VAMOS ACABAR COM AS IMBECILIDADES
Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008

Anacronismo

[Prefácio: este post já está pensado há algum tempo e foi escrito na sua quase totalidade na semana passada. Apesar da muito saborosa vitória frente ao V. Guimarães, até porque foi conseguida frente a 14, acho que permanece actual.]

 

É uma questão em que tenho vindo a pensar desde há uns tempos para cá. Será o Sport Lisboa e Benfica anacrónico? Serão os seus adeptos anacrónicos? Estaremos todos desfasados da realidade? Os tempos estão longe de estar fáceis e, se é verdade que as coisas já estiveram BEM piores (basta recuar uma meia-dúzia de anos), parece que se chegou agora a uma espiral de acontecimentos ou acções que, tendo o objectivo louvável de nos fazer regressar a tempos gloriosos, nos estão ao invés a conduzir a um abismo difícil de sair.

 

Estejamos conscientes do seguinte: ganhar quatro campeonatos em 20 anos não é normal no nosso clube, sendo que em 13 deles (para não dizer já 14) apenas vencemos um. Seis presidentes, quinze treinadores (alguns deles repetentes) e centenas de jogadores depois encontramo-nos no mesmo ponto de há 20 anos atrás. Ganhar títulos, o que nos estava na massa do sangue, passou a ser excepção em vez de ser regra. Alguma coisa certamente falhou ou tem falhado, mas caramba em 20 anos ainda não se percebeu o que é?! Parámos no tempo? Continuamos a viver do antigamente? Não nos conseguimos adaptar aos tempos do futebol moderno? Continuamos com o mesmo discurso “este ano é que é” a fazer lembrar os nossos vizinhos do outro lado da rua. E o que é certo é que apenas temos mais dois campeonatos ganhos do que eles neste período todo. Será culpa dos presidentes, dos treinadores, dos jogadores, dos adeptos? Provavelmente, cada um destes elementos diz (ou pensa) que a culpa é dos outros. É claro que durante estes 20 anos houve um “pormenor” chamado Apito Dourado, mas o problema não está só aí.

 

Daí o título deste post. O ser anacrónico está longe de constituir um defeito para mim, se colocarmos a ênfase ao contrário. Segundo o dicionário, anacrónico é o “que não está de acordo com a época.” Ora, a época é que não está de acordo com o (que sempre foi o) Benfica. Se ganhávamos antes e hoje não, a solução é muito simples: temos que trazer o antigamente até aos nossos dias. Temos que voltar às raízes e perceber o que nos fez ser grandes (e não falo do título recente de “maior clube do mundo”). Os tempos mudaram, mas o Benfica não soube mudar com eles. E porquê? Para mim, a razão é que não respeitou, não se inspirou e não tirou lições da sua história gloriosa. Não me querem convencer que entre 1904 e os anos 80 (quando começou o nosso declínio), o tempo e a história foram imutáveis, pois não? E nesse período nós soubemos mantermos à tona de água, algo que daí para cá claramente não sucedeu. O Benfica sempre foi o clube do povo, respeitador do adversário, cumpridor com as suas obrigações, grande nas vitórias, mas também nas derrotas. O clube em que se um jogador atira a camisola ao chão, não importa ser o mais valioso ou o capitão, é despedido com justa causa e nunca mais veste a gloriosa camisola. O clube que não perdoa a quem o trai e “cospe no prato em que comeu”. O clube cuja camisola tem que ter significado para quem a veste, não é apenas “mais uma”, é uma camisola com história, tradição que já foi envergada por muitos e famosos jogadores e que, portanto, tem peso. O clube cuja mística sempre foi passada aos novos jogadores, porque havia vários guardiões dela no balneário.

 

E o que tem sucedido nos últimos 20 anos? O oposto disto tudo. Só muito recentemente voltámos a ter um conjunto de jogadores que forma uma “espinha dorsal” com pelo menos quatro anos de clube (mesmo assim são só três: Luisão, Petit e Nuno Gomes). No entanto, a quantidade de jogadores que entra e sai (alguns deles cuja “qualidade” nos irá fazer dar voltas nos nossos túmulos) é vergonhosa. Qualquer um veste hoje a nossa camisola. Os contratos com treinadores deixaram de ser respeitados. Há quantos anos não temos um treinador com, pelo menos, duas épocas inteiras seguidas? Há treinadores que nos desrespeitam, fazem chantagem e batem com a porta, e nós vamos tentar buscá-los dois anos depois. Não nos fazemos respeitar nos órgãos próprios e a nossa voz não é ouvida quando somos prejudicados. Aliás, nos últimos tempos nem sequer temos essa “voz”. Não vou continuar, porque os exemplos são infindáveis.

 

Eu quero um Benfica que regresse à grandeza de antigamente e à forma como nessa altura se faziam as coisas. Que não utilize os jogadores e treinadores como junk-food, que serve para matar a fome, mas no fundo faz mal. Eu quero um Benfica que não dispense um João Pereira para ir buscar um Luís Filipe ano e meio depois. Eu quero um Benfica que se lembre que há não muito tempo teve um Harkness, um Escalona, um Pesaresi e um Cristiano antes de pensar em não renovar com um Léo. Eu quero um Benfica que perceba que os ordenados de um Butt e um Zoro eram mais úteis se servissem para aumentar um Simão. Eu quero um Benfica que não contrate jogadores e seis meses depois os mande embora. Eu quero um Benfica que planeie as coisas a tempo e horas e não ande ao saber das marés dos resultados, contestações, imprensa hostil, empresários, etc. Eu quero um Benfica que saiba que para se construir uma grande equipa é preciso tempo, que não nos prometa todos os anos que “este é que é” ao mesmo tempo que contrata uma dúzia de novos jogadores. Eu quero um Benfica sólido que esteja imune às turbulências naturais que os nossos adversários nos tentam provocar. E esse Benfica foi o Benfica que desde sempre existiu, foi o Benfica que os nossos antepassados construíram e que tem vindo a ser destruído de há 20 anos para cá.

 

Com quem ou quando não sei, mas é urgente que “este” Benfica volte o mais rapidamente possível. Sob pena de entrarmos num marasmo e numa espiral negativa impossível de sair.

publicado por S.L.B. às 04:25
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36 comentários:
De Anónimo a 30 de Janeiro de 2008
Post fundamental. O Benfica vive há demasiado tempo um processo contínuo de perda de identidade. O que é essencial foi substituído pelo folclore. Esta Direcção e este Presidente, sem esquecer o que de bom têm feito, muito têm contribuído para esta degradação fundamental. O Presidente do SLB nunca demonstrou conhecer verdadeiramente qual a essência do nosso grande clube. O Benfica precisa de um choque urgente e radical ao mais alto nível, mesmo que isso possa, à primeira vista, acarretar alguns riscos. A comparação do Benfica de hoje com o Benfica de há 5/6 anos é muito perigosa. Perigosa principalmente por nos conduzir a um conformismo fatal. Como já por diversas vezes foi referido neste forum, hoje aceitamos e chegamos ao ponto de bater palmas a coisas que há não muito tempo considerávamos inaceitáveis. A manutenção da situação por mais alguns anos, mesmo que poucos, acabará por conduzir a uma perda, porventura irreversível, de alguns factores que fazem com que o Benfica seja ainda hoje, e apesar de tudo, indiscutivelmente o maior clube nacional.
De jose a 30 de Janeiro de 2008
Tudo o que escreveu está correcto, e não vejo que vá mudar tão cedo com esta direcção que tem feito coisas muito boas (e outras más) e que eu continuarei a apoiar, (a não ser que apareça outra que me mereça mais confiança). O que eu sei é que a política para o futebol tem sido má, mas em compensação não se tem entrado em grandes desvarios económicos o que é bom se nos lembrarmos do passado.
Já agora uma meia correcção : jogadores com 4 anos de clube são pelo menos o Quim , Luisão , Petit , Nuno Assis, Nuno Gomes, Mantorras (embora alguns não joguem com muita regularidade).
De ramalhofnm a 30 de Janeiro de 2008
Parabéns! Excelente POST!
De norte vermelho a 30 de Janeiro de 2008
isto sim sao problemas de fundo e importantes de rsolver e mudar o que á para mudar
tenho pouco a dizer esta quase tudo ai ou tudo ate.

mao pesada em todos os brincalhoes que utilizam o nome do clube para brincar
acabar com as novelas de renovaçao e transferencias
menos paleio na comunicaçao social e repostas com raça dentro de campo

se um jogador tivesse leis principais para cumprir o benfica decerteza tinha outro comportamento e resultados uma das leis basicas é correr sempre mais ke o adversario e lutar mais dificilmente se perde assim outra é só abrandar quando esta 2 a zero pelo menos
De slbcarlitos a 30 de Janeiro de 2008
Sem tirar nem pôr. Partilho inteiramente das tuas ideias.
Abraço
De Glorioso11385 a 30 de Janeiro de 2008
Revejo-me no penúltimo parágrafo: também quero esse Benfica de volta. Mas o fenómeno da corrupção e do tráfico de influências que levou outro clube ao caminho do sucesso não deve ser ignorado. Tem sido decisivo nas últimas duas décadas.
De algarviu a 30 de Janeiro de 2008
Assino por baixo. A lucidez que tem faltado na condução do Glorioso falta muitas vezes nos posts e nos comentários. Não é o caso. Que esta lucidez contagie.
De Johnny Rook a 30 de Janeiro de 2008
Concordo plenamente contigo. Aliás, há muito que venho dizendo exactamente isso.

O Benfica tem de parar, escutar e olhar; tem de fazer um back to basics.

Para isto tem de apostar numa estratégia e em várias tácticas .
Uma delas passa por apostar na prata da casa. A sua base tem de sair da formação. Só assim a mística voltará.
Estou farto de procurar, mas não encontro, a constituição da equipa de juniores do Benfica de 1972 (ano em que demos 9 ou dez jogadores à Selecção do escalão e PTG foi campeão europeu da categoria)

Nessa equipa pontificavam Fidalgo (sim esse que depois se transformou em fdp, mas que era um excelente GR), Eurico (o pai de Bruno Caires, e um autêntico Humberto) , o enorme João Alves (o melhor médio ofensivo que eu vi jogar a par de Platini), Jordão (um dos melhores avançados do mundo que vi alguma vez jogar) e não me lembro se Nene era dessa equipa ou não. Mas dessa equipa sairam imediatamente 6 ou 7 jogadores para o plantel principal. Foi a melhor equipa de juniores de sempre de Portugal.

É isto que tem de voltar a acontecer. Se assim não for, nunca mais o futebol do clube voltará aos seus tempos aureos.
Até porque o AD não vai resultar em nada e eles já perceberam isso e o cenário seguinte é a vingança sobre o Benfica e LFV.
De dezazucr a 30 de Janeiro de 2008
A verdade é que nós adeptos já não mandamos nada. E pior que isso é que quem manda parece não ter lucidêz nenhuma na condução dos processos. Por vezes pergunto-me se tantos tiros nos pés serão propositados. É que são acções que nós adeptos, teoricamente leigos na matéria conseguimos ver e quem manda parece estar constantemente a atirar-nos areia para os olhos. Reparem que toda a gente sabe, e não é de hoje, é desde que a época começou, que precisamos de um extremo direito. No entanto, para nos calar contratam um avançado. Até podemos precisar de um avançado (não um com estas características, mas prontos...), no entanto não faría mais sentido atacar o prioritário e o óbvio, ao invés de andar a fazer disparates?
Eu não me incomodo muito com as chantagens (dado que compreendo que essa chantagem não é connosco, mas sim com quem de direito) que o treinador faz, até porque concordo com elas, a equipa não é fraca, mas tem alguns sectores debilitados e deficitários que urge preencher com qualidade. Eu não me chateio se o treinador exigir qualidade. Até porque se vê que, se mesmo exigindo se tomam as opções que se tomam -no que toca a contratações, que será se não se exigir. A exigência nunca fez mal e, aliás, uma das razões porque nos últimos 20 anos não ganhámos nada, teve a ver com essa falta de exigência, entre outras razões. Sempre tivemos bons jogadores, mas normalmente o rácio em relação aos jogadores da treta era de 2/9, tirando os últimos anos em que pareciamos evoluir para bom porto.
Outro problema prende-se com a facilidade com que os adeptos vão nas cantigas dos jornais que mais não fazem que incendiar os mesmos contra factores que por vezes não são o que parecem ou são por demais empolados, em oposição a outros que sim (e falo é claro das arbitragens vergonhosas que temos tido, com um descaramento descomunal, jogo após jogo sem excepção) deveríão ser preocupação dos ditos jornalistas.
De qualquer falta espírito de sofrimento à equipa e aos jogadores do Benfica, bem como a quem os comanda. Se tal houvesse contagiaría tudo o resto que os rodeia, adeptos e comunição social destacados.
De Velho Estilo a 30 de Janeiro de 2008
Excelente post.

Penso exactamente da mesma maneira em tudo.

Devemos voltar a ser um clube POPULAR e não POPULISTA...

O ex do Bayern Munchen devia servir para nós. Esteve alguns anos em crise mas recorrendo a uma estrutura com base em ex atletas e figuras da história do clube vence. Não todos os anos mas com uma periodicidade muito interessante.

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