Já é quase uma rotina vir aqui escrever sobre os nossos jogos e lamentar o desperdício e a falta de eficácia que exibimos. Este jogo não foi excepção, mas conseguimos o mais importante, os três pontos, e mesmo com as ausências de vários jogadores importantes acho que fizemos uma exibição agradável, que merecia um resultado mais condizente para que tivéssemos saído da Luz (ainda) mais satisfeitos. Mas posso desde logo dizer que fiquei muitíssimo satisfeito com a nova iluminação, painéis e marcadores. A nossa casa apresentou-se de cara lavada e até parece um estádio novo.

Sentia alguma apreensão em relação a este jogo. Porque era mais do que expectável que o Portinho viria à Luz com uma atitude ultra-defensiva e o Benfica estava sem dois dos principais aceleradores do nosso jogo - Rafa e Neres - e ainda naturalmente privado do Enzo, que depois da rábula da passagem de ano obviamente que só poderia mesmo ficar de fora, sob pena de abrirmos um grave precedente disciplinar. E depois há aquele problema psicológico que parece ser uma constante no Benfica: por melhor que a situação seja, ao menor contratempo que soframos parece sempre que o céu nos vai desabar sobre a cabeça e as perspectivas catastróficas, normalmente acompanhadas de uma expressão do género 'Eu já vi este filme', abundam. Em relação ao jogo, aquilo que o Portinho fez foi entrar, conquistar o primeiro canto logo no primeiro minuto, na sequência do mesmo fazer um cabeceamento por cima, e depois defender, defender, defender e defender. Esse cabeceamento por cima acabou por ser o único remate que o Portinho fez em toda a partida. Quanto ao Benfica, começou com exactamente o onze que eu previa que alinhasse. A surpresa foi a colocação do Aursnes 'a fazer' de Rafa e o Chiquinho a jogar mais recuado, numa espécie de Enzo dos pobres. Eu (e presumo que quase toda a gente) esperaria o contrário. Com o Neres no banco, avançou para a titularidade o Draxler, sobre a esquerda, passando o João Mário mais para a direita. Gostei do nosso futebol. Apesar de termos pela frente uma equipa muito defensiva, achei que o jogo fluiu razoavelmente e conseguimos criar desequilíbrios suficientes na defesa adversária para criar diversas ocasiões de golo - normalmente o que me preocupa é quando não vejo a nossa equipa ter ideias sobre como desmontar um esquema ultra-defensivo. Chegámos ao golo cedo, logo aos nove minutos, num penálti convertido pelo João Mário. O lance nasce num alívio da defesa do Portinho que o António Silva devolveu de cabeça directamente para as costas da linha defensiva, aproveitando o Gonçalo Ramos para se isolar e depois foi derrubado pelo guarda-redes. O golo em nada mudou a estratégia do Portinho, e o Benfica continuou dono e senhor do jogo, beneficiando de mais um penálti aos dezassete minutos. Um lance completamente destrambelhado do defesa, que se deixou antecipar pelo Bah no momento em que ia aliviar a bola e acabou por lhe acertar um pontapé em cheio. Penálti claríssimo, e com alguma surpresa avançou o Aursnes para o marcar, permitindo a defesa ao guarda-redes Nakamura para canto. Isto foi o mote para a noite de desperdício e de grande acerto do guarda-redes adversário (também já começa a ser uma constante). Logo na sequência do pontapé de canto, o António Silva surgiu ao primeiro poste e cabeceou à barra. Depois, grande jogada em velocidade que envolveu o Aursnes e o Ramos, com o João Mário a surgir em boa posição na área para mais uma grande defesa do guarda-redes. Até ao intervalo, mais duas boas ocasiões do Ramos, duas do Florentino (o Portinho defendia tanto que até dava para o Florentino aparecer em zonas de finalização) e mais um penálti assinalado, que o VAR reverteu - nem sequer tive grandes esperanças porque do sítio onde estava na bancada deu para ver perfeitamente que não tinha havido mão na bola.

Segunda parte e mais do mesmo, embora a um ritmo um pouco menos intenso. Ocasiões de golo a surgir e a serem desperdiçadas por inspiração do guarda-redes ou por má finalização. Particularmente escandalosa foi a situação falhada pelo Gonçalo Ramos, depois de uma transição rápida na qual o António Silva colocou muito bem a bola nos pés do João Mário e este fez um cruzamento de pronto e milimétrico que foi encontrar o Gonçalo completamente sozinho bem no meio da área. De forma quase incompreensível, ele cabeceou ao lado. Um lance quase igual ao que ocorreu no final do jogo em Moreira de Cónegos, no qual o Florentino colocou a bola no Diogo Gonçalves e o desfecho foi exactamente o mesmo, mas isto faz-me pensar que estas jogadas não acontecem por acaso. O Benfica nunca desistiu de procurar o golo que colocaria um ponto final no jogo, até porque a postura do Portinho nem permitia outra atitude. Nem sequer incomodavam no ataque, e as únicas tentativas que faziam de vir para a frente eram sempre feitas da mesma forma: bola longa metida no matacão da frente, que se encostava ao defesa, abria os braços para o bloquear, e tentava segurar a bola à espera que chegasse alguém. Que raramente chegava. Desta vez o Roger Schmidt demorou algum tempo até finalmente mexer na equipa, e quando o fez, a treze minutos do final, já havia jogadores a dar sinal de cansaço. O primeiro a entrar foi, claro, o Musa para o lugar o Gonçalo Ramos. É quase um meme; faça chuva, faça sol, estejamos a ganhar por muitos ou por poucos, estejamos empatados ou a perder, entra sempre o Musa para nos presentear com os seus pormenores de fino recorte técnico. Juntamente com o Musa, entrou também o miúdo João Neves, que se foi encostar à esquerda no lugar previamente ocupado pelo Draxler. Pouco depois, já a menos de dez minutos do final, oportunidade para o regresso do Neres, que mesmo em tão pouco tempo ainda trouxe alguma dinâmica ao lado direito (nada contra o João Mário, que ele substituiu e que para mim foi dos melhores). E antes do final, depois de uma recuperação defensiva, o Chiquinho estoirou mesmo e acabou por provocar a entrada do Henrique Araújo, descendo o Aursnes para a sua posição natural no meio campo.

Acho que o João Mário foi dos melhores em campo. Gostei também do trabalho do Chiquinho numa posição mais recuada - foi até bastante melhor do que costuma ser quando joga mais adiantado - onde tentou emular as funções normalmente exercidas pelo Enzo, tentando (com sucesso) variações rápidas de flanco com passes longos e ocupando bem os espaços nas tarefas defensivas. Depois do desastre que foi em Braga, o Bah esteve bastante melhor neste jogo. O Gonçalo Ramos por um lado esteve bastante activo no ataque a trabalhar para a equipa e proporcionou diversas ocasiões de golo aos colegas, incluindo o penálti que decidiu o jogo. Por outro, esteve desastroso na finalização. Não gostei de ver o Aursnes naquela posição. Ele é pau para toda a obra e empenha-se sempre, mas parece-me um desperdício e passou longos períodos, sobretudo na segunda parte, praticamente desaparecido do jogo. Na segunda parte, pelo contrário, conseguimos ver um bocadinho do Draxler no jogo, que ao contrário do que lhe tem sido habitual não passou o tempo todo a esconder-se. Um jogador do nível dele não pode passar os noventa minutos sem arriscar um passe de ruptura (normalmente recebe a bola e acaba por passá-la para trás da forma mais segura possível) ou sem arriscar um duelo individual. Não é isso que se espera e exige, ele não pode ser apenas mais um, porque nesse caso então não está cá a fazer nada que outro mais barato também consiga fazer.
Esta vitória, apesar de magra, foi de extrema importância. Porque se calhar sou eu que estou a ser paranóico, mas eu sinto que o Benfica está a ser fortemente atacado, com o objectivo de inverter a actual situação na Liga o mais rapidamente possível. Quer-se passar a ideia de que o Benfica está em convulsão e sob pressão, enquanto que em quem vem (bem) atrás tudo é um mar de rosas. É um paradoxo que a imagem dada pela comunicação social é a de que a cada vitória de quem vem atrás o Benfica, que está tranquilamente no primeiro lugar e que mesmo que perca continuará no primeiro lugar, está sob pressão. Já quem está bem atrás, vai a cantar e a rir para os jogos e não tem pressão nenhuma. Até dizem à boca cheia e sem que ninguém se ria que vão ganhar tudo com toda a certeza. Se fosse o Benfica a dizer uma coisa dessas na mesma situação nem imagino o que seria. Aliás, se o Benfica dissesse isso mesmo na presente situação seria certamente acusado de arrogância e de estar a dar motivação aos adversários. O resultado está à vista, e esta noite foram os 'pressionadores' que encostaram no Jamor mesmo depois de uma parte inteira a jogar em superioridade numérica. Depois tivemos a notícia de que a Benfica SAD foi constituída arguida só porque sim, não se sabe porquê (mas uns génios da investigação, que certamente condenam veementemente a violação do segredo de justiça, de alguma forma já concluíram que se trata de um 'mega-processo de corrupção desportiva') convenientemente a uma semana de um jogo importante. Coincidência certamente. A resposta a isto só pode ser uma: ir para dentro do campo ganhar e calá-los, ou no mínimo deixá-los a falar sozinhos e a fazer figuras de urso.
P.S.- O Enzo Fernández portou-se muito mal no episódio da passagem de ano na Argentina e foi obviamente punido de acordo com o regulamento disciplinar do clube. Assunto encerrado. Continua a ser um activo importantíssimo do Benfica, quer financeira, quer desportivamente. Enquanto cá estiver temos é que tirar o máximo rendimento dele que for possível. Conversas sobre 'ir treinar para a equipa B' e afins só estão a fazer o trabalho de outros e é isso mesmo que eles querem e tentam fomentar através da comunicação social.
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