As inúmeras ausências podem ajudar a explicar alguns erros e até mesmo falta de qualidade de jogo ou de entrosamento da equipa. Mas elas não explicam a falta de atitude e o regresso ao deplorável hábito de desligar assim que é alcançada a vantagem no marcador, como que convidando o adversário e empatar, para depois andar a correr atrás do prejuízo. Num todo, e no dia em que o Rei Eusébio faria anos, uma exibição absolutamente lamentável da nossa equipa que resultou na perda de dois pontos frente a um clube que espero que esteja na via rápida para o regresso à segunda liga.

Onze eram as ausências garantidas para este jogo - dez por culpa do vírus, mais o André Almeida. As ausências incluíam os dois principais guarda-redes, as três primeiras escolhas para a lateral direita, os dois laterais esquerdos e a dupla de centrais titular. Isto significou portanto alinhar com uma defesa completamente inventada, com o terceiro guarda-redes (Svilar), a quarta escolha para a lateral direita (João Ferreira) e o Cervi novamente a fazer de lateral esquerdo. No meio, a dupla Jardel/Ferro. Daí para a frente, havia quantidade e qualidade suficiente para vencer. Do outro lado, um clube que certamente sem qualquer outro tipo de interesses por trás recusou adiar este jogo, quando não tinha tido problemas em fazê-lo com o Vitória quando estes tiveram seis jogadores infectados. Uma espécie de abutres, que tentaram tirar partido da situação actual, como há mais uma série de outros clubes que estão na expectativa de poderem fazer o mesmo - mas que certamente quererão tratamento especial se a coisa lhes tocar a eles. Não contentes com esta atitude, a primeira coisa que o Nacional faz é escolher o campo ao contrário, que é mais ou menos como irmos a casa de alguém e sentarmo-nos no lugar do dono da casa com os pés em cima da mesa. Pode haver quem não ligue a estas coisas, mas eu acho que é sempre uma falta de respeito. O jogo até começou bem, com o Benfica a entrar por cima, a jogar sempre no meio campo adversário e à procura de um golo que chegou cedo - aos sete minutos o João Ferreira fugiu pela direita e fez um passe atrasado para o interior da área, onde surgiu o Chiquinho a rematar para o golo. Mas assim que vi a repetição percebi que seria anulado por alguns centímetros na posição do João Ferreira, o que veio mesmo a acontecer. Nada que desanimasse o Benfica, que continuou no mesmo registo até chegar novamente ao golo, mesmo antes de se completar o primeiro quarto de hora. Desta vez foi o Pizzi quem, numa iniciativa individual, ganhou posição pela direita e fez o cruzamento para a entrada de cabeça do Chiquinho ao segundo poste. Impossível de anular. E depois, inexplicavelmente, nada. Deixámos de jogar. A coisa não deu muito para o torto porque honestamente o Nacional é uma equipa absolutamente horrível. Mesmo com o Benfica a ver jogar, foram incapazes de criar uma única ocasião digna desse nome. Mas perante uma atitude tão macia e desleixada da nossa parte, que se começou logo a notar na forma como os jogadores do Nacional chegavam sistematicamente primeiro a cada bola ou ganhavam quase todas as bolas divididas, à qual se somou uma falta de qualidade inusitada - passes falhados em catadupa, jogadores incapazes de controlar uma bola - o Nacional foi ganhando maior confiança e subindo no terreno. O intervalo chegou connosco em vantagem, mas com a sensação de que se a inexplicável meia hora que passámos a ver e a deixar o adversário jogar se prolongasse para a segunda parte, estaríamos a pedir problemas.

Obviamente que foi exactamente isso que aconteceu. A entrada na segunda parte foi a continuação da primeira e ao fim de três minutos tivemos o resultado disso. O golo do empate, aliás, foi uma demonstração cabal do desleixo e passividade da actuação do Benfica. Num pontapé de canto, de uma forma absolutamente inacreditável deixámos que a bola fosse passada para um jogador adversário dentro da nossa área, que teve tempo para se voltar e, completamente à vontade, cruzar a bola para a pequena área. Aí, os nossos defesas, em especial o João Ferreira, ficaram impavidamente a ver um jogador adversário antecipar-se-lhes e cabecear para o golo. Uma ode à passividade. A partir daí foi o habitual nestas situações: correr atrás do prejuízo, cada vez com menos lucidez. Verdade seja dita que logo no minuto a seguir até poderíamos ter tido uma boa oportunidade para voltarmos à vantagem. Mas isso seria se não estivesse em vigor a regra de que é proibido assinalar penáltis a favor do Benfica. Não sei se será inédito, mas eu pelo menos não me recordo de alguma vez ver o Benfica fazer uma primeira volta inteira com zero penáltis assinalados a seu favor. Isto por si só nem seria muito bizarro, podia ser que os critérios de arbitragem em geral estivessem mais avessos a assinalar penáltis. Só que depois vemos outras equipas a bater recordes de penáltis assinalados a seu favor e ficamos confusos. O que é certo é que uma mão na bola claríssima, na qual o jogador não tem o braço atrás das costas e aliás até o tem levantado, não foi nada. Eu na altura confesso que já estava de tal forma irritado que o meu pensamento foi mesmo que nós é que nos colocámos nesta situação por culpa própria e portanto demos a oportunidade para os tipos do apito nos lixarem, e obviamente que eles não desperdiçam tamanha oportunidade. De qualquer maneira, e para podermos continuar com esta fantochada, aposto que amanhã ainda vou descobrir que para alguns o Benfica foi é beneficiado pela arbitragem. O Benfica carregou em vão em busca do golo da vitória, com tremenda falta de lucidez e de qualidade - o número de passes errados foi ainda maior. Do banco, a decisão pouco feliz de retirar o Rafa e o Darwin por troca com o Pedrinho e o Gonçalo Ramos. Nenhum deles estava a jogar grade coisa, mas são sempre capazes de ter um rasgo individual a qualquer momento. Ao invés disso, mantivemos em campo o Seferovic, que fez um jogo simplesmente pavoroso. O Gonçalo Ramos ainda conseguiu escapar-se pela direita e fazer um remate cruzado que levou algum perigo, mas criámos muito poucas ocasiões para marcar. A equipa ficou extremamente nervosa, em especial na defesa, onde complicavam situações relativamente simples de resolver - cheguei a ver jogadas em que houve quatro jogadores nossos a irem a um bola no meio, deixando as alas completamente desguarnecidas. A melhor ocasião surgiu perto do final, já com o Taarabt em campo, que aproveitou um passe em profundidade para se desmarcar pela direita e oferecer o golo ao Seferovic. Mas este conseguiu complicar tudo e viu o remate ser interceptado (num lance em que fiquei também com a sensação de que o jogador do Nacional que bloqueia o remate também acaba por tocar a bola com a mão quando já está no chão, mas se o outro lance não foi penálti então pelos critérios utilizados este se calhar até devia era ter sido penálti contra o Benfica). No final, um empate que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para merecer.

É fácil fazer um destaque neste jogo: Cervi. É, honrosamente, o único. Se calhar com mais dois ou três Cervis tínhamos ganho. Está a jogar como defesa esquerdo inventado e mesmo assim foi, por larga margem, o melhor em campo. Muito por culpa da atitude competitiva, de não dar uma bola por perdida. Mas não foi só por andar a correr atrás da bola e dos adversários os noventa minutos. Deve ter sido certamente o jogador com o maior número de recuperações de bola da equipa. Tentou sempre empurrar a equipa para a frente, sendo incansável pelo lado esquerdo e tentando mesmo várias incursões até ao meio. Continua a manter a atitude que sempre mostrou quando lhe é dada a oportunidade de vestir a nossa camisola. E nós parecemos bastante empenhados em arranjar-lhe um bilhete de ida nesta janela de mercado.
Já escrevi várias vezes aqui que eu consigo desculpar falta de qualidade - e hoje, com tantas ausências, esta até seria mais compreensível, em especial falhas numa defesa nada rotinada. O que não consigo de forma alguma admitir e me deixa sempre fora de mim é falta de atitude. O apagão da equipa imediatamente a seguir ao golo e até que o adversário empatasse não tem desculpa possível. Perante um equipa que teve esta atitude execrável de abutre, de querer lucrar com a desgraça alheia ignorando toda e qualquer noção de desportivismo, o que os nossos jogadores tinham a fazer, se tivessem um mínimo de brio, era entrar a comer a relva do primeiro ao último minuto. Em vez disso deram-nos um espectáculo lamentável e indesculpável. Eu tento defender a nossa equipa até ao limite, mas não há argumentos que possam justificar o que vimos hoje.
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