VAMOS ACABAR COM AS IMBECILIDADES
Sábado, 30 de Março de 2024

Desoladora

Em casa, frente ao último classificado, o Benfica lá se conseguiu arrastar até à vitória e aos três pontos que nos mantêm perto do topo da tabela. Mas foi uma vitória que, pelo menos para mim, foi desoladora, e não são muitas as vezes em que me sinto tão desmotivado após ganharmos um jogo. Mesmo o consolo dos três pontos não é suficiente para afastar as más sensações com que fiquei deste jogo, que muito honestamente considero estar entre os piores que já jogámos esta época.

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Utilizámos um onze esperado, com o Tomás Araújo no lugar do suspenso António Silva, uma dupla Florentino/João Neves no meio campo, e o ataque com as alas entregues ao Neres e ao Di María, com o Cabral como homem mais avançado. Eu sei que tenho tendência para o pessimismo, mas a verdade é que fiquei com más sensações sobre este jogo logo nos primeiros minutos. E porquê? Porque o Chaves mostrou, desde muito cedo, porque motivo está em último lugar. De uma forma excessivamente optimista, nem me pareceu ter vindo com o tradicional autocarro das equipas pequenas (apesar da excessiva calma do seu guarda-redes nas reposições de bola) mas sim com vontade de jogar de forma mais aberta, apenas sem grande capacidade para o fazer. Não sei se esta época vi alguma equipa cometer tantos erros defensivos que resultaram em verdadeiras ofertas aos nossos avançados, com perdas de bola comprometedoras em zona defensiva e passes transviados, e no entanto mostrámos uma completa incapacidade para os aproveitar. Acima de tudo, fiquei (mais uma vez) com a sensação de uma enorme falta de dinâmica de equipa. Sim, os jogadores quando tinham a bola corriam, mas o resto da equipa ficava muito estática. Inventámos uma nova jogada em que juntamos uns quatro jogadores perto da esquina da área e eles ficam ali durante um tempo exasperantemente longo a trocar a bola entre si em passes curtos, numa espécie de meiinho com os defesas adversários, até que finalmente nem se ganha a linha, nem se progride para a área, nem se cruza, e a bola ou é perdida ou é passada para um dos centrais. A sensação constante é a de que praticamos um futebol desgarrado, muito cada um por si à espera que o talento individual acabe por resolver, e quando o adversário é muito inferior, como foi o caso de hoje, há a tendência para algo que roça a displicência. Houve muito desacerto na altura de finalizar, já que à parte num livre perigoso logo na fase inicial do jogo, o guarda-redes do Chaves até nem teve muito trabalho. Mas tivemos uma oportunidade flagrante para desfazer o nulo ainda na primeira parte, quando o VAR assinalou um penálti por cotovelada na cara do Bah, mas o Di María fez a paradinha, esperou que o guarda-redes caísse para um lado, e depois passou-lhe a bola, frouxa, para as mãos. Um penálti muito, muito mal marcado e um bom indicador da desinspiração geral.

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Que continuou na segunda parte, na qual voltámos a ter mais uma oportunidade soberana para ir para a frente do marcador. Novamente o VAR a detectar um penálti por falta sobre o Di María, e desta vez foi o Cabral a bater. Tal como o Di María, fez a paradinha, deixou o guarda-redes cair, e escolheu o mesmo lado do guarda-redes, permitindo a defesa deste. Mas teve direito a segunda oportunidade, pois foi detectada invasão da área por um jogador do Chaves na marcação. Papel químico da primeira marcação: paradinha, queda do guarda-redes, remate para o mesmo lado, nova defesa. Absolutamente exasperante - e louve-se a atitude do público que, perante uma exibição tão desinspirada da nossa equipa, geralmente continuou a apoiar e guardou as manifestações de desagrado para depois do apito final. Não deu para ficar muito tempo a mastigar o assunto porque pouco depois chegámos ao golo. Um livre sobre a direita do ataque, mal marcado pelo Di María, que enviou a bola tensa para a área mas demasiado baixa, quando a intenção seria colocá-la na zona do segundo poste. Mas felizmente que pelo caminho apanhou o João Neves no meio da área, que com um desvio bastante intencional de cabeça a fez ir embater no poste mais distante e entrar na baliza. Um alívio, porque começava a parecer muito complicado meter a bola na baliza. Pouco depois trocámos de avançado, e o Marcos Leonardo no tempo em que esteve em campo revelou-se um pouco mais activo do que o Cabral até então. O golo não serviu de calmante à nossa equipa, que continuou a jogar aos repelões e de forma descoordenada. A cerca de dez minutos do final, ocasião para revermos uma das inovações tácticas desta época, com as entradas do João Mário e do Kökçu (altura em que aí sim, foram audíveis assobios para o turco) para os lugares do Neres e do Di María, para jogarmos com quatro médios centro (cinco, se contarmos com o Aursnes). A outra inovação táctica desta época é obviamente a dos quatro centrais. E mais uma vez, apenas por opção, não utilizamos todas as substituições, no que se começa também a tornar uma imagem de marca. Seria de pensar que perante tanto desacerto e tendo a felicidade de estar em vantagem, o Benfica aproveitasse os minutos finais para assentar o jogo e geri-lo com uma certa dose de segurança. Puro engano. Os minutos finais foram horríveis, com o jogo aos repelões, completamente partido e aberto e sem qualquer tipo de organização táctica, sobretudo em termos defensivos. Poderíamos ter marcado um segundo golo que nos descansaria, mas também poderíamos perfeitamente ter sofrido o empate porque, repito, não vi qualquer tipo de organização na nossa equipa. Aquilo para mim deixou de ser um jogo de futebol e mais parecia uma peladinha entre amigos ao fim de semana: cada um por si, com o resto da equipa a ver jogar.

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João Neves e o Florentino são os destaques que consigo fazer. Ambos estiveram constantemente em jogo, o João Neves como habitualmente pareceu ter o jogo todo a passar constantemente pelos seus pés e marcou o golo decisivo, enquanto que o Florentino teve um desempenho defensivo notável, com diversas recuperações de bola bem dentro do meio campo adversário. Continuo a achar que esta é a dupla do meio campo que neste momento melhor se complementa e resulta.

 

Segue-se uma sequência de três jogos de dificuldade elevada e que no fundo poderão decidir toda a época no espaço de uma semana, e é muito difícil sentir-me com a confiança em alta para os enfrentar. Será necessário superarmo-nos e fazer muito, muito mais e melhor do que isto se quisermos alguma coisa positiva deles. O problema é que o nosso treinador não parece ver grandes problemas com o que estamos a jogar e normalmente até exprime satisfação com isso, por isso não sei se será realista nesta fase esperar grande evolução. Se calhar sou eu que estou a ser demasiado pessimista, mas muito sinceramente eu hoje achei que jogámos francamente mal e que acabámos por ganhar porque simplesmente temos muito melhores jogadores do que o Chaves. Continuarei sempre a apoiar porque não sei fazer outra coisa; estive no descalabro do Dragão e estarei em Alvalade no próximo fim de semana, mas neste momento é muito difícil sentir confiança ou entusiasmo perante o que vejo esta equipa produzir. Espero sinceramente que se consigam superar esta semana.

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publicado por D'Arcy às 00:16
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Segunda-feira, 18 de Março de 2024

Persistência

Foi preciso persistência e uma boa dose de paciência, especialmente depois de um arranque em falso numa primeira parte pouco conseguida, mas acabámos por conseguir os importantes três pontos na visita ao Casa Pia.

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Uma alteração na equipa, saiu o David Neres e entrou o João Mário. Natural, porque o João Mário não poderia ficar de fora dois jogos seguidos. A primeira parte do Benfica não foi boa. Tentámos ter a iniciativa do jogo, mas encontrámos pela frente um Casa Pia muito fechado atrás e que quando conseguia recuperar a bola contra-atacava em transições rápidas - logo nos primeiros minutos foi apenas por aselhice de um jogador do Casa Pia que não ficámos em desvantagem numa jogada destas, pois ele surgiu completamente solto em posição frontal à baliza e conseguiu rematar de forma disparatada para fora. Quanto a nós, revelávamos as dificuldades muitas vezes vistas esta época para ultrapassar equipas a defender com um bloco muito baixo: muita circulação de bola sem progressão, constantemente à procura de rasgos individuais do Di María - o que resultou em mais um jogo com muitas perdas de bola por parte deste, já acaba por estar constantemente a recorrer a arrancadas individuais ou tentativas de passes de risco. Na frente, o Marcos Leonardo nunca conseguiu antecipar-se aos defesas do Casa Pia sempre que a bola era cruzada para a área, e apenas uma vez conseguiu escapar à marcação para fazer um remate cruzado que saiu muito frouxo. Tivemos um golo anulado ao João Neves por posição irregular deste, num lance eu que eu tenho algumas dúvidas sobre o critério de considerar a bola do Otamendi um 'remate'. Para mim foi um cruzamento para a área (altura em que sim, o João Neves está adiantado) onde o António Silva disputa a bola com o guarda-redes, com este a afastar a bola de forma deficiente e a deixá-la para o João Neves finalizar. Enfim, foi decidido contra o Benfica, está sempre bem decidido. Com o Casa Pia a jogar num bloco tão baixo, havia também pouco espaço para explorar pelo Rafa, que assim teve pouca intervenção no jogo  - e quando isto acontece, normalmente é mau sinal para nós - e quando apareceu foi para rematar de fora da área, o que é muito pouco usual nele.

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Aparecemos completamente diferentes, para melhor, na segunda parte. Muito mais agressivos e rápidos, conseguimos dominar completamente o Casa Pia e o jogo passou a ter apenas um sentido, sempre disputado no meio campo do Casa Pia e sem permitir sequer qualquer tipo de transição mais perigosa para a nossa baliza - o Trubin foi um mero espectador. O Rafa teve a primeira grande ocasião, mas depois de lançado pelo Di María e de fugir à defesa, adiantou demasiado a bola e acabou por finalizar já quase sobre a linha final, com o guarda-redes em cima dele, fazendo a bola cruzar toda a baliza a centímetros da linha de golo. Com a pressão a intensificar-se, ao fim de um quarto de hora fizemos duas substituições que vieram a revelar-se decisivas. Entraram o Neres e o Cabral, saíram o Marcos Leonardo e o Florentino. O Neres deu maior largura ao nosso ataque, e nem sequer vou dizer que o João Marío melhorou quando passou para o meio, ele literalmente apareceu, porque até aí acho que nem tinha reparado que estava em campo. Quando ao Cabral, foi uma presença muito mais ameaçadora no ataque, mostrando mobilidade e força física para disputar os lances com os defesas - ao contrário do que o Marcos Leonardo fazia, que era esperar atrás dos defesas por uma falha destes. Logo a seguir, o António Silva falhou uma ocasião flagrante para marcar: bola cruzada pelo Aursnes da esquerda e o António conseguiu antecipar-se a toda a defesa e guarda-redes, mas cabeceou para fora quando tinha a baliza à sua mercê. A pressão do Benfica acabou por dar resultado a um quarto de hora do fim. Numa transição, o João Mário colocou a bola no Cabral sobre a direita, que progrediu até à área e tirou o defesa da jogada puxando a bola para dentro, para o seu pé esquerdo, para depois rematar cruzado. Bom golo do nosso ponta-de-lança, a desatar finalmente um nó que estava cada vez mais complicado. Tal como em Glasgow, depois do golo o Benfica conseguiu com sucesso pausar o ritmo de jogo e controlar completamente até ao apito final - o Casa Pia não conseguiu esboçar qualquer tipo de reacção ao golo. Apesar da sobrecarga de jogos, mantivemos a nossa imagem de marca de não utilizarmos todas as substituições e apenas perto do final fizemos a terceira, trocando o Bah pelo Tomás Araújo.

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Num jogo que não foi exuberante, acho que acabo por escolher como destaque o Cabral mesmo. Entrou quando o jogo pedia mesmo alguém com as suas características, resolveu-o, e se calhar se não tivesse entrado não teríamos conseguido deitar abaixo a resistência do Casa Pia. É repetitivo mencionar sempre o João Neves, mas ele não sabe jogar mal e acaba por se destacar sempre pelo menos pela entrega. Gostei do António Silva e da profundidade que o Bah conseguiu dar pela direita.

 

Depois de termos estado quatro jogos consecutivos sem vencer fora de casa (Vitória, Toulouse, Sporting e Porto), conseguimos agora duas vitórias importantes nos últimos dois. No fundo o regresso à rotina: nada de particularmente entusiasmante mas cumprimos a nossa obrigação, vencemos e mantivemo-nos na luta. Temos agora também que lidar com o caso criado pela entrevista do Kökçu, que em nada ajuda. Eu confesso que compreendo e até concordo com muito daquilo que ele diz, pelo menos no que diz respeito às opções tácticas do nosso treinador em relação a ele, mas a oportunidade desta entrevista é completamente errada e não deixa outra opção ao clube senão agir disciplinarmente. Espero apenas que isto não tenha ramificações no balneário, porque a sensação que tenho é a de que o turco não deverá ser o único descontente com as opções do treinador.

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publicado por D'Arcy às 10:41
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Sexta-feira, 15 de Março de 2024

Cumprida

Acho que todos nós tínhamos a noção de que o Benfica era uma equipa superior ao Rangers e por isso mesmo, apesar do empate em casa na primeira mão, havia a expectativa legítima de que um Benfica minimamente competente conseguiria ir ganhar a eliminatória a Glasgow. Tarefa cumprida, portanto.

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Houve quatro alterações no onze em relação àquele que tinha vencido o Estoril: Otamendi, Di María, Rafa e João Neves voltaram, por troca com Tomás Araújo, Tiago Gouveia, Kökçu e João Mário. Pela frente apanhámos um Rangers motivado pelo resultado da primeira mão, uma estádio cheio a apoiá-los (com um cantinho vermelho que, desta vez, parece ter-se portado bem) e ainda uma intempérie que se abateu sobre Glasgow, que foi tornando o relvado cada vez mais pesado. Esperava por isso uma entrada forte por parte dos escoceses, que de facto até se verificou. Eles estiveram mais por cima na primeira fase do jogo, mas raramente criaram ocasiões de grande perigo - a situação mais complicada acabou por ser um remate à figura do Trubin, que ele acabou por deixar escapar entre as pernas e que saiu ao lado da baliza. O Benfica revelou sempre uma boa organização defensiva, com o António Silva a ser um esteio na defesa e a limpar tudo o que lhe aparecia, pelo ar ou pelo chão. O meio campo com o João Neves e o Florentino é também aquele que melhor cobertura dá aos nossos defesas que, ao contrário daquilo que tantas vezes vimos esta época, não têm que estar constantemente a apanhar com adversários embalados pela frente quase sem oposição. À medida que o tempo foi decorrendo o Benfica estabilizou o seu jogo e começou lentamente a conseguir explorar o espaço que tinha à frente, criando mesmo situações de maior aperto na área do Rangers - Di María, Rafa ou Marcos Leonardo dispuseram de situações em que poderiam ter dado melhor sequência ou finalizado melhor. Na altura em que soou o apito para o intervalo achei aliás que já estávamos mesmo por cima no jogo, e que havia maior probabilidade de sermos nós a marcar do que o Rangers.

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Ao intervalo trocámos de ponta-de-lança, entrando o Tengstedt. O Marcos Leonardo ainda não parece estar na melhor forma física e já revelava dificuldades em lutar com os defesas adversários num jogo com tendência para se tornar cada vez mais físico. Dada a forma como tinha acabado a primeira parte, foi surpreendente o início da segunda. O Rangers veio com tudo, e aquele primeiro quarto de hora foi complicado e deixou-me preocupado que o Rangers pudesse chegar à vantagem - naquela altura tinha a sensação que a primeira equipa a marcar daria um passo de gigante para o apuramento. É verdade que ainda assim o Trubin nunca teve muito trabalho, e a melhor ocasião dos escoceses foi um remate que foi desviado no limite pelo Aursnes, com a bola a passar perto do poste. Ainda mais um susto quando um desvio do António Silva fez a bola passar muito perto do poste, quase acabando em autogolo. Pouco depois do primeiro quarto de hora o Benbfica deu um grande aviso ao Rangers, quando uma boa transição que começou no Di María pela direita acabou com o Aursnes do lado oposto a ganhar a linha de fundo (ultimamente ele parece estar a conseguir fazer isto muito bem) e a oferecer literalmente o golo ao Tengstedt, que acabou por fazer um passe para as mãos do guarda-redes. Dado o aviso, cinco minutos depois veio o golo. Surge numa transição após um canto para o Rangers, na qual o Florentino acabou por finalmente conseguir colocar a bola na frente. O Di María tocou-a de cabeça para o Rafa mais sobre a esquerda, e a velocidade e classe deste fez o resto, fugindo aos defesas e vindo para a zona central para finalizar de forma perfeita. O lance foi inicialmente invalidado em campo, mas o VAR acabou por confirmar que no momento do toque de cabeça do Di María o Rafa ainda estava dentro do nosso meio-campo (aposto que na nossa liga o golo teria sido anulado). Este golo matou o Rangers, que nunca mais conseguiu voltar a ser o mesmo. Até final tivemos o jogo sempre completamente controlado e até poderíamos ter ampliado a vantagem, com destaque para um falhanço do António Silva que não conseguiu fazer o desvio quando estava à vontade à frente da baliza.

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Melhores do Benfica, para mim, o trio de meninos do Seixal. António Silva, João Neves e Florentino foram os esteios desta vitória, muito bem acompanhados pelo Aursnes. O António Silva esteve intransponível na defesa, lidando perfeitamente com o jogo tipicamente britânico que os escoceses tentaram implementar e sendo dominador pelo ar. Sobre o João Neves já vão faltando palavras para descrever o pequeno dínamo que alimenta todo o nosso jogo. Quanto ao Florentino, se um jogo destes não é suficiente para perceber a utilidade dele na nossa equipa, não sei o que será. O Aursnes é, objectivamente, o nosso melhor lateral esquerdo. Infelizmente, acrescento eu, porque poderia ser muito mais útil noutras funções e zonas do campo. Mas antes tê-lo a ele ali do que o Morato.

 

Estamos, pelo terceiro ano consecutivo, nos quartos-de-final de uma competição europeia. Todos nós, por sermos adeptos, achamos sempre que podemos e devemos fazer melhor, e raramente estamos satisfeitos com o que a nossa equipa produz. O jogo de ontem não será excepção, mas mesmo sem estarmos ao nosso melhor, creio que no conjunto das duas mãos ficou bem claro que somos melhores e fomos melhores do que o Rangers dentro do campo. No entanto toda a comunicação social parece ter muita vontade em destacar que o Benfica jogou mal, e que terá tido sorte na passagem - curiosamente, a imprensa escocesa considera que o Benfica mereceu passar, e uma visita rápida a fórums de adeptos do Rangers também me permitiu ver que eles nos consideram melhores e que ontem merecemos ganhar. Talvez porque nesta altura não há contabilidades a fazer como quantos golos o Benfica sofreu, há quantos jogos não ganha, ou há quantos jogos é que Rafa não marca, o melhor é carregar na tecla do mau jogo que o Benfica fez. A mesma comunicação social é aquela que perante dois jogos em que o Porto se enfiou na defesa contra o Arsenal, não se cansa de elogiar o épico desempenho deles. Ou que tendo o sapal sido claramente dominado pela Atalanta nos dois jogos, já tendo tido a sorte de seguir para Itália com um empate, se agarra às oportunidades por eles criadas nos últimos minutos para classificar a exibição deles como 'autoritária', com o jornal não-oficial do sapal (vulgo Record), liderando o pranto, a chegar ao absurdo de escrever que foram 'muito melhor equipa' numa negação e inversão completa da realidade. É vergonhosa a diferença de tratamento que existe. Dá a impressão que a única expectativa admissível para o Benfica é que domine todos os jogos do princípio ao fim e massacre todos os adversários. Qualquer coisa menos do que isso é motivo para crítica severa. Pois que fiquem com as suas magníficas vitórias morais, que eu me contento com mais uma má exibição e a passagem marcada para a próxima eliminatória.

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Segunda-feira, 11 de Março de 2024

Chave

Dois golos em momentos chave ajudaram um Benfica com um onze muito renovado a regressar, de forma justa, às vitórias. O Estoril ainda chegou a assustar, mas a resposta dada pelo Benfica foi suficiente para justificar uma vitória sem grande margem para discussão, num jogo em que assistimos a um novo patamar de palhaçada na arbitragem.

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Foi uma mão cheia de alterações no onze inicial: Tomás Araújo na defesa, Kökçu e João Mário no meio campo, e Tiago Gouveia e Marcos Leonardo no ataque foram as entradas. Destaque para agora sim, uma verdadeira poupança em alguns dos jogadores mais utilizados esta época, com o Rafa, Di María e João Neves a começarem no banco. As alterações também significaram uma mudança em termos tácticos, porque se se pode dizer que o Kökçu jogou no lugar do Rafa, a verdade é que ele é um jogador completamente diferente, o que na prática significou jogarmos num esquema de três médios, com o turco a ocupar o vértice mais adiantado do triângulo. Os últimos resultados tiveram efeitos na confiança dos jogadores e da equipa, que não entrou de forma muito decidida no jogo. A sensação que dá é que há muito receio de falhar, e portanto raramente se arrisca um passe mais vertical, o que resulta em posses mais prolongadas nas quais a bola circula demasiado entre os nossos jogadores sem haver progressão, para algum exaspero dos adeptos. Ou em que vemos a bola chegar perto da área para depois voltar para trás e recomeçarmos o processo todo outra vez. Perante um Estoril que jogou da forma esperada, com linhas muito fechadas e juntas atrás, a procurar depois partir rápido para o contra-ataque a partir das faixas laterais, e que cedo procurou enervar com perdas de tempo e calma excessiva em todas as reposições de bola, tivemos o melhor remédio para isso com um golo ainda relativamente cedo. Sobre a direita, o Benfica recuperou a bola ainda numa zona adiantada e o passe atrasado do Neres para a entrada da área foi correspondido por um grande remate em arco do Kökçu, que colocou a bola junto ao ângulo superior do outro lado. Tudo a alinhar-se para uma noite tranquila, mas infelizmente não conseguimos evitar uma tendência cada vez mais frequente: sofrer um golo na primeira vez que o adversário chega à nossa baliza. Apenas sete minutos depois de estarmos em vantagem e sobre a esquerda da área, o António Silva resolveu imitar o comportamento habitual do Otamendi e entrou à queima sobre o Heri, que o bateu de forma demasiado fácil no um para um. Depois o Trubin apenas conseguiu sacudir para a frente o cruzamento/remate, fazendo com que a bola fosse cair mesmo à frente do Rodrigo Gomes, que fuzilou a baliza. Com o golo regressaram as inseguranças e o Benfica acusou o golpe. Durante largos minutos fomos incapazes de rematar sequer à baliza ou criar ocasiões de perigo, o que levou mesmo a manifestações de impaciência por parte dos adeptos. Até que num instante tudo mudou, pois conseguimos regressar à vantagem num momento chave, mesmo antes do intervalo. Cruzamento largo do Neres na direita, com o Tiago Gouveia a aparecer ao segundo poste para colocar a bola, de cabeça, na zona central, onde o Marcos Leonardo se antecipou aos defesas e empurrou a bola de cabeça para o golo. Extremamente importante para permitir um intervalo mais descansado e um regresso do intervalo sob muito menos pressão.

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E para dar sequência ao segundo golo, nada melhor do que começar a segunda parte com um golo para afastar dúvidas e dar ainda mais confiança à equipa. Passe do Kökçu da zona central a solicitar o Tiago Gouveia, que desta vez até estava de posição trocada com o Neres e apareceu sobre a direita, este enfrentou o Mangala e já dentro da área fez um bom remate cruzado que fez a bola entrar junto ao poste mais distante. A partir daqui a equipa conseguiu soltar-se e jogar de uma forma mais fluida, e assistimos a alguns momentos de bom futebol da nossa parte, também potenciados pelo facto do Estoril já não poder adoptar a posição negativa com que tinha entrado no jogo e ser agora obrigado a jogar o jogo pelo jogo de forma mais aberta. Construímos ocasiões para ampliar o resultado, que incluíram um momento que pode ficar para a história desta liga. Sobre a esquerda, e dando sequência a uma boa jogada do Benfica em que o remate cruzado do Kökçu do outro lado não levou a melhor direcção, o Benfica ainda recuperou a bola e o Aursnes ganhou a linha de fundo já dentro da área e perto da baliza. Fez o passe atrasado para a finalização do Marcos Leonardo, que o guarda-redes do Estoril defendeu por instinto, e depois o nosso avançado foi varrido pelo Mangala. Logo na altura ficou a sensação de que seria lance para penálti, que o árbitro Manuel Oliveira (que até aí já estava a ter uma actuação no mínimo 'inclinada') resolveu ignorar. Mas o VAR chamou-o mesmo para rever o lance, que mostrava de forma clara que o Mangala não só entra de pé em riste ao lance, atingindo com a sola o pé do Marcos Leonardo depois deste rematar, como com a outra perna acaba por varrer o pé de apoio do nosso avançado. Depois de um longo período a analisar as imagens, tivemos o privilégio de ouvir em directo e ao vivo a conclusão do árbitro de que o número 22 do Estoril não cometeu nenhuma infracção. Portanto agora não só temos a possibilidade de sermos roubados, ainda podemos ouvir a forma como o estamos a ser. Foi uma explicação muito útil. A quinze minutos do final começaram as alterações na equipa, com as trocas do Neres e do Marcos Leonardo pelo Rollheiser e o Cabral. O Manuel Oliveira nessa altura já estava com a corda toda e ignorou olimpicamente uma falta grosseira precisamente sobre o Cabral à entrada da área. Minutos depois, mais duas alterações e a inevitável entrada do Morato para lateral esquerdo, no lugar do Aursnes, e do João Neves para o lugar do Kökçu. Mas o toque de bizarro ainda estava para vir, pois logo a seguir entrou o Carreras. Face aos jogadores em campo, esperava que o espanhol fosse para a lateral esquerda, o Morato passasse para o meio, e o Tomás Araújo para a lateral direita, onde já jogou algumas vezes esta época. Mas não, o Carreras foi para a direita e preferimos jogar com duas adaptações na defesa. É uma imagem de marca. O jogo nessa altura ficou muito partido, e o João Neves ainda atirou uma bola à barra, enquanto que do outro lado o Trubin teve que se aplicar para evitar o golo do Estoril num par de ocasiões.

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Os jogadores a quem foram concedidas oportunidades na generalidade aproveitaram-nas. O Tiago Gouveia é um dos destaques óbvios, com um golo e uma assistência, e capacidade para pegar na bola e ir para cima da defesa, oferecendo largura e profundidade ao nosso jogo. O Tomás Araújo voltou a mostrar ser uma opção muito válida para o centro da defesa. É capaz de ser o nosso central com melhor saída de bola. O Kökçu, sem surpresa, revelou-se um jogador muito mais útil a jogar na sua posição, e num esquema de três médios. Bom jogo também do Aursnes, do Marcos Leonardo - que não esteve muito em jogo mas que revelou bom sentido de oportunidade, aparecendo quase sempre para criar perigo - e do Florentino.

 

Não foi uma exibição que nos enchesse o olho ou afastasse completamente as muitas dúvidas que nos assolam, mas fiquei satisfeito. Gostei da rotação feita, e que a equipa escolhida tivesse mostrado capacidade mais do que suficiente para dar conta do recado. O que é mais uma prova que não precisamos de estar constantemente agarrados aos mesmos jogadores, sobretudo quando estes aparentam contribuir para alguns dos problemas que nos afectam. Esperemos agora que consigamos ir a Glasgow resolver a eliminatória, conforme é nossa obrigação.

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publicado por D'Arcy às 10:47
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Sexta-feira, 8 de Março de 2024

Reflexo

Um resultado que não espelha aquilo que se passou dentro do campo, mas que acaba por ser o reflexo da nossa ineficiência na defesa e ineficácia no ataque.

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Houve alterações no onze, que surpreendentemente não teve o João Mário e teve apenas uma adaptação: o Aursnes na lateral esquerda. Uma raridade esta época. O Florentino regressou ao meio campo, o Neres e o Cabral ao ataque. Achei que tivemos uma das melhores entradas em jogo dos últimos tempos, mas literalmente na primeira vez que o Rangers foi à frente, marcou, o que acabou por marcar muito o jogo. Nem foi muito diferente daquilo que seria um jogo habitual da nossa liga entre o Benfica e uma equipa pequena. O Rangers tentou quebrar o ritmo de jogo e encostou-se atrás, fazendo uma linha de cinco com outra de quatro muito junta, deixando apenas um homem na frente. O Benfica foi o habitual: muita bola, muito passe de um lado para o outro, e uma cerimónia exasperante na hora de finalizar aliada a alguma dose de infelicidade, foram mantendo o resultado até perto do intervalo. Até que mesmo a fechar, beneficiámos de um penálti, que permitiu ao Di María anular alguma da injustiça no resultado e empatar o jogo. Só que conseguimos no período de compensação que se seguiu voltar a defender como uma equipa amadora, e com muita passividade permitir novo golo do Rangers. Creio que a bola cruzada a partir da nossa direita, rasteira, terá passado por uns cinco jogadores nossos sem que ninguém a tenha atacado, permitindo a entrada de um adversário à vontade na zona do segundo poste. Pareceu-me que havia um jogador na zona do primeiro poste em posição irregular que até tenta jogar a bola, mas o árbitro não se chamava Veríssimo e nós (felizmente) não jogamos no Lumiar e portanto o golo foi mesmo validado. A segunda parte foi de ainda mais domínio territorial por parte do Benfica, e de ainda mais exaspero pela má decisão e finalização no ataque. Conseguimos o empate num autogolo, após livre do Di María, mas é extremamente enervante ver a falta de confiança para arriscar a finalização, havendo sempre mais um toque ou um passe que acabam por fazer a jogada perder-se. As alterações feitas (apenas três) não mudaram quase nada: a troca do Cabral pelo Marcos Leonardo revelou-se inconsequente, e nos minutos finais refrescámos a ala esquerda com as entradas do Carreras e do Tiago Gouveia, mas continuámos quase sempre a insistir muito pelo outro lado. Rematámos muito, mas rematámos mal, quase sempre para fora da baliza. E tivemos diversas situações em que os nossos jogadores surgiram em boa posição na área - em que conseguimos ganhar a linha e fazer o passe atrasado para a entrada de um jogador vindo de trás, e incrivelmente não conseguimos concretizar nenhuma dessas situações, ou por má finalização, ou porque os jogadores não tiveram confiança para tentar finalizar de primeira e deram sempre um toque a mais. Por comparação, o Rangers teve apenas uma situação dessas e marcou.

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Já começa a ser um pouco repetitivo destacar o João Neves no final dos nossos jogos, mas o que é que posso fazer? Até acho que ele próprio teve alguns exageros, arriscando demasiado em iniciativas individuais, mas percebo que a frustração em certos momentos o leve a essa opção. O Di María está ligado aos dois golos, mas perdi a conta às perdas de bola que teve (julgo que deve ter batido um recorde qualquer), fruto de péssimas decisões. Também me levou quase ao desespero com a quantidade de pontapés de canto mal marcados, sobretudo quando teima em tentar marcá-los directos. Gostei sinceramente da dinâmica do nosso meio campo com o Florentino e o João Neves (sei que sou sempre suspeito quando escrevo isto), para mim bem melhor do que qualquer coisa que eu tenha visto recentemente com o Kökçu ou o João Mário a fazer dupla com o indispensável João Neves. O Aursnes para mim começa a acumular bastante cansaço e se calhar alguma saturação das constantes mudanças de posição, e hoje gostei muito pouco do que lhe vi na lateral esquerda.

 

Em termos de entrega tenho pouco a apontar à equipa hoje. Acho que o resultado é injusto, mas é normal que se pague caro pelos erros crassos cometidos. Dizer que estivemos melhor do que nos últimos jogos é pouco útil, porque o mais difícil seria continuar no registo anterior. Acredito que temos valor para ir a Glasgow ganhar esta eliminatória, mas é preciso recuperar animicamente esta equipa. A falta de confiança é visível e os jogadores parecem duvidar muito de si próprios. Gostava era que pelo menos o facto de não termos conseguido vencer este jogo não significasse termos que levar com nova revolução no onze já no domingo (e estou a pensar em particular na manutenção do Florentino a titular) e que tentássemos estabilizar minimamente a equipa titular.

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publicado por D'Arcy às 02:41
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Segunda-feira, 4 de Março de 2024

Desastrosa

Que vergonha, Herr Schmidt. Parabéns por ter conseguido igualar o JJ neste aspecto, e deixar o seu nome directamente ligado a uma mancha tão negra na história desportiva do Benfica. Uma exibição completamente desastrosa, com a agravante que no caso do JJ enfrentámos uma equipa altamente motivada numa das suas melhores épocas da história, enquanto que hoje defrontámos um Porto absolutamente banal, que consegue perder ou empatar com equipas pequenas e estava nove pontos atrás de nós. Não é vergonha do Benfica, porque só me orgulha ser benfiquista, é vergonha na forma como as pessoas não souberam estar à altura dos nossos ideais.

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A época passada vim ao Dragão com uma confiança quase absoluta de que conseguiríamos ganhar o jogo. Esta época regressei com a convicção de que só um milagre nos impediria de perder este jogo. Vim na mesma, porque eu vou ver jogos para ver a minha equipa, não apenas para nos ver ganhar, e se fosse possível e necessário amanhã estaria aqui no Porto outra vez. Mas depois de saber a constituição da equipa, e como tantas vezes tem acontecido esta época, levei mais um forte golpe na minha já escassa confiança e não só passei a achar que não aconteceria qualquer milagre, como também que o que acabou por acontecer era uma possibilidade forte. Não há muito para dizer sobre o jogo da nossa parte, porque fomos uma nulidade completa. Uma única ocasião de perigo, em que o Tengstedt fez aquilo que normalmente faz: aparece em frente à baliza e foge dela, para depois finalizar de ângulo mais difícil (para fora). Aguentámos vinte minutos num jogo em que o Porto fazia o que queria pelas alas, sobretudo na esquerda, onde o Morato, de forma absolutamente expectável para o mundo inteiro menos uma pessoa, era incapaz de parar o Conceição no 1x1, quanto mais quando levava com mais jogadores a surgirem-lhe por ali sem serem devidamente acompanhados. O primeiro golo surge num pontapé de canto, com a bola a ser desviada no meio (e logo pelo Morato, quem mais) para o segundo poste, onde o Galeno estava completamente sozinho para marcar.  Lá conseguimos fazer um par de remates, um do Rafa e outro do Di María, um defendido (se não estiver enganado, foi o único remate que o Benfica fez à baliza em todo o jogo) e o outro para fora. Para fechar da melhor forma a primeira parte, sofremos o segundo golo, em mais um dos muitos cruzamentos vindos da esquerda e com uma demonstração de falta de intensidade e permissividade defensiva, com os jogadores do Porto a ganharem as duas bolas divididas dentro da nossa área para o Galeno voltar a marcar - muito mal o António Silva, demasiado macio na abordagem à segunda bola. Não tive quaisquer dúvidas que o jogo estava acabado ali mesmo.

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Ao intervalo, Florentino e Carreras nos lugares do Kökçu e do Morato, nada de novo e o Porto a chegar ao terceiro golo aos dez minutos praticamente no primeiro remate que fez, com a bola rematada pelo Wendell (que veio completamente desacompanhado da nossa direita até à entrada da área) a desviar em alguém para bater o Trubin. Trocámos de imediato de ponta de lança, lançando o Cabral, e também o Neres para o lugar do Di María. Depois o nosso capitão, provavelmente a querer dar sequência à brilhante exibição de quinta-feira em Alvalade, onde foi um dos principais responsáveis pela derrota, voltou a fazer asneira, viu dois amarelos no espaço de dez minutos e foi para a rua. Não é que estivéssemos a jogar alguma coisa até esse momento (acho que não fizemos um único remate na segunda parte) mas sabendo que obrigatoriamente estaríamos completamente remetidos ao contra-ataque, consegui irritar-me ainda mais com a opção de retirar o Rafa para colocar outro central, o Tomás Araújo. No fundo, foi um convite ao Porto para subir ainda mais as suas linhas e não ter que se preocupar com algum espaço que pudesse deixar atrás, já que o Cabral encostou-se aos centrais e foi sempre presa muito fácil. A desculpa de poupar o Rafa num jogo que já estava perdido também não pega. Se não o poupámos antes em jogos contra equipas mais fracas que já estavam mais do que ganhos e ele continuou a fazer os noventa minutos ou quase em todos eles, não sei porque o faríamos agora. A goleada era agora quase uma certeza, era apenas uma questão de saber quantos golos o Porto conseguiria marcar frente a uma equipa que parecia ter aceite o seu destino, em inferioridade numérica e encostada atrás. Sobretudo quando era mais do que visível a forma como a nossa esquerda continuava a ser uma via aberta - para além do Conceição, o Pepê vinha sempre do meio para aquele lado, e surpreendentemente o supersónico João Mário não revelava ser grande ajuda defensiva. Portanto foram mais dois golos surgidos por ali, o primeiro pelo Pepê, que simplesmente fugiu por ali e com o Trubin pela frente colocou-lhe a bola no poste mais próximo (péssimo acompanhamento defensivo do Carreras, e Trubin mal batido), e o último pelo Namaso, aproveitando um centro vindo daquele lado (completa falta de agressividade da nossa defesa, incapaz de afastar a bola das imediações da nossa área por um largo período de tempo, e depois o Tomás Araújo ou o Aursnes nem sequer atacam a bola, com o avançado a surgir à vontade no espaço entre eles).

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E porque é que menciono directamente o treinador na abertura deste post? Porque acho que é preciso um talento muito peculiar ou uma teimosia inabalável, a ultrapassar a linha da casmurrice, para conseguir extrair tão pouco do plantel que lhe colocaram à disposição. Perante um dos Portos mais banais de que me recordo nos últimos anos conseguimos jogar pior do que uma qualquer equipa que lute pela manutenção e ser goleados. Estamos em Março. Nesta altura ainda não temos um onze base definido. Mudamos de jogo para jogo, quanto mais não seja para baralhar e voltar a dar, redistribuindo os jogadores por diferentes posições ou funções. Continuamos, de forma absurda, a jogar com adaptações, forçando jogadores a jogar fora das suas posições naturais em detrimento das opções naturais para as posições. Ristic, Juràsek, Bernat, Carreras, nenhum deles serviu ou serve para a posição de lateral esquerdo, e em vez disso continuamos a ter que levar com a aberração Morato, ou o Aursnes. Na direita, ainda bem que não gastámos dinheiro em mais um lateral neste mercado porque certamente não jogaria também. O Bah regressou da lesão, estava a subir de rendimento à medida que somava os necessários minutos, voltou para o banco para metermos um médio centro na sua posição. Temos dois médios que podem desempenhar as funções mais defensivas no plantel. Um anda ocupado a jogar a defesa direito, esquerdo, ou médio ala. O outro foi uma peça importante a época passada, mas este ano para jogar ali levamos sistematicamente com um número dez que custou 30 milhões ou ultimamente com o João Mário, que não tem a intensidade física necessária para essa posição, sobretudo em jogos mais exigentes. João Mário que também serve para jogar na direita. Ou na esquerda. Ou atrás do avançado. Tal como o Aursnes ou o Kökçu. Já os inúmeros alas que temos no plantel, são quase sempre segundas opções ou nem isso para o lado esquerdo. Até gastámos um pouco mais para trazer um ala já em Janeiro. Não joga, há sempre um médio centro que pode fazer a posição. Gastámos vinte milhões num ponta-de-lança, depois mais dezoito noutro. Não jogam também, e quando um até começava a dar sinais de alguma utilidade e a marcar golos com alguma regularidade, foi recambiado para o banco. Repito: estamos em Março, e parece que ainda andamos a fazer experiências típicas de uma pré-época. Eu já nem peço muito ao nosso treinador, simplesmente que estabeleça um onze base que consiga criar rotinas de jogo e que coloque os jogadores a jogar nas suas posições. Acho que não é estar a pedir demasiado.

 

Depois de uma derrota destas espero que haja alguém com o mínimo de noção para dar um murro na mesa, porque este pode ser um momento absolutamente fulcral nesta época. A capacidade ou não da equipa para reagir a isto determinará o resto da época. E espero também que haja um mínimo de noção para perceber que este resultado não veio do nada, muita gente previa esta possibilidade quando chegássemos a estes jogos. Houve razões para que isto acontecesse, e essas razões têm sido cada vez mais óbvias a cada jogo que passa. Acho que todos tínhamos pelo menos algum receio de que isto poderia acontecer contra uma equipa que jogasse com a intensidade suficiente e a esperteza para explorar as lacunas e fraquezas que a nossa equipa persiste em demonstrar desde o início da época. Temos andado a tentar a sorte constantemente e desta vez acabou por correr mesmo muito mal.

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Sexta-feira, 1 de Março de 2024

Inócua

Depois de três quartos do jogo a ver jogar e a actuar de forma perfeitamente inócua, uma reacção na fase final do jogo permitiu-nos ir para a segunda mão das meias-finais da taça com a eliminatória em aberto. O pouco que jogámos deu para reduzir a derrota à margem mínima e não deu para mais do que isso porque arranjaram forma de nos sonegar um golo.

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Jogámos com o mesmo onze que tinha goleado o Portimonense. Depois do resultado é fácil começar por aqui para justificar a derrota, mas eu não vou por esse caminho. Nem acho que a estratégia escolhida fosse errada, o que eu acho é que foi mal implementada. De que serve apresentar uma frente de ataque móvel e rápida se depois não jogamos de forma a explorar essas características? O espaço estava lá, esteve sempre durante os noventa minutos, mas durante quase todo o tempo o Benfica não o conseguiu explorar. As transições não existiram e em vez disso optámos por um jogo sem risco, em que segurávamos a posse de bola e a tínhamos quase sempre que fazer passar pelos pés do João Mário, cheio de passes lateralizados e sem progressão. Ninguém arriscava um passe a explorar o espaço (e ao fim de algum tempo os jogadores da frente deixaram de correr à espera de algum passe que nunca surgiu). O resultado disso foi que apesar da posse de bola ser muito repartida ao intervalo, eu não contei um único remate da nossa parte, ou sequer uma aproximação à baliza adversária com o mínimo de perigo. Foi uma primeira parte literalmente deitada fora. A diferença para o Sporting era óbvia. Eu há muito tempo que considero o Sporting do Amorim uma equipa de processos bastante simples e eficazes. Fazer chegar a bola a zonas de finalização da forma mais rápida e menos complicada possível é uma das chaves. Com o Gyokeres, se for preciso ficam a trocar a bola no seu meio campo até conseguirem uma aberta para colocar a bola no espaço que o sueco vai atacar, e com isso esticam imediatamente o jogo (é semelhante ao que o Benfica fazia no tempo do Lage, com o Seferovic como ponta de lança). Tivemos portanto uma primeira parte entre uma equipa de futebol vertical, e outra de futebol lateral. Depois não ajudou que quase na primeira vez que o Sporting chegou à frente com perigo (só não digo que foi a primeira porque instantes antes um dos artistas da batota que eles têm, o Pedro Gonçalves, já tinha tentado sacar um penálti), aos nove minutos, chegou também ao golo. Incompreensível como deixamos que façam superioridade numérica sobre o Bah na zona do poste direito, e o Pedro Gonçalves cabeceou o cruzamento vindo do outro lado para fazer a bola entrar após embater no poste. Foi uma primeira parte completamente perdida da nossa parte, e o segundo golo do Sporting esteve sempre mais perto de acontecer do que um golo nosso.

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Se esperava alguma mudança na segunda parte, o que não esperava era que ela fosse a entrada do Morato. Pouco mudou em relação ao que tínhamos visto na primeira parte, mas logo nos minutos iniciais vimos o outro artista da batota em campo, o Edwards, a tentar sacar mais um penálti. O Fábio Veríssimo, apesar da simulação grosseiríssima por parte do inglês, solícito apontou imediatamente para a marca de penálti. Valeu que o Gyokeres estava em posição irregular no início do lance. Se o jogo continuava como na primeira parte, continuava portanto também muito mais provável um segundo golo do Sporting do que uma reacção nossa, o que voltou a acontecer aos nove minutos. E aconteceu num lance com a chancela do nosso capitão Otamendi. Se o António Silva fez durante praticamente todo o jogo uma marcação quase exemplar ao jogador mais perigoso do Sporting, o Otamendi com a sua mania de tentar antecipar-se e entrar à queima aos lances acumulou erros. Este foi mais um, e deixado sozinho ainda que descaído sobre a nossa esquerda o sueco fez aquilo que sabe, veio para o meio e marcou, com a bola mais uma vez a bater no ferro antes de entrar. Tornava-se agora imperativo marcar um golo, e com uma hora de jogo trocámos o Neres pelo Tengstedt, o que deslocou o Di María mais para a esquerda para actuar como extremo puro. Foi do pé esquerdo dele que, aos sessenta e oito minutos, saiu o cruzamento que permitiu ao Aursnes finalizar para golo, num lance em que surgimos em superioridade numérica na área. E este golo foi suficiente para fazer a confiança do Sporting abanar, e a nossa equipa descobrir que se calhar tentar jogar futebol em vez de simplesmente guardar a bola era capaz de dar mais resultado. A partir do golo o Benfica passou a estar mais por cima do jogo, com o Sporting a responder sobretudo através das bolas longas para o ataque ao espaço por parte do Gyokeres. Quatro minutos depois do primeiro golo, nova jogada pela esquerda, desta vez entre o Di María e o Kökçu, acabou com um remate de trivela do Di María para o golo, após passe do turco. Ninguém do Sporting sequer protestou, muito menos o guarda-redes, porque não havia nada para protestar. Mas o artista Fábio Melo na cabine do VAR encontrou uma desculpa para nos anular o golo, descortinando um fora de jogo posicional do Tengstedt, com a anulação a ser festejada ainda mais ruidosamente pelo povo da casa do que qualquer um dos golos - acho que deviam ter a noção do que seria o final do jogo se o golo tivesse sido validado. Apesar de termos estado por cima até final, com o jogo, ao contrário do que tinha acontecido até então, a ser quase sempre disputado no meio campo do Sporting, não conseguimos encontrar arte ou inspiração para voltar a marcar e nem conseguimos criar jogadas de grande perigo. Mas as coisas até poderiam ter acabado bem piores para nós mesmo no final, não fosse o Paulinho estar fora de jogo na marcação de um livre que resultou num grande golo do Nuno Santos, num remate de primeira de fora da área sem deixar a bola cair.

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O nosso melhor em campo foi para mim o António Silva. Já no jogo anterior tinha mostrado ser perfeitamente capaz de lidar com o Gyokeres, ganhando-lhe a grande maioria dos duelos individuais e conseguindo impedir que ele rematasse ou arrancasse em direcção da baliza. Mas tal como no jogo anterior, o sueco fugiu para a zona do Otamendi e encontrou aí o ouro. O número de desarmes, intercepções e remates bloqueados (uma boa parte deles precisamente ao Gyokeres) foram uma demonstração do seu valor. Para além dele, o Aursnes, na sua habitual missão de sacrifício a jogar onde calhar, também fez um bom jogo, sobretudo quando passou para a direita. Marcou um golo que pode vir a ser importante. Muito trabalho por parte do João Neves, e se é para termos obrigatoriamente o João Mário na equipa, consegue ser bem mais útil no meio do que na esquerda.

 

Não podemos deitar fora uma parte inteira e mais metade de outra sem jogar e esperar resultados de jogos destes. Não consegui perceber a atitude expectante do Benfica, com medo de arriscar, como se ganhássemos alguma coisa em guardar a bola longe de zonas decisivas. Mérito apenas como depois de tanto tempo tão mal, ainda fomos capazes de arranjar capacidade para ir buscar alguma coisa ao jogo e trazer a decisão da eliminatória para nossa casa. Mas num jogo para o campeonato não há segunda mão, e mais uma exibição nestes moldes pode deitar tudo a perder.

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publicado por D'Arcy às 02:55
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