que lidar com a velocidade do Galeno, apoiado frequentemente pelo Zaidu. Coube ao João Neves o papel de pronto-socorro, que com uma energia quase inesgotável andou a tapar buracos e assim ajudava a evitar eventuais desequilíbrios. No ataque, chegámos poucas vezes à frente e por isso o Porto esteve quase sempre confortável no jogo. Só a partir da meia hora é que o jogo começou a mudar, com uma boa parte dos lances a serem conduzidos pelo Di María, mas tínhamos pouca presença na área e por diversas vezes o vi a conduzir a bola a partir da direita e quando levantava a cabeça apenas lá tínhamos o Rafa emparedado entre os defesas do Porto. Mas na fase final da primeira parte o Benfica já conseguia sair a jogar com mais à vontade e manter a bola na sua posse por períodos mais prolongados, o que ia indicando uma viragem no pendor do jogo.

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Isto acentuou-se após o intervalo, durante o qual o nosso treinador trocou os amarelados João Mário (que teve uma actuação apagadíssima na primeira parte, somando perdas de bola e mostrando uma intensidade muito aquém da exigível num jogo destes) e Ristic pelo Musa e o reforço Jurasek. Julgo que a entrada do Musa em particular não surpreendeu ninguém e era mais do que esperada. A equipa reorganizou-se com o Aursnes mais sobre a esquerda e o Rafa com uma função mais livre atrás do Musa, tendo optado quase sempre por cair sobre a direita para combinar com o Di María, criando sérios problemas naquele lado da defesa do Porto, onde o Marcano e o Zaidu não mostravam capacidade para responder. O domínio do Benfica na segunda parte foi até estranhamente evidente, porque não é habitual ver o Benfica conseguir jogar tão à vontade contra o Porto. O Porto praticamente nem passava do meio campo; os avançados eram presa fácil para os nossos defesas e era o Benfica quem agora fazia ao Porto aquilo que o Porto tinha feito na fase inicial do jogo, pressionando alto a saída de bola e recuperando frequentemente a bola em zonas adiantadas do campo. Depois da primeira parte descansada que tiveram, a dupla de centrais do Porto e os seus 75 anos conjuntos não pareceu capaz de responder a levar com o Musa em cima na segunda parte, e foram acumulando erros. E com cerca de uma hora de jogo o Benfica deu o primeiro golpe: pressão alta, uma tentativa do Porto sair a jogar a partir da defesa resultou num passe disparatado do Pepê que o Kokçu aproveitou para se antecipar e ganhar a bola, colocando-a de imediato no Di María à entrada da área sobre a direita (e com o Pepe atrasado a deixá-lo em jogo). Depois bastaram dois toques, um para controlar e o outro para rematar cruzado e rasteiro colocando a bola junto ao poste mais distante, com o Diogo Costa a parecer poder ter feito melhor. Se alguém esperaria uma reacção forte do Porto ao golo sofrido (o que também costuma ser habitual) estava enganado. O Porto não só não teve qualquer reacção como continuou a ser dominado e acabou por sofrer o segundo golo seis minutos depois. Pressionado pelo Musa, o Pepe não conseguiu aliviar bem uma bola alta e o Rafa aproveitou para ganhar o lance em antecipação ao Marcano, entrar na área sobre a direita e colocar a bola no Musa, que estava completamente sozinho depois dos centrais do Porto mostrarem uma completa incapacidade para acompanhar o lance (teve que vir o Pepê quase em desespero da direita para tentar o corte). Em frente ao Diogo Costa, o Musa não desperdiçou e deixou o Benfica praticamente com as duas mãos na Supertaça. Uma vez mais, a reacção do Porto foi inexistente. Foi sempre o Benfica quem esteve mais próximo de fazer um terceiro golo (o Rafa e o Musa estiveram bem perto disso) do que o Porto de reduzir. Julgo que na segunda parte a única ocasião de perigo que o Porto criou foi o golo (bem) anulado ao Galeno, já em período de descontos. Até final, tivemos direito a ver o Pepe a esforçar-se para ser expulso, tendo-se conseguido safar a isso depois de dar uma sarrafada por trás ao Rafa, mas não conseguiu resistir a continuar a tentar espalhar a sua classe e depois de, mais uma vez por trás, enfiar uma joelhada gratuita no Jurasek num lance absolutamente inócuo, foi mesmo para a rua. E como se isso não fosse já suficientemente agradável para os benfiquistas, o Sérgio Conceição fechou com chave de ouro ao ser expulso por reclamar de forma exagerada uma simples falta assinalada quase a meio campo contra o Porto, e recusando-se a sair. Presumo que este comportamento na sua vigésima quarta expulsão dê direito a mão pesada do conselho de disciplina e ele leve um jogo de suspensão, com direito a recurso. Qualquer coisa a mais do que isso é perseguição a uma personagem tão cordata, educada e pacificadora do futebol português.

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Para mim o primeiro destaque do Benfica vai para o João Neves. Mesmo na fase mais difícil do jogo, na qual o Benfica estava a ser dominado, esteve sempre num nível alto. Acudiu a todos os fogos, ajudou a defender e a recuperar bolas, e quando começou a ter mais espaço conseguiu quase sempre ter grande qualidade nos passes a sair para o ataque. É daqueles jogadores que raramente vamos ver a fazer lances de levantar o estádio, em que finta dois ou três adversários, mas aquilo que ele trabalha durante um jogo é impressionante. O Di María é outro dos destaques e foi sempre o jogador mais perigoso do Benfica. Foi muito bom vê-lo marcar logo no primeiro jogo oficial após o seu regresso. Gostei da actuação dos nossos dois centrais (e fiquei surpreendido com o nível do Otamendi, porque ele já estava há bastante tempo quase sem jogar), a entrada do Musa foi muito importante para ganharmos este jogo, e com a sua entrada também o Rafa subiu muito de rendimento na segunda parte.

 

Foi muito bom entrar na nova época a ganhar. Sabemos muito bem o tipo de ambiente que seria criado em redor da equipa caso começássemos logo com uma derrota, ainda por cima contra o Porto. Apesar da perda do Gonçalo Ramos em cima da linha de partida, creio que temos motivos para nos sentirmos confiantes em relação à nova época. Temos um treinador e um sistema de jogo com os quais estamos familiarizados, não houve nenhuma revolução na equipa, as contratações foram cirúrgicas e os reforços parecem sê-lo realmente. Acho que para ficar completamente satisfeito só faltava um lateral direito para ser alternativa ao Bah, porque não me sinto muito confiante com o João Victor nessa posição (tenho flashbacks com a altura em que tínhamos o Alcides a ter que jogar na direita). Mas isso se calhar é um problema meu, que tenho sempre que arranjar alguma coisa com que embirrar.

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publicado por D'Arcy às 11:42
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