VAMOS ACABAR COM AS IMBECILIDADES
Quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

A fome

 

"Já não se ganham jogos por 6 ou 7 a 0" – Fernando Santos, Novembro de 2006.

 
Corria o mês de Novembro de 2006 e o Glorioso, treinado pelo cinzento Fernando Santos, recebia em casa o FC Copenhaga para a Liga dos Campeões. Já havia feito um jogo à imagem da equipa técnica em Copenhaga (não preciso de dizer mais nada) e o desafio era demonstrar a evidente diferença de qualidade entre as equipas e ganhar confortavelmente em casa.
A equipa fez o essencial e marcou 3 golos na primeira parte. E depois, num exercício ofensivo de displicência, decidiu-se que não valia a pena jogar o resto do jogo.
O Benfica ganhou 3-1 e eu irritei-me como não me irritava há muito.
 
Na altura escrevi o seguinte:
 
“Irrita-me que, perante a constatação de tamanha superioridade (essencialmente por força da fragilidade do Copenhaga - que são basicamente uns cepos, sejamos honestos), a equipa faça o essencial e depois entre em modo de economia. Irrita-me a displicência, a sobranceria, a falta de ambição, o conformismo, a falta de chama. Irrita-me que falte ao Benfica o Benfica. Irrita-me que a equipa encare 45 minutos de jogo como um ‘frete’ que tem de sofrer, quando tem nas bancadas gente sôfrega de futebol.
É um sentimento desajustado, será um exagero da minha parte (livrem-se de responder, acho que já está mais ou menos assente que não faz sentido), face à vitória e ao resultado? Não, não é.
 
E não o é porque nenhuma das pessoas que normalmente carrega a equipa ao colo no Estádio da Luz (e só assim é que se explica que assumam o jogo em casa, e fora joguem como uma equipa de rapazinhos amedrontados e desorientados) pagou bilhete ou comprou cativo para ver metades de jogos. Apoiamos a equipa durante todos os jogos, muitos de nós sofrem sacrifícios (de natureza monetária, familiar, profissional ou de qualquer que seja) para lá estar, sofremos do primeiro ao último minuto, vivemos intensamente todo o jogo. O mínimo que esperamos, e a que temos direito, é que joguem durante todo o tempo regulamentar com a paixão, querer e vontade que se exige a quem enverga a camisola cor de sangue.
Não admito que, chegando a 3-0, de repente se tire o pé do acelerador e se ache que ‘bom, já chega. O trabalho está feito, agora é aturar o frete’.
É criminoso amordaçar a capacidade, o querer, a vontade e matar o espectáculo em nome de um conformismo bacoco, porque ‘já não se ganham jogos por 6 ou 7 a 0’, segundo diz o cinzento do nosso Engenheiro. Não seria objectivamente moralizador, não constituiria uma façanha ganhar, por exemplo, por 6-0? Não motivaria a equipa, não galvanizaria os adeptos, não faria furor na Europa, não seria motivo de orgulho, não elevaria ainda mais o nome do Glorioso, não catapultaria a equipa para outro nível de confiança?
A displicência e sobranceria com que enfrentaram toda a segunda parte resultou num golo sofrido absolutamente escusado e num final de partida perfeitamente evitável que nos podia ter saído caro. É o que acontece a quem, ao invés da audácia, abraça o conformismo.
Cada uma das pessoas que está nas bancadas pagou para ver a sua equipa a jogar futebol, para assistir a um espectáculo desportivo. E como se costuma dizer, o golo é a festa do futebol, é o culminar do esforço que as equipas fazem em campo. Não passaria pela cabeça de ninguém assistir a um jogo onde as equipas apenas mastigariam o tempo a passar bolas entre os jogadores, num bocejo interminável. Ontem, a equipa técnica e os jogadores decidiram que 37 minutos de espectáculo chegavam. Não o admito.
 
(…)
 
Reparem, tudo isto me irrita sobretudo porque acho que esta atitude está intimamente associada à explicação fundamental das derrotas e dos jogos menos conseguidos. Não me irritaria tanto se achasse que era apenas uma coisa isolada, um mero jogo encarado de forma menos séria ou profissional. Não. Isto irrita-me porque denuncia uma mentalidade, uma atitude que preside à forma como a equipa é gerida emocionalmente e que lhe retira a capacidade de ser temida e de ser temível. Se não temos killer instinct nestes jogos, se não os aproveitamos para afiar as garras, afinar as movimentações ofensivas, viciar a equipa em golos, jogar o futebol pelo futebol, então quando o faremos? É este retraimento, esta incapacidade de abraçar o destino na sua plenitude que acaba por diminuir psicologicamente a equipa e a torna incapaz de resistir às adversidades de jogar fora de casa. E isto, meus amigos, é trabalho que tem que ser feito pela equipa técnica. Blindar a equipa emocionalmente, dar-lhes espírito de luta, capacidade de resistência a adversidades inesperadas, instinto assassino. Isto atinge-se ganhando estes jogos de forma inapelável, sem contemplações, sem fazer prisioneiros. Se tivéssemos esse instinto assassino, se calhar teríamos ganho o jogo em Copenhaga (que provavelmente nos vai custar a passagem à próxima fase da Liga dos Campeões), teríamos ganho ao Celtic em Glasgow, teríamos goleado o Celtic na Luz e não teríamos perdido o jogo no Estádio do Porcalhão. E não me venham com a cantiga de que é normal a gestão do jogo, e que os jogadores naturalmente relaxaram a partir daí, e por aí fora. Cumpre exactamente à equipa técnica lutar contra isso e gerir a equipa do ponto de vista psicológico.”
 
Fast forward para Setembro de 2009.
 
O Glorioso recebe o Vitória de Setúbal na Luz. Joga que se farta, marca o primeiro e carrega. Marca o segundo e carrega. O Benfica marca o terceiro, o quarto, o quinto e carrega. Os jogadores têm fome de bola, pedem-na aos colegas, jogam para a frente, com garra e confiança. Cheiram sangue e correm atrás da presa. Querem mais. O Aimar dança elegantemente dentro de campo. A equipa dá espectáculo enquanto estraçalha o adversário. Olho à minha volta e os sorrisos que vejo estampados nas caras dos adeptos mostram que o Benfica voltou a casa.
 
Chega o intervalo e Jorge Jesus pede aos jogadores para jogarem como se estivesse 0-0. Quer mais golos, quer a mesma agressividade, irreverência, espectáculo. Não chega – nunca chega. Não é suficiente estar assegurada a vitória, não fará sentido gerir o jogo, não será melhor evitar esforços? Não, não e não! Jesus quer, como nós, mais. Aguce-se o killer instinct, afine-se a máquina, sirva-se espectáculo a quem o veio ver.
 
Os jogadores fazem-lhe(-nos) a vontade e continuam a jogar como se não houvesse amanhã. Sem medo, sem amarras, sem perdão. O Benfica marca o sexto, o sétimo, o oitavo e carrega. Os ataques sucedem-se. Falha-se mais meia dúzia de golos. O Ramires corre como um louco, o Saviola parece que tem 14 anos, o Di Maria está possuído, o Fábio Coentrão também. O estádio festeja, as bancadas pairam entre cada jogada. A chama arde. Aproximam-se os 90 minutos e Jorge Jesus vocifera, esbraceja, exige que os jogadores vão a todas as bolas como se fossem a primeira. Quer o nono golo. Ah, que se lixe, quer o décimo. Também nós.
Chega o fim do jogo e irrito-me profundamente (perguntem ao D’Arcy e ao Pedro F. Ferreira) com o assomo de laxismo que resulta no golo sofrido. Descubro, um pouco mais tarde, que o Jorge Jesus ficou tão irritado quanto eu. E percebo que temos o treinador que sempre quis.
 
A vitória, enquanto mero exercício matemático de adição de pontos numa competição, vale o que vale. São três pontos, como o seriam numa vitória por 1-0. Ah, mas o diálogo que teve lugar naquele relvado entre o Benfica e a sua alma vale mais – muito, muito mais.
Vale, acima de tudo, o reencontro do Benfica com a sua identidade. Com a sua matriz ideológica.
E eu, vendo no relvado materializar-se tudo aquilo que defendi e escrevi, emocionei-me - claro que me emocionei.
 
Vamos ganhar jogos e jogar maravilhosamente, vamos ganhar jogos e jogar mal, vamos inevitavelmente empatar ou perder jogos. Mas esta atitude, esta fome, esta filosofia como motor molda a equipa, formata-a para ser temida e para ser temível, evita-lhe o retraimento, exercita-lhe o instinto assassino, afia-lhe as garras, afina-lhe os movimentos ofensivos, dá-lhe estofo e prepara-a para tudo o que aí vem.
 
Fernando Santos era benfiquista no papel, mas faltava-lhe a águia na alma. Arrisco-me a dizer que Jorge Jesus, não tendo sido benfiquista de facto (até agora), sempre teve a águia na alma, mas não o sabia. E, nessa medida, é o treinador mais profundamente benfiquista (no que isso significa em irreverência, destemor, determinação e ousadia) que temos desde há muito.
 
Caro Fernando Santos, ganham-se jogos por tantos golos quantos quisermos, se formos audazes e soubermos abraçar o destino. Eu sempre o soube. O Jorge Jesus também.
publicado por Carlos Miguel Silva (Gwaihir) às 13:33
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59 comentários:
De Johnny Rook a 2 de Setembro de 2009 às 13:59
Bom...! Sem palavras.

Tens de editar os teus textos os quais devem ser traduzidos em tantas línguas quantas aquelas que se falam no plantel e tornar a sua leitura obrigatória para todo e qq jogador do Benfica (com exame final de aferição).

O Benfica foi, é e tem de ser sempre aquilo que tão bem traduzes nas tuas palavras.
De amcslb a 2 de Setembro de 2009 às 14:08
Fiquei também bastante irritado.

Tão irritado que nem bati as palmas no final do jogo!

:)
De ricardo84 a 2 de Setembro de 2009 às 14:15
Sem dúvida... Revejo-me completamente nas tuas palavras. Grande post. Parabéns!

http://espacovermelho.blogspot.com/
De LES a 2 de Setembro de 2009 às 14:17
Já à umas épocas que te dizia que este Jesus seria uma boa aposta para o Benfica, mas a malta sempre se entusiasmou com os Koeman e Flores da vida, quando do F. Santos cheguei a ouvir loas à capacidade do Carlos Brito.
Tanto no post da altura do F. Santos como na apreciação que fazes ao Jesus neste, apanhaste bem o espírito que distingue os treinadores que interessam ao Benfica mas também não se pode esquecer a qualidade dos planteis que estavam e estão à disposição de cada um e aí a qualidade máxima que tivemos foi a do Trapattoni que com uma equipa fraquita foi pragmático o suficiente para conseguir ser campeão nacional. Acredito que o Jorge Jesus vai ser campeão e vai começar um novo capítulo na história do Benfica que se poderá chamar Pós-idade das Trevas Desportivas do Benfica Moderno.
De S.L.B. a 2 de Setembro de 2009 às 14:19
Confesso que o nono golo me chateou também. Foi na baliza errada! E chateou-me ainda mais por ser um anti-clímax, a última jogada do jogo. É como se tivéssemos tido uma refeição fenomenal, mas o café fosse uma porcaria. Lembrei-me do penalty falhado pelo Bergessio nos 6-1 ao Boavista. A mesma sensação. Espero que não se repita.

Gloriosos jogadores do Sport Lisboa e Benfica, para a próxima já sabem: o nono golo é para ser na baliza do adversário! :-)
De playmaker a 2 de Setembro de 2009 às 14:20
Estou todo arrepiado...

Também eu fiquei irritado e escrevi um comentário noutro blog ao qual me responderam qualquer coisa como:
"...marcámos 8 golos e falam de 1 que sofremos"
E se estivéssemos a vencer só por um? Não aceito aquele tipo de erros!
De je a 2 de Setembro de 2009 às 14:25
Emocionei me a ler o seu post .
Concordo plenamente com tudo o que disse e continue a escrever apaixonadamente sobre a paixão que nos une, sim porque o Benfica e uma paixão...
Espero que seja este ano...
Abraço sincero
De Gonçalo Cardoso Dias a 2 de Setembro de 2009 às 14:33
Para mim ha uma pequena frase de todo este excelente post que resume tudo aquilo que tem sido escrito sobre este jogo:
"...o Benfica voltou a casa. "
De DeVante - Legio Aquilae a 2 de Setembro de 2009 às 14:41
Sublime, isto sim é um texto comeptente.
Já pensaram em compilar e publicar os posts? Seria uma boa iniciativa.
O Benfica começa a reencontrar com o seu passado glorioso.
Temos equipa, há muito que não tínhamos um "onze" tão qualificado e há que assumi-lo sem rodeios. Vejo onze jogadores, qualquer um (fora o guarda-redes) seria titular de qualquer equipa deste campeonato e isso meus senhores, é obra!!!
Quando voltar o Maxi, junto de Luisão, David Luiz (a central) e Shaffer, mais Javi, Ramires, Di Maria, Aimar, Saviola e Cardozo...deixa qualquer um sem palavras. E acham que chega? Não chega, temos ainda um gigante Coentrão e um enorme Amorim.
Temos equipa e somos os únicos que verdadeiramente jogam futebol e eles sabem disso. Quem quer espectáculo em Portugal vê os jogos do Benfica o resto todos sabemos e a assistência nas bancadas comprovam-no.
De T. a 2 de Setembro de 2009 às 14:42
Gwahir, desta vez até eu concordo contigo :D

Foi magnifico! E fiquei possuído, também eu, com o 9º golo do jogo.

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