VAMOS ACABAR COM AS IMBECILIDADES
Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Vergonha na cara (ou lá o que é aquilo)

Vem isto a propósito do último pedaço de esterco disfarçado de crónica saído da pena do MST (já uma lenda no mundo da ginástica artística e uma inspiração para todos os monges copistas) na edição de ontem d’A Bola.

 
O Centro de Estágio utilizado pelo clube do Guarda Abel foi construído pela Câmara Municipal de V.N. de Gaia, que arcou na sua totalidade com os custos de € 16 milhões e cedeu os direitos de superfície ao referido clube por 50 anos.
 
O clube do Carlos Calheiros paga uma renda mensal de € 500 (leram bem, 500) pela utilização exclusiva da infra-estrutura.
 
Se os meninos de coro do Fruta Clube do Porto um dia decidirem que não lhes apetece mais treinar ali, arrumam a trouxa e vão brincar para outro lado, sem qualquer compensação para o município, que ficará com um mamarracho muito interessante para alugar para casamentos e baptizados, o que é capaz de ser ‘desastroso do ponto de vista dos recursos públicos’, conforme admitido pela Câmara num documento oficial.
 
As irregularidades e ilegalidades do processo são mais que os jogadores emprestados pelo clube do Jorge Sousa, do Paulo Costa e do Olarápio Benquerença a outros clubes da I Liga.
Há acusações de gestão danosa, há investigações do Tribunal de Contas e da Inspecção-Geral de Finanças e relatórios com conclusões muito interessantes sobre a forma como todo o processo foi gerido.
 
Entre outras preciosidades de carácter quase humorístico (não fora o facto de meter o nosso dinheiro ao barulho), saliente-se que o avaliador dos terrenos associado ao processo não tinha estatuto para fazer as avaliações, o que resulta em responsabilidade criminal; o interesse público no âmbito do qual se efectuaram as expropriações urgentes para o projecto não tinha qualquer justificação legal; as fundações através das quais se canalizaram verbas para o projecto não tinham cabimento legal; a garantia do financiamento contraído pela Portogaia (uma das fundações) foram os próprios terrenos cedidos ao FCP, o que constituía outra ilegalidade; as obras foram adjudicadas sem qualquer tipo de concurso público (aliás, a CM Gaia, apesar de representada na referida fundação, terá prescindido da ‘capacidade de influenciar decisões importantes’); e o interesse público foi subordinado aos interesses do FCP – interesses particulares (percebe, caro ginasta?) - em todo o processo.
 
No relatório da IGF pode-se ler que ‘todos os riscos financeiros ficaram do lado público, especialmente o risco de expropriações, o risco de construção e o risco financeiro’. Mas os lucros da exploração do Centro de Estágio, se os houver, serão sempre para os cofres do clube do Martins dos Santos.
De acordo com a IGF, o processo configura, portanto, “um inequívoco apoio a um clube desportivo”. Por uma autarquia. Financiada pelas gentes de Gaia e pelos nossos impostos.
 
Estamos esclarecidos.
 
Quanto ao Benfica, que caminha de cabeça erguida, nunca pagou viagens a árbitros, não os recebe em casa e não tem dirigentes que tenham sido condenados por corrupção, construiu, do seu próprio bolso e sem qualquer tipo de ajudas nem ofertas de municípios amigos, um Centro de Estágio no Seixal após um acordo com a Euroárea, claro e benéfico para ambas as partes. Esse Centro de Estágio é pago com recurso às receitas do mecanismo de naming rights, à semelhança do que foi feito com as bancadas do Estádio. Tudo claro. Tudo limpo.
 
É preciso ter uma lata de proporções cósmicas – e ser, convenhamos, burro - para ser adepto de um clube a quem foi vergonhosamente oferecido um Centro de Estágio construído com dinheiros públicos nos termos em que descrevi e escrever uma ‘crónica’ encomendada sobre o Centro de Estágio do Seixal pejada de suspeitas imbecis e acusações de coisas como ‘concorrência desleal’ e ‘utilização de coisas públicas em benefício de interesses particulares’.
Ainda para mais quando, no âmbito da construção do estádio do Ladrão, foram dados ao clube do Augusto Duarte apoios directos e indirectos pelo Estado e pela CM Porto de € 226 milhões, conforme referido na auditoria do Tribunal de Contas, € 28,5 milhões de apoios ilegais pela CM Porto postos a descoberto pela Inspecção Geral das Finanças e € 25 milhões de apoios encapotados por parte da Metro do Porto (sim, dá um total de € 279,5 milhões).
 
Todos nós sabemos quem eram os Presidentes da CM Porto e da Metro do Porto à data destes brindes. E também sabemos quem era o Ministro da Administração Interna à data da viabilização (ferida de ilegalidade) das fundações para a construção do Centro.
 
Concorrência desleal? Utilização indevida de dinheiros públicos? É mais ou menos isso, sim. Pelo menos, caro MST, acerta nos termos.
Quem tem telhados de vidro não devia atirar pedras. A não ser, claro, que costume privar com os seus amigos da lagartagem para os lados da Academia de Alcochete e lhe apeteça receber convidados à pedrada.
 
Agora veja se ganha vergonha na cara. Já devia ter alguma, atendendo à fronha com que tem a coragem de sair de casa todos os dias.
 
 
Quando passeamos na rua e pisamos um pedaço de excremento de cão, temos duas opções: ou continuamos despreocupadamente e o excremento vai-se limpando, natural e inevitavelmente, pelo caminho trilhado ou paramos por um bocado para limpar o sapato num pedaço de relva ou com um pau antes de recomeçar a andar. Nesta ocasião específica, apeteceu-me esfregar o sapato num pedaço de relva antes de recomeçar a andar.
Adiante.
 
publicado por Carlos Miguel Silva (Gwaihir) às 16:44
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