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Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Glórias benfiquistas: Nené

Tamagnini Manuel Gomes Batista Nené, nascido no dia 20 de Novembro de 1949, em Leça da Palmeira. Para a História fica conhecido como Nené, o Nené do Benfica que marca um tempo em que se falava do Benfica do Bento, do Humberto, do Shéu, do Néné…

 

Nené é, de todos os que tiveram a supina honra de jogar de águia ao peito, o que mais vezes vestiu a nossa gloriosa camisola: 941 vezes, entre jogos particulares e oficiais nos diferentes escalões. Construiu toda a sua carreira sénior no Benfica. Jogava em Moçambique, no Ferroviário da Manga, quando, em Dezembro de 1966, o Benfica começou a negociar a sua transferência. Era um miúdo com apenas 16 anos!! No ano seguinte já jogava nos juniores do Benfica, no Clube onde já um seu familiar se tornara mítico: Cavém. O Néné deixou o futebol 20 anos depois, em 1986. Jogou sempre no Glorioso. Como sénior, fez 577 jogos oficiais, marcou 361 golos, ganhou 10 Campeonatos Nacionais, 7 Taças de Portugal e 2 Super Taças.

Começou, devido à sua impressionante velocidade, como extremo-direito. Em 75/76 já era ponta-de-lança. Se já marcava muitos golos como extremo, como ponta-de-lança passou a ser, constantemente, um dos melhores marcadores do nosso campeonato. O seu talento como goleador fez dele o terceiro melhor marcador da História do nosso Clube… batido apenas por dois futebolistas cujo nome se confunde com o do próprio Benfica: Eusébio e José Águas.

 

Na minha juventude, habituei-me à grande probabilidade de ouvir o nome do Nené gritado nos relatos radiofónicos depois de se ter gritado golo do Benfica. Nené era o avançado sempre presente, com o número 7 herdado dos primeiros tempos como extremo. Foi o Nené que me fez gritar golo por três vezes numa final da Taça de Portugal contra o FC Porto. Era o Nené de quem os mais velhos contavam façanhas ímpares como a de ter marcado 5 golos ao Ajax, no Parque dos Príncipes, durante o Torneio de Paris. Era o Nené que, quase pairando, quase sem se sentir o seu peso no relvado e dissimulado como devem ser os pontas-de-lança que parecem jogar de smoking, surgia de onde menos se esperava para fazer o que é mais difícil e mais valioso no futebol. O Nené é o grande mito que podia estar “ausente” do jogo durante 89 minutos, mas a quem bastava um subtil toque na bola, no nonagésimo minuto, para fazer o golo.

À “boa” maneira portuguesa, chegado aos 30 anos já o tratavam como um veterano a quem antecipavam a reforma. À boa maneira dos verdadeiros campeões, Nené ia mostrando, plácida e eficazmente, a todos (desde adeptos a jornalistas) que há capacidades que se refinam… a de marcar golos é uma delas. Assim, sucessivamente iam aparecendo concorrentes para o lugar e sucessivamente o Nené lá se encarregava de ir mostrando que o lugar tinha um nome, o seu nome. Em 84, durante o Europeu, o Nené encarregou-se de mostrar que, também ao serviço da Selecção, havia um lugar para si. Apesar da excelência da concorrência (Jordão e Gomes). Nené acabou, mais uma vez, por mostrar a sua utilidade, o seu instinto goleador e a sua importância para tentar a coesão de um grupo fragmentado por natureza. No Benfica, mesmo em final de carreira, demonstrou a um casmurro de má memória chamado Csernai que ainda tinha muito para dar ao Benfica e ao futebol. Na Selecção AA teve 66 internacionalizações e marcou 22 golos. Estes números são impressionantes se atendermos à quantidade de jogos que a nossa Selecção fazia anualmente e à ausência da mesma em grandes competições internacionais. Imaginem quantas internacionalizações não teria Nené se jogasse actualmente…

No entanto, também à “boa” maneira portuguesa, o sucesso provoca tantas alegrias como injustiças. Assim, o Nené teve de viver com o estigma de ser um futebolista medroso que raramente “metia o pé”. Sobre esse assunto, veja-se a resposta que Nené dava a jornalistas e adeptos em 1976:

«Já há tempo dei uma entrevista ao jornal A BOLA em que afirmei que maluco é que não sou. Se existem jogadores que metem o pé em certos lances onde por norma só vão buscar problemas para eles e para os clubes que lhes pagam, isso e lá com eles.

Eu não sou assim. […] o que sei, isso sim, é fugir na hora exacta, mas normalmente com a bola a ficar na minha posse, […], tentando não me molestar sem vantagem para ninguém. Mesmo assim ainda este ano fui o segundo melhor marcador do campeonato e, caso curioso que a maioria dos sócios talvez não tivesse reparado, marquei nos sessenta e tal encontros que disputei durante a temporada, entre oficiais e particulares, a media de um golo por desafio, o que ficou longe de qualquer outro colega e, muito menos, da totalidade dos atacantes portugueses.

Quanto ao insultarem-me e dizerem-me que lhes faz confusão como consigo aguentar uma hora e meia sem nunca reagir menos delicadamente, posso garantir que aguentaria até um dia inteiro, pelo que escusam de continuar a adoptar tal sistema que me dispenso de criticar. Sou assim por temperamento pelo que jamais tomarei uma atitude menos correcta para com tais adeptos do meu clube. Aliás, tenho até para mim que aqueles que assim procedem não são os sócios com dez, quinze, vinte e mais anos de associados. São os que entraram na «família» há dois ou três anos e que, talvez por serem novos, reagem mais rapidamente para se tornarem notados e mostrarem aos mais velhos o seu muito benfiquismo...

Uma verdade poderei dizer: o meu sistema de jogar é este desde miúdo. Não me sinto arrependido de ter sido sempre um jogador correcto para os adversários e para o público. Creio com tal sistema haver sempre servido com dignidade o meu clube e, simultaneamente, o clube que me paga. Quanto às palavras que me dirigem continuarei talvez a ouvi-las mas, como as atitudes ficam com quem quem as pratica, nada é comigo...»

 

Também sempre associada à imagem do Nené está o velho chavão de que ele “nunca sujava os calções”. «Se os não sujava era porque achava que não precisava.» Remate certeiro e golo.

 

Era assim o Nené, inteligente e frio com as palavras, inteligente e frio no momento de rematar para a baliza. É assim o nosso Nené, apaixonado pelo seu (nosso) Benfica e orgulhoso da sua carreira «Sinto-me um privilegiado. Afinal foram tantos os jogadores a representar o Benfica e ser logo eu a ter a sorte de jogar mais vezes do que todos os outros».

 

É de exemplos como o de Nené que o meu benfiquismo se foi construindo. É a senhores como o Nené que eu tenho de agradecer o que contribuíram para cimentar a paixão que continuo a sentir pelo nosso Benfica.

 

sinto-me: benfiquista
publicado por Pedro F. Ferreira às 12:00
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