E continuamos vivos. No segundo jogo de tudo ou nada na Champions, o Benfica arrancou uma exibição sólida e venceu o campeão italiano de forma indiscutível, permitindo-nos a manutenção na corrida pelo apuramento para a próxima fase da competição.

Duas surpresas no onze, a maior delas a titularidade no Ivanovic no lugar do Pavlidis no ataque. A outra foi a escolha do Tomás Araújo em vez do António Silva no centro da defesa (só por curiosidade, estes dois jogadores que foram titulares são precisamente aqueles que depois da má exibição no jogo da Taça contra o Atlético, a comunicação social especulou terem sido aqueles que o Mourinho 'culpou'). A titularidade do croata foi para termos um avançado mais móvel na frente, para permitir atacar o espaço que o Napoli dá atrás dado que, como é normal nas equipas do Conte, gosta de jogar com as linhas muito subidas. Quanto ao Tomás Araújo, imagino que a melhor qualidade de passe que tem em relação ao António Silva tenha pesado na escolha. Uma coisa que reparei cedo foi que o Aursnes raramente se encostava à direita quando atacávamos (já o Sudakov do outro lado, é normal vir mais para dentro). Vimos portanto muita gente no meio campo, que os médios do Napoli não eram capazes de controlar ou acompanhar. A defender, então o Aursnes e o Sudakov ajudavam a fechar as alas, enquanto o Barreiro se juntava ao Ivanovic na primeira linha de pressão. A forma como podíamos explorar o espaço deixado atrás pelo Napoli com transições rápidas ficou exemplificada cedo: um passe fantástico do Sudakov para a desmarcação do Aursnes deixou-nos numa situação de dois para um no ataque. O Aursnes conseguiu deixar a bola no Ivanovic com um passe de calcanhar, e o croata ficou completamente à vontade para marcar, tendo desperdiçado a oportunidade de forma escandalosa, com um remate a meia altura e sem muita força que permitiu a defesa ao guarda-redes. Na insistência, o Ivanovic ainda meteu a bola no Aursnes que, sobre esquerda, fez um remate cruzado que passou perto do poste. Poucos minutos depois, foi o Aursnes a desperdiçar. A pressão alta permitiu-lhe interceptar um passe do guarda-redes e ficar ele completamente solto na área, e ainda com o Ivanovic sozinho em frente à baliza para lhe passar a bola. Optou pelo remate, acertou mal na bola e o remate nem sequer foi à baliza. Desperdiçar dois golos praticamente certos dentro dos primeiros vinte minutos nunca é um bom augúrio, mas foi quase na jogada a seguir a este falhanço do Aursnes que chegámos finalmente ao golo. Após um cruzamento do Dahl, a bola foi dividida no ar entre o Ivanovic e um defesa e sobrou para a pequena área, onde o Ríos se antecipou a todos e desviou a bola do guarda-redes. Depois deste início forte do Benfica, assistimos finalmente a uma ténue tentativa de reacção por parte do Napoli, mas excluindo alguns cruzamentos do Neres, a nossa baliza nunca passou por grandes apertos, acabando por ser nossa a melhor ocasião para voltar a marcar, pelo Otamendi já perto do intervalo.

No início da segunda parte, voltámos a entrar bem e aconteceu o melhor possível, que foi o segundo golo. O lance começa com um passe do Ríos ainda no nosso meio campo defensivo, a solicitar o Ivanovic sobre a direita. Este progrediu até perto da área e esperou que o mesmo Ríos, que veio numa corrida desenfreada desde lá de trás sem que ninguém o conseguisse acompanhar, chegasse perto para lhe devolver a bola. O Ríos depois, ainda sobre a direita, aproximou-se mais da linha de fundo e fez o cruzamento que o Barreiro, antecipando-se a um defesa, desviou para o golo com um toque subtil de calcanhar. Tudo bem feito e vantagem importante para deixar a equipa mais tranquila e confiante para a segunda parte. O que se assistiu depois disso foi Mourinho vintage. Ou o Benfica a fazer aquilo que já por várias vezes não soube ou não conseguiu fazer esta época, pagando caro por isso: meter o jogo no congelador. O Benfica teve muito pouca bola durante a segunda parte, mas não deixou o Napoli fazer grande coisa com ela. Exceptuando uma iniciativa individual do Neres, que terminou com um remate que o Trubin defendeu com relativa facilidade para canto, não me recordo de mais nenhuma aproximação perigosa à nossa baliza. Quebrámos o ritmo do jogo sempre que possível, obrigámos o Napoli a fazer inúmeras faltas para recuperar a bola, e bloqueámos quase todos os caminhos para a nossa baliza. Quando, para os últimos quinze minutos, o treinador do Napoli fez entrar o pinheiro Lucca para se juntar ao Hojlund na frente, o Mourinho respondeu com a entrada do António Silva, passando a jogar com três centrais (e o Barreiro sobre a esquerda, passando o Benfica a jogar em 5-4-1). Entrou também o Pavlidis para o lugar do esgotado Ivanovic, e nos pés do grego ainda tivemos duas ocasiões muito boas para aumentar a vantagem ambas negadas pelo guarda-redes do Napoli. Já nos instantes finais do jogo, ocasião para duas estreias: o Tiago Freitas rendeu o Aursnes, para dar continuidade à nossa cada vez mais implementada tradição de ter médios centro a actuar nas alas, e o Neto, que eu acho que tem grande potencial para vir a ser o nosso futuro lateral esquerdo a breve prazo, rendeu o Barreiro.

O Ríos, com um golo e uma assistência, foi naturalmente o homem do jogo. O Mourinho parece estar a conseguir transformá-lo num jogador que justifique o que pagámos por ele, e gostei bastante da forma como ele descreveu a melhor maneira de o utilizar. Gosto do enorme raio de acção que ele tem, e do ritmo com que joga os noventa minutos (o que é ainda mais surpreendente tendo em conta os jogos que leva nas pernas). O Barreiro é outro jogador que, não sendo um artista, joga sempre em alta rotação, e a verdade é que nos dois últimos jogos da Champions conseguiu marcar dois grandes golos e ser decisivo. Neste momento começa a parecer-me difícil que perca o lugar no onze. O Ivanovic lutou bastante e saiu esgotado, foi importante na estratégia para este jogo e esteve directamente envolvido nas jogadas dos dois golos. Mas um avançado do Benfica não pode falhar um golo daqueles. Também gostei do Aursnes, que fica igualmente marcado por um falhanço imperdoável. No geral estiveram todos num bom nível, numa boa exibição da equipa como um todo.
A qualificação continua a ser complicada face aos adversários que nos falta defrontar, mas continua a ser uma possibilidade real. Esperemos que daqui a um mês, quando os jogos se disputarem, continuemos a evoluir e nos possamos apresentar ainda mais fortes. Entretanto, a prioridade é o jogo muito difícil que teremos já este fim-de-semana, contra uma equipa que costuma ser forte em casa e está a fazer uma boa época. Seria muito importante não desperdiçarmos imeditamente a motivação que esta exibição e resultado nos deram.
Foi, objectivamente, um resultado curto. Fomos melhores no total dos noventa minutos, mas a vitória era o único resultado que nos interessava, e uma entrada que só se pode adjectivar de desastrosa no jogo acabou por comprometer esse objectivo.

Apesar do papel inportante que o Prestianni e o Schjelderup tiveram na reviravolta na Madeira, foi sem surpresa nenhuma que vi o Benfica regressar ao onze mais previsível, com o Aursnes na direita e o Sudakov na esquerda. A entrada no jogo foi, como referi, simplesmente desastrosa. O Sporting entrou melhor, foi capaz de pressionar alto com eficácia, e cedo começou a tirar proveito disso. O Trubin já tinha sido obrigado a uma defesa, quando aos doze minutos de jogo mais um episódio daquelas saídas de bola suicidas, que já referi aqui antes que acabariam por nos trazer dissabores, em que o Trubin coloca a bola no médio defensivo à entrada da área com este de costas para o jogo, resultou numa perda de bola do Barrenechea e um golo fácil para o Pedro Gonçalves. Ainda mais frustrante foi no final ouvir o Mourinho dizer que durante a semana treinaram especificamente para nunca fazerem este tipo de saída de bola. O golo abanou ainda mais a nossa equipa, que não conseguiu fazer praticamente nada até quase à meia hora de jogo - se quisermos ser mais precisos, até aos vinte e sete minutos de jogo. Porque foi nesse minuto que a reacção do Benfica surgiu, e da melhor maneira, com o golo do empate. Grande passe do Ríos a desmarcar o Dedic na direita, que cruzou a bola para a boca da baliza, onde quase em cima da linha de golo o Sudakov se embrulhou com um adversário mas acabou por conseguir ser mais lesto e empurrar a bola para o golo. A partir daqui o Benfica passou para cima no jogo e não mais deixou de estar até ao final do mesmo. Isto literalmente - os dados estatísticos mostram que o último remate do Sporting no jogo foi aos 26 minutos. O resto do jogo foi para o Benfica tentar emendar a péssima entrada e ir atrás dos três pontos de que necessitava, muito mais do que o adversário. Não foi um domínio avassalador, não sufocámos o adversário (que conseguiu quase sempre passar tempo a trocar bolas na zona defensiva sem grandes problemas) mas fomos a equipa que mais procurou a vitória e mais perto esteve de a conseguir - tendo em conta os zero remates do adversário a partir do golo do empate, seria difícil o contrário.

Na segunda parte acentuou-se um pouco mais a superioridade do Benfica no jogo. Não acho que o Sporting tenha deliberadamente tentado jogar para o empate, porque também não seria um resultado que lhes interessasse, mas não mostraram muita capacidade para reagir ao ascendente do Benfica no jogo e nunca representaram qualquer ameaça para a nossa baliza. Apesar de se jogar maioritariamente longe das áreas (o jogo, objectivamente, apesar de bastante disputado foi também algo aborrecido de ver) o Benfica foi sempre a equipa mais perigosa, e vimos um jogador do Sporting praticamente tirar um golo certo ao Barreiro com um ligeiro desvio na bola na altura certa, depois de uma bola parada bem trabalhada na qual o Ríos apareceu solto na ponta para fazer a assistência de cabeça para o meio da área, e depois o mesmo Ríos, após uma boa iniciativa individual que incluiu um túnel a um adversário, rematar de pé esquerdo à entrada da área para fazer a bola passar muito perto da baliza adversária. Quando se antecipava uma investida final do Benfica nos poucos minutos que ainda faltavam para o fim, depois de fazermos entrar o Prestianni e o Ivanovic para refrescar o ataque, o argentino foi expulso com vermelho directo por travar uma tentativa do Sporting sair para o ataque e a investida ficou-se pela intenção. O Ivanovic acabou por ter que ir fechar uma ala, ficando o Barreiro como homem mais adiantado, e nos minutos de compensação viu-se o Sporting finalmente com alguma vontade de chegar novamente à nossa área, aproveitando o baixar de linhas do Benfica. Tiveram mais bola e jogaram mais no nosso meio campo, mas o resultado concreto foi o mesmo: zero remates feitos, tendo conseguido apenas conquistar um pontapé de canto.

O Ríos tem estado a subir progressivamente de rendimento, e se calhar este foi mesmo um dos melhores jogos que o vi fazer pelo Benfica. Foi dele o passe a desmarcar o Dedic no lance do golo, e ele foi sempre um dos principais dinamizadores do nosso jogo. Gostei francamente do que vi, e este jogador já começa pelo menos a fazer-nos crer que o investimento que fizemos nele pode ser justificado. Achei que o Sudakov também esteve bem, mas continuo a desejar vê-lo num papel mais central como verdadeiro organizador de jogo. Entretanto, continuo a pensar em todos os jogos se ficámos mesmo a ganhar com a troca do Florentino, que era um dos sacos de pancada preferidos de uma franja dos sócios, pelo Barrenechea, porque o argentino parece-me ser claramente inferior no aspecto defensivo, que é aquilo que eu considero ser mais importante num médio... defensivo. Neste momento a minha esperança é que o Manu regresse ao seu melhor nível rapidamente.
Se fôssemos avaliar este resultado exclusivamente pela antevisão que a comunicação social euforicamente verde andou a fazer do jogo, e pela chinfrineira que os mesmos têm andado a fazer durante toda a época e os encómios a esta equipa do Sporting que não é nem mais nem menos do que uma equipa normal para um dos três grandes em Portugal, que domina sem grandes dificuldades a maioria das outras equipas do nosso campeonato, isto foi um resultadão. Houve alturas em que cheguei a pensar que iríamos defrontar um dream team, uma espécie de Milan do Sacchi ou Barcelona do Guardiola, e que se calhar mais valia dar falta de comparência porque tudo o que não fosse perder de goleada já seria aceitável. Mas objectivamente, o empate é um resultado bastante negativo. Tinha expectativas altas para este jogo, mas pela quarta vez esta época empatamos um jogo que deveríamos ter ganho em casa. São oito pontos perdidos, que é precisamente a distância que potencialmente nos separa do primeiro lugar. Já começam a ser demasiados pontos - é verdade que já nos vi recuperar desvantagens destas, mas tendo em conta que as equipas grandes cada vez perdem menos pontos contra as chamadas pequenas, será muito difícil chegarmos ao topo.
Estivemos a um passo do inferno, mas uma ponta final carregada de crença resgatou-nos de um resultado que seria (uma vez mais) de uma injustiça atroz e conseguimos regressar da Madeira com os mais do que merecidos três pontos.

Não havia Ríos para este jogo, por isso a alteração feita em relação ao onze de Amesterdão foi a entrada do Rodrigo Rego para a direita, tendo o Aursnes regressado ao centro do terreno. O jogo foi dominado pelo Benfica do princípio ao fim, perante um Nacional cujo comportamento foi deplorável. Foi uma equipa completamente remetida à defesa, executando um hino ao anti-jogo, preocupada sobretudo em que se jogasse o mínimo possível. Só o guarda-redes 'lesionou-se' umas três ou quatro vezes durante o jogo. O Benfica, sobretudo durante a primeira parte, foi mais daquilo que tem sido muitas vezes esta época, para nosso exaspero. Muita posse de bola, muita circulação, mas má finalização/definição dos lances. Verdade seja dita que neste jogo chegámos muito mais vezes a zonas de finalização e rematámos muito mais - o que perante uma equipa completamente enfiada na área nem é assim tão surpreendente - mas a qualidade da finalização deixou sempre muito a desejar. Em quinze remates feitos na primeira parte, só um cabeceamento do Pavlidis à figura do guarda-redes e um remate exterior do Barreiro é que deram maior sensação de perigo. A regra foram mais finalizações como uma absolutamente desastrada do Aursnes, que à vontade à entrada da área rematou quase na direcção da bandeirola de canto (com o Pavlidis ainda a conseguir desviar a bola mais para perto da baliza). O mesmo Pavlidis ainda conseguiu introduzir a bola na baliza perto do intervalo, num lance de confusão e insistência na área do Nacional, mas estava adiantado no início da jogada.

Na segunda parte o Benfica continuou por cima e quando vi o Barreiro, completamente à vontade na pequena área, a falhar de forma inacreditável um desvio simples para a baliza depois do Sudakov lhe oferecer o golo numa bandeja, comecei a pensar mesmo que isto iria ser mais um daqueles jogos horrivelmente frustrantes. Ficou também um penálti claro (e estúpido) por assinalar a nosso favor, mas acho que isto já se tornou de tal forma a nossa normalidade que foi quase como se nada se tivesse passado. Após poucos minutos trocámos o Rego pelo Prestianni, mas o cenário familiar deste tipo de jogos continuava a compor-se: o Otamendi teve uma falha escandalosa na defesa, entregando a bola a um adversário quando tentávamos sair para o ataque, e apanhando a nossa defesa completamente descompensada, o Nacional chegou ao golo. Sem ter feito praticamente nada para o justificar, apanhava-se agora à frente no marcador. Se defender e não deixar jogar já era a palavra de ordem desde o apito inicial, é fácil adivinhar o que aconteceu a seguir. A reacção do Benfica foi imediatamente lançar o Ivanovic no lugar do Barrenechea, mas não me parece que a nossa equipa consiga tirar grande partido da dupla Ivanovic/Pavlidis. Minutos depois trocámos o Barreiro pelo Schjelderup, e foi sobretudo a partir desse momento que achei que começámos verdadeiramente a sufocar o Nacional. Dupla de meio campo Aursnes/Sudakov, com o ucraniano a assumir-se finalmente como organizador de jogo, alas bem abertos, laterais projectados. Ainda que os cruzamentos saíssem quase sempre mal, conseguimos jogar na largura total do campo, com a bola a circular rapidamente de um lado ao outro a causar mais dificuldades à defesa adversária. Apenas aos 89 minutos fomos finalmente recompensados, num golo fabuloso do Prestianni. Completamente descaído sobre a direita, e quando se esperaria que saísse um cruzamento, saiu em vez disso um remate cruzado fortíssimo e colocado ao poste mais distante. Um dos melhores golos desta época. Quando, para espanto meu, o árbitro concedeu nove minutos de compensação (mais do que justificados) percebeu-se que toda a gente acreditava que ainda seria possível ir buscar a vitória. Que surgiu com um golo do Pavlidis, que aos 95 minutos fez aquilo que o Barreiro não tinha conseguido, desviando na pequena área uma bola oferecida pelo Schjelderup após um bom trabalho na esquerda. Desta vez o 'crime' não compensou e o anti-jogo do Nacional acabou punido com justiça.

Gostei do jogo do Pavlidis, mas gostei também muito de ver o Sudakov, talvez pela primeira vez desde que chegou, nas funções de verdadeiro maestro da equipa. Normalmente joga sobre a esquerda (onde não gosto particularmente de o ver) ou quando jogou no meio, assume uma posição mais adiantada, quase ao lado do Pavlidis. Gostei de o ver mais recuado, atrás dos avançados, com o nosso jogo ofensivo a passar quase sempre pelos pés dele. Gostei também, como gosto sempre, de ver a equipa com dois extremos verdadeiros a jogar a toda a largura do campo. Contra equipas pequenas é assim que eu gostaria que o Benfica jogasse quase sempre. O Otamendi é o líder da equipa, mas voltou a cometer um erro grave. A quantidade de vezes que ele já comprometeu a equipa com este tipo de erros é imensamente superior às falhas que o António Silva também comete por vezes, mas é sempre o António quem leva mais na cabeça à menor falha.
O Benfica dos últimos vinte e cinco minutos estará certamente muito mais próximo do Benfica que quase todos nós ambicionamos ver. Apesar de continuar a ser preocupante passarmos por tantas dificuldades para vencer uma equipa tão inferior, tendo estado perto de, pela quarta vez esta época, desperdiçar dois pontos contra uma equipa deste nível, de positivo fica o facto da equipa nunca ter baixado os braços e ter acreditado até ao fim. A forma como a vitória foi festejada revelou uma forte união, e isso é sempre positivo. E depois de tantas desilusões e injustiças ao cair do pano, pelo menos desta vez fica o consolo de termos visto a justiça chegar no mesmo período de tempo. Já era tempo.
Mais uma vez não foi uma exibição de encher o olho, mas finalmente conseguimos a primeira vitória e os primeiros pontos nesta edição da Champions.

Depois da exibição pálida contra o Atlético na taça, regressámos com um onze mais ou menos esperado, com talvez apenas meia surpresa do Barreiro aparecer a titular como o jogador mais próximo do Pavlidis, cabendo ao Aursnes ocupar a direita, lugar que muito provavelmente voltará a ser dele durante algum tempo face à lesão prolongada do Lukebakio. O Benfica entrou bem no jogo. Boa pressão sobre a saída de bola do Ajax, que permitiu algumas recuperações subidas da bola. E melhor ainda, chegámos ao golo muito cedo. Aos seis minutos de jogo, após canto na direita, o Ríos cabeceou para uma boa defesa do guarda-redes e depois sobre a esquerda, perto do limite da área, o Dahl apanhou a bola de primeira para fazer um remate imparável ao ângulo do lado oposto. Uma boa maneira de se redimir do erro grosseiro que nos custou o jogo anterior contra o Leverkusen. O problema foi que depois voltou aquela faceta mais irritante que acompanha o Benfica de há vários anos a esta parte. Não sei se a equipa acha que já fez o suficiente, mas obtida a vantagem, em vez de continuar no mesmo registo à procura de mais um golo, começamos imediatamente a tirar o pé e a reduzir a intensidade. Durámos quinze minutos neste jogo. Frente a uma equipa que atravessa um dos piores momentos da sua história, e que à entrada para este jogo era aquela com o pior registo na Champions, depois de marcarmos um golo madrugador que certamente terá abanado ainda mais a confiança de uma equipa nestas condições, começámos a recuar e a convidar o adversário a atacar, dando-lhes a bola e a iniciativa do jogo. O Ajax aproveitou e teve o controlo do jogo até ao intervalo, sem que o Benfica desse grande sinal de reacção no ataque. O Trubin nem foi obrigado a trabalho de monta, mas a bola andou constantemente a rondar a nossa área.

Na segunda parte isto foi ainda mais evidente, e só não sofremos o empate porque o Ajax entreteve-se a mostrar porque motivo está num momento tão mau e no fundo da tabela da Champions. Isto incluiu ver um jogador completamente sozinho em frente à baliza atirar uma bola para fora. A segunda parte foi basicamente isto: o Ajax constantemente com a bola e a tentar atacar, e o Benfica preocupado em segurar apenas a vantagem e com muito pouca presença no ataque. Do banco, não vieram sinais de vida até cerca de dez minutos do final. E quando vieram, apenas reforçaram a mensagem de que a prioridade era segurar o resultado: trocámos o Sudakov pelo Tomás Araújo, para passar a jogar com três centrais. Contas feitas, cinco defesas, quatro médios defensivos e um avançado. Mas embora eu tivesse pensado na altura que apenas estávamos a convidar ainda mais a pressão adversária, a verdade é que com esta alteração conseguimos praticamente estancar o caudal ofensivo do Ajax. E no último minuto do tempo regulamentar matámos mesmo o jogo: alívio do Tomás Araújo, e o Barreiro no meio campo teve espaço e tempo para parar a bola no peito e tabelar com o Aursnes, ultrapassando a linha subida de defesa do Ajax e ficando isolado em frente ao guarda-redes, Depois finalizou bem com um remate forte de pé esquerdo. Nos instantes finais, de assinalar o regresso do Manu, e a estreia do Rodrigo Rego na Champions.

Tenho dificuldade em escolher um destaque. Talvez o Barreiro pelo golo decisivo e pelo trabalho durante os noventa minutos. E o Aursnes não sabe jogar mal. Confesso também ainda não estar convencido pelo Barrenechea. Acho-o pouco intenso em termos defensivos, e tendo em conta as críticas incessantes ao Florentino pelos constantes passes laterais ou para trás, acho que o Barrenechea não faz menos passes do mesmo género.
Tenho dúvidas que ainda estejamos a tempo de conseguir a qualificação para o playoff, mas pelo menos já nos livrámos do peso que o estigma dos zero pontos acarretavam. Pode ser que isso permita uma exibição menos tensa frente ao Nápoles, que voltará a ser um jogo absolutamente decisivo para manter uma réstia de esperança na qualificação. Antes disso, uma deslocação à Madeira que, como são todos os jogos agora que os seis pontos que deitámos fora são aqueles que nos separam do primeiro lugar, é decisiva para as nossas aspirações na liga.
Mais um empate inaceitável em casa contra uma equipa de nível muitíssimo inferior. Mesmo sendo uma competição em que as regras não são iguais para todos, o Benfica tem a obrigação de fazer muito mais e melhor do que isto, e é o principal culpado pelo resultado final.

Do jogo, já se torna repetitivo estar sempre a escrever o mesmo. É o Benfica com obrigação total de ganhar, frente a uma equipa que entra em campo só para defender. A entrada não foi má, pelo menos no que diz respeito ao ritmo que tentámos impor no jogo, mas mal chegámos ao golo, aos dezassete minutos, fiquei logo com a sensação de que tirámos o pé do acelerador. O golo, por sinal, foi bastante bonito, com o Pavlidis a matar no peito e a assistir de cabeça para o Sudakov rematar de primeira e em arco com o pé esquerdo. O Casa Pia, apesar da ronha dos nossos jogadores, foi completamente inofensivo e saímos para intervalo a ganhar mas com a certeza de que seria necessário marcar mais para evitar os filmes do costume. Ao intervalo trocámos o Berrenechea pelo Prestianni e voltámos outra vez com um pouco mais de intensidade, que foi recompensada à hora de jogo, num penálti convertido pelo Pavlidis após mão na bola a um cabeceamento do Ríos. Poder-se-ia pensar que estaria tudo encaminhado, mas nunca se pode menosprezar a atracção pelo abismo que a nossa equipa tem. Cinco minutos depois do golo, o Casa Pia subiu talvez pela primeira vez no jogo à nossa área e a equipa de arbitragem inventou um penálti (contra as recomendações existentes, que dizem que quando a bola ressalta do corpo de um jogador para o braço não se deve assinalar penálti). OK, não deveria ser penálti, mas o nervosismo que isto provocou na equipa não é normal. Pior foi quando o Trubin defendeu o penálti e, sem qualquer explicação racional, o Tomás Araújo chegou primeiro à bola e mandou um estouro para a própria baliza. E ainda pior foi a reacção a isso. O Benfica ficava a vencer por 2-1, mas a mim pareceu-me que para o Tomás Araújo o empate já era uma desfecho inevitável. O nervosismo conseguiu ir aumentando cada vez mais (repito, sem qualquer motivo racional para tal, porque o Casa Pia era uma equipa completamente inofensiva que não ameaçava a nossa baliza de forma alguma; isto não foi um jogo como aquele com o Gil Vicente, que merecíamos ter perdido) e ficou ainda pior quando a nove minutos do final tivemos um golo (bem) anulado ao Barreiro. Não sei se a bola cabeceada pelo Ríos entraria na mesma, mas já não é a primeira vez que o Barreiro 'invalida' golos com este tipo de movimentação ao segundo poste, desviando a bola quase em cima da linha. E depois, como um filme com um guião feito de chavões, em tempo de descontos o Ríos perde de forma absolutamente desnecessária a bola a meio campo e fica à espera de uma falta, enquanto a nossa defesa parecia um grupo de baratas tontas em pânico por a bola se aproximar, pela segunda vez no jogo, da nossa baliza. Terminou com o Trubin a interceptar um cruzamento que seguia directamente para os pés do Tomás Araújo (se calhar ficou com medo que ele resolvesse chutar para a própria baliza outra vez) e a deixar a bola solta à entrada da pequena área para que um adversário fizesse o empate.

O Benfica esta época perdeu oito pontos, seis dos quais em casa, fruto de três empates com equipas da parte baixa da tabela. Não há candidatura ao título que resista a isto. Ainda por cima quando em todos esses três jogos, o golo do empate foi consentido em período de descontos. Isto revela a falta de controlo emocional da equipa. Isto não é de hoje nem de ontem: há muito tempo que revelamos uma enorme incapacidade (ou falta de vontade) para matar ou fechar jogos em que somos claramente superiores durante a maior parte do tempo, e depois ficamos expostos a reveses quando o nervosismo vem ao de cima à menor contrariedade. Eu na maior parte das vezes chamo-lhe sobranceria, mas também se lhe pode chamar falta de empenho ou de brio. No Benfica nunca pode existir o conceito de 'já chega' ou 'é suficiente'. Sim, os dados estão viciados, as regras não são iguais para todos, o que se passou fim-de-semana foi apenas mais um exemplo daquilo que já é quase rotina, mas estamos mais do que fartos de saber isso. A final da taça da época passada deixou exposto de forma bem clara qual é o status quo actual do nosso futebol (para mim, pessoalmente, foi um momento pivotal, comparável à Supertaça que nos foi roubada em 1995). Precisamente por isso é que me custa aceitar que há tantos anos mantenhamos esta absoluta falta de killer instinct, insistindo em ficar à mercê de azares, erros próprios, ou artistas com uma agenda própria e que sabem quais as melhores decisões a tomar para progredir na carreira. Podemos e devemos fazer (muito) barulho pelos disparates com que vamos sendo presenteados sucessivamente por artistas de encomenda - aliás, fazer apenas barulho não chega, é preciso lutar para varrer a corja que aproveitou para se instalar nos lugares de decisão das estruturas do futebol português, perante a nossa indiferença, tolerância ou até mesmo, e nunca é demais repeti-lo, com o nosso incompreensível e inexplicável apoio - mas se não fizermos ainda mais barulho para corrigir a má atitude e mentalidade de quem defende as nossas cores e veste a nossa camisola, continuaremos cada vez mais expostos e à mercê de quem quer o nosso mal.
Derrota absolutamente ridícula contra um adversário que veio à Luz jogar como qualquer equipa pequena do nosso campeonato faz: defender, queimar tempo de forma deliberada e evidente, e esperar pelo brinde que o Benfica inevitavelmente oferece. Fomos claramente a melhor equipa, fizemos mais do que o suficiente para vencer, mas perdemos o jogo de forma infantil.
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Sem me querer alongar muito, porque a Champions parece ser nesta fase cada vez mais uma causa perdida: duas bolas nos ferros, outras tantas ou mais ocasiões flagrantes falhadas, e quem desperdiça da forma como o fizemos esta noite e ainda por cima oferece brindes na defesa do calibre do que oferecemos esta noite, só pode mesmo esperar derrotas. Ter três situações na cara do guarda-redes e marcar zero golos é estar a pedir problemas. Depois começa tudo a pesar, a necessidade absoluta de uma vitória, o arrastar do nulo, e os erros vão-se acumulando. O pior deles todos, a oferta do golo da vitória ao adversário. O Trubin defende o primeiro remate e, sem qualquer justificação para isso, o Dahl do lado oposto devolve a bola de cabeça precisamente ao autor do primeiro remate, numa assistência que qualquer jogador do Leverkusen gostaria de fazer, que fez a bola ir cair milimetricamente na cabeça do adversário. Nervos ainda mais à flor da pele depois do golo, e apesar de acarregarmos muito com o coração, faltou a tradicional cabeça e os lances foram cada vez mais desconexos. O melhor jogador do Benfica esta noite (e até me sinto esquisito a escrever isto) foi o Ríos. Bem a pressionar, a recuperar, a passar, e no transporte da bola, ultrapassando com velocidade as linhas adversárias. Se este Ríos viesse para ficar, poderia ser um reforço importante. Contas feitas, quatro jogos, quatro derrotas, zero pontos, penúltimo lugar, e objectivamente a campanha europeia tem o destino quase traçado. Arrisco até dizer que, face ao calendário que nos resta, não será fácil o Benfica conseguir ganhar algum jogo. Porque este Leverkusen foi claramente inferior e mesmo assim conseguimos perder em casa. É uma derrota muito imerecida porque jogámos mais do que o suficiente para ganhar este jogo, mas o que conta são os zero pontos amealhados.
Estamos a confirmar o adágio de que aquilo que nasce torto tarde ou nunca se endireita: a derrota no primeiro jogo, face ao Qarabag, provavelmente vai acabar por ser o marco decisivo em toda a campanha europeia desta época.
Era uma deslocação difícil, como são em teoria todas as visitas ao Vitória em Guimarães, mas o Benfica acabou por passar no teste com distinção e arrancar uma vitória por números esclarecedores.

Depois da experiência frente ao Tondela, regressámos à fórmula apresentada frente ao Arouca, que tinha melhores resultados. A combatividade faz parte do ADN do Vitória, e portanto logo na fase inicial assistimos a uma tentativa de jogar com linhas subidas e ser agressivo na pressão por parte do nosso adversário, o que acabou por nos causar dificuldades. Não no aspecto de sermos dominados, porque a verdade é que o Vitória praticamente não criou uma ocasião flagrante de golo (a melhor que criou foi numa situação em que o seu avançado estava em posição claramente irregular), mas o Benfica não conseguiu assentar o seu jogo e ser consistentemente perigoso no ataque. As chegadas à área do Vitória eram esporádicas e pareceu-me que explorámos pouco o lado direito, acabando por ser o Prestianni quem foi mais vezes solicitado e apareceu envolvido em situações de maior perigo para o Vitória. No geral, pareceu-me que apesar de pouco esclarecido, ainda assim o Benfica foi superior durante a primeira parte (não sei mesmo que jogo é que o treinador do Vitória terá visto) mas faltava ser muito mais incisivo no ataque para poder ambicionar chegar à vantagem e vencer este jogo. Nos minutos finais da primeira parte, no espaço de três ou quatro minutos ficámos com três jogadores amarelados (Pavlidis, Sudakov e Prestianni) e isto poderá também ter influenciado as escolhas do nosso treinador ao intervalo.

Não houve aquela coisa tão típica de voltar igual na segunda parte e dar mais um tempo para ver se a coisa muda; após o intervalo o Prestianni (que conforme disse, até tinha sido dos mais perigosos do Benfica na primeira parte) e o Sudakov (mais um jogo apagado) já não regressaram, e nos lugares deles vieram o Schjelderup e o Barreiro. E e verdade é que o Mourinho acertou em cheio, porque o Benfica regressou transfigurado. O Barreiro, que em teoria é um médio de características mais defensivas, mostrou muito mais chegada à área do que o Sudakov e foi um parceiro muito mais presente para o Pavlidis. O Schjelderup, em vez de andar a perder-se em iniciativas individuais como habitualmente, teve sempre a preocupação de jogar para a equipa e acabou por proporcionar inúmeras situações de finalização para os colegas. E a direita do ataque passou a ser muito mais solicitada, onde o Lukebakio, a exemplo do Schjelderup na esquerda, teve quase sempre a preocupação de servir os colegas na área. Nos primeiros oito minutos o Benfica teve logo quatro situações flagrantes para marcar: cruzamento do Lukebakio, cabeceamento do Barreiro para defesa por instinto do guarda-redes, com o Pavlidis a falhar a recarga para a baliza vazia, de ângulo já apertado; cabeceamento do Ríos, depois de novo cruzamento do belga num canto à maneira curta, com a bola a passar ao longo da baliza e a tirar tinta ao poste; livre do Lukebakio, defesa apertada do guarda-redes para canto; e finalmente na sequência desse mesmo canto (marcado, obviamente, pelo Lukebakio) o Tomás Araújo apareceu a saltar à vontade no primeiro poste para cabecear para o golo. Foi o culminar lógico de um assalto constante à baliza do Vitória. E não demos sequer oportunidade para reacção ao adversário; foi bola a meio campo e o Benfica a voltar ao ataque. Depois, dois minutos a seguir ao golo o Vitória ficou reduzido a dez e tudo ficou ainda mais fácil. Não houve nenhum tipo de gestão de resultado, simplesmente passámos o resto do jogo a atacar e a construir ocasiões de perigo, podendo o resultado ter sido ainda mais dilatado. Marcámos mais dois golos, o primeiro deles aos sessenta e dois minutos pelo insuspeito Dahl, que apareceu na área a recolher uma bola que o Barreiro tinha sido incapaz de desviar após cruzamento do Aursnes, e descaído para a esquerda rematou forte para o golo, com a bola ainda a tocar na trave. O terceiro aos oitenta e sete, quando o Schjelderup ofereceu mais uma oportunidade de finalização aos colegas, desta vez ao Barrenechea, que rematou à entrada da área para defesa do guarda-redes (pouco antes, da mesma zona, tinha estado muito perto de marcar, sendo negado pelo guarda-redes) e o recém-entrado João Rego apareceu junto ao poste direito a fazer a recarga.

O homem do jogo foi para mim o Lukebakio, que naquele reinício de jogo arrasador do Benfica esteve em todas. É o principal desequilibrador que o Benfica tem no plantel, e quando coloca isso ao serviço da equipa, os resultados estão à vista. Muito boas entradas no jogo do Barreiro e do Schjelderup, que ajudaram a mudar o jogo. Já tinha dito que no jogo com o Arouca o Dahl tinha estado bastante melhor, e neste jogo voltou a estar. Está a fazer aquilo que os benfiquistas esperam que um lateral faça no Benfica: que seja um apoio constante ao ataque, e parece que finalmente começa a perceber isso e que tem que ser muito mais agressivo nas subidas no terreno. Desta vez foi recompensado com um golo, pode ser que isso o motive a continuar. Jogo também bastante positivo do Barrenechea, e cada vez mais parece que o António Silva terá dificuldade em recuperar o lugar (embora vá quase de certeza jogar já no próximo jogo, já que o Otamendi terá que cumprir suspensão).
Segue-se novo jogo com vitória mandatória, sob pena de arrumarmos as nossas aspirações europeias. Para que tal aconteça, precisamos do Benfica que apareceu no início da segunda parte. As minhas expectativas para o Benfica do Mourinho nunca foram e continuam a não ser de futebol espectáculo. Mas espero uma equipa tacticamente organizada e em que cada jogador saiba exactamente o que fazer em campo, e isso parece-me estar progressivamente a acontecer. Além disso, agrada-me a capacidade que tem para ler o jogo e a forma muito clara e objectiva como depois consegue sempre explicar e justificar as opções que toma. Na primeira passagem do Mourinho pelo Benfica foi precisamente em Guimarães que eu achei que a equipa tinha dado o chamado 'clique', quando lá fomos golear por 4-0 com um hat trick do João Tomás. Pode ser que a história se repita.
Exibição monótona, resultado generoso e obrigação cumprida

Foram feitas cinco alterações no onze, mas nada de muito radical: Samu na baliza, António Silva na defesa, Barreiro no meio campo, e Ivanovic e Schjelderup no ataque. Foi daqueles jogos em que ao fim de dez minutos já estava a contemplar a minha opção de ter ido ao estádio ver o jogo, porque ficou óbvio que o Benfica não estava com grande vontade de imprimir um ritmo elevado no jogo, e que a inspiração não era grande. Foi um jogo francamente cinzento, em que na primeira meia hora o Benfica fez um único remate, pelo Lukebakio de um ângulo quase impossível (estava praticamente sobre a linha de fundo). Muitos passes laterais, muitas perdas de bola desnecessárias, e pouco atrevimento. A excepção foi, já depois da meia hora, finalmente um bom passe em profundidade para o Ivanovic rematar cruzado e obrigar o guarda-redes a uma boa defesa. É para mim um problema no Benfica jogarmos muito pouco para o ponta-de-lança. O Pavlidis acaba por estar em jogo porque ele sai da sua posição para vir buscar jogo muito atrás (às vezes chegamos a vê-lo até nas zonas laterais da nossa área), porque se ficasse só à espera que a bola lhe chegasse, passaria a maior parte do jogo a ver jogar. Chegámos ao golo a cinco minutos do intervalo através de um penálti que pelos vistos é polémico, obviamente, já que foi a favor do Benfica. Normalmente seria daqueles penáltis parvos em que o jogador não tem o braço em 'posição natural', mas neste caso há que entrar em conta com o desenrolar da jogada, a distância a que o Barreiro cabeceou a bola, a direcção em que a bola ia, etc. Provavelmente seria melhor que não o tivessem assinalado mesmo, para calar o berreiro. O Otamendi encarregou-se de o marcar, para assinalar o seu 250º jogo pelo Benfica com um golo.

A segunda parte iniciou-se da melhor maneira, com uma rara boa jogada do Benfica que terminou num golo bonito: um passe vertical do Barreiro para a desmarcação do Lukebakio, que na área tocou de calcanhar para a finalização de primeira do Sudakov, com um remate de pé esquerdo em arco. Acto contínuo, longos minutos em análise no VAR, e quando isto acontece obviamente que já se sabe que estão a cozinhar alguma coisa. O golo acabou anulado por fora de jogo de um centímetro do Lukebakio. Os que berram pelo penálti como um crime lesa-futebol já não estão obviamente preocupados com este lance. Um golo que é anulado por um fora-de-jogo de um centímetro (ou dois, ou cinco) simplesmente é anulado porque na cabine do VAR decidiram que não queriam que fosse golo. Não há qualquer ciência nisto, as linhas são colocadas à mão, e quando se coloca uma linha a assinalar um fora de jogo por uma margem que é inferior à definição de um pixel (num ecrã de 4K) então é mesmo porque se decidiu à partida que não ia ser golo. Isto sim (e ainda o tempo que o jogo fica parado à espera de uma decisão) é um crime lesa-futebol. O jogo na segunda parte não foi tão parado como na primeira, sobretudo depois da altura em que o Mourinho começou a lançar titulares do último jogo. Entraram o Pavlidis e o Prestianni, depois o Ríos, e a sete minutos do final lá surgiu outro lampejo no jogo, quando o Ríos, lançado pelo Pavlidis, partiu numa cavalgada até à área e aí chegado, sobre a esquerda, literalmente deitou o defesa do Tondela no relvado com duas simulações e assistiu o Lukebakio do lado oposto para rematar à vontade para a baliza. Foi a melhor coisa que vimos o Ríos fazer desde que cá chegou. Já mesmo sobre o final, tempo para o recém entrado Rêgo recuperar uma bola sobre a direita da área do Tondela e depois o Barreiro colocá-la no interior da área, onde o Pavlidis teve uma finalização de classe, fazendo com um toque de primeira de pé esquerdo a bola entrar junto ao poste mais distante.

Não consigo escolher um jogador que se tenha destacado. Foi uma exibição também monótona nesse aspecto, sem que alguém tivesse brilhado, ou estado muitos furos abaixo da média.
Cumprida a obrigação, certamente para satisfação dos organizadores desta prova, que todos os anos inventam novas formas de assegurar a maior probabilidade possível de termos sempre as mesmas quatro equipas na final a quatro. Seguem-se dois jogos de dificuldade bastante mais elevada, em que a vitória é imperativa. Para a liga, não podemos perder mais terreno para o primeiro lugar, e para a Champions, qualquer resultado que não seja uma vitória significará o fim de quaisquer ambições em seguir para a próxima fase.
O Benfica voltou a ter duas asas e aproveitou para se consolar da derrota incontestável em Newcastle com uma goleada ao Arouca, num jogo em que nunca chegou a ter oposição digna desse nome.

Duas alterações no onze: saíram o António Silva e o o Dedic para o regresso do Dahl e a entrada do Prestianni. O Aursnes mudou da esquerda do meio campo para a direita da defesa, e o Tomás Araújo deixou a esquerda da defesa ao Dahl para regressar à sua posição natural no meio. Com a presença do Prestianni bem encostado à esquerda, o Sudakov acabou por ocupar uma posição central quase ao lado do Pavlidis, apresentando-se o Benfica praticamente num 4-4-2. Notou-se desde o início a vontade do Arouca repetir o feito da última época e ser uma equipa incómoda, com todos os seus jogadores a entrarem 'acelerados' e a tentar pressionar no campo todo, mas o jogo muito cedo se inclinou para o nosso lado. Logo aos cinco minutos, o VAR assinalou um penálti por braço claro na bola na sequência de um livre do lado esquerdo do nosso ataque, que o árbitro de campo não tinha inicialmente assinalado. O Pavlidis transformou-o com a eficácia do costume, bola para um lado a entrar bem junto ao poste, guarda-redes para o outro. Nunca vimos uma pressão sufocante por parte do Benfica nem um acumular de ocasiões de golo, mas o jogo disputava-se quase sempre no meio campo do Arouca, sem que deixássemos que o Arouca tivesse aproximações perigosas à nossa baliza. A importância de termos um jogador como o Prestianni na esquerda foi passarmos a ter mais um jogador que, quando recebe a bola, imediatamente vai para cima do adversário e tenta progredir em direcção à baliza, em vez de travar o jogo e lateralizar, que é aquilo a que temos estado mais habituados. Com isto dá para criar incerteza na defesa adversária, e tendo o Lukebakio do outro lado isto acontece em ambas as alas. O segundo golo nasce de um penálti cometido precisamente sobre o Prestianni aos vinte minutos, após uma combinação com o Dahl. Mais uma vez o árbitro principal não viu, mas o VAR alertou-o para o lance e o Pavlidis voltou a converter com um remate igual ao primeiro, mesmo tendo o guarda-redes desta vez adivinhado o lado. O único verdadeiro sobressalto que o Benfica teve durante o jogo veio depois disso, quando um passe disparatado do Sudakov isolou um adversário, que acabou por rematar ao lado. No último lance da primeira parte, após a marcação de um canto o Otamendi subiu ao terceiro andar na zona do segundo poste para fazer o terceiro golo e deixou o jogo resolvido.

Na segunda parte, com o Arouca a resolver jogar o jogo pelo jogo, provavelmente numa lógica de 'perdido por um, perdido por cem', até achei que aproveitámos o espaço para jogar com um pouco mais de velocidade e criar mais ocasiões de perigo, mas sem conseguir marcar tantos golos como na primeira parte. Tivemos diversas situações de transição após recuperaçoes alta da bola que se perderam por más decisões ou definições dos lances. Até começou bastante bem, com um golo madrugador do Pavlidis para completar o hat trick. Mérito para o Prestianni, que não desistiu do lance e conseguiu ganhar uma bola aérea à defesa do Arouca e depois tocou imediatamente de primeira para o grego, que progrediu para o meio, teve alguma felicidade num ressalto e aproveitou a hesitação da defesa para finalizar com um remate rasteiro e cruzado. Depois disso foi passar a segunda parte a ver o Benfica sempre a controlar o jogo mas a desperdiçar situações perigosas. O Lukebakio esteve em destaque pela negativa em muitas situações por optar quase sempre pelas jogadas individuais em detrimento do passe para colegas em melhor posição. Pena que o Prestianni, pouco antes de ser substituído, tenha visto o guarda-redes negar-lhe o golo que fez por merecer com uma boa defesa. Com o jogo resolvido, o Mourinho fez a coisa lógica que acho que toda a gente espera: substituições atempadamente (em vez de esperar pelos minutos finais do jogo) e aproveitar para dar minutos não só aos menos utilizados mas também para ir lançando jogadores da formação. Foi assim que, para além do Ivanovic, Barreiro e Schjelderup, também o Rêgo e o Ivan Lima tiveram a oportunidade de estar em campo durante algum tempo, com o último a estrear-se oficialmente no campeonato pela equipa principal. Ainda fomos somando mais algumas jogadas de perigo, o Rêgo teve um golo bem anulado por fora-de-jogo, e já na compensação chegámos ao quinto golo com mais um penálti, ganho pelo Rêgo depois de conseguir antecipar-se a um defesa, que o Ivanovic converteu.

Inevitavelmente o Pavlidis é o home do jogo, graças aos três golos marcados. O Prestianni é um dos destaques para mim, e deu-me gosto ver o Benfica jogar novamente com dois extremos a sério. Não sei se por via de ter precisamente um extremo à sua frente, o Dahl fez um dos jogos mais conseguidos que o vi fazer no Benfica. Não teve grande oposição, é certo, mas defendeu bem e até se aventurou bem no ataque. O António Silva pode ter a titularidade em perigo, já que o Otamendi é intocável e os erros que ele tem cometido abrem a porta ao Tomás Araújo, que tem sobre ele a vantagem de ter uma muito maior qualidade de passe na saída de bola. O Sudakov fez o pior jogo no Benfica, acumulando maus passes e decisões. E o Ríos, parece-me que neste momento já é um jogador condicionado, jogando com receio e vi-o por mais do que uma vez a nem sequer querer arriscar um passe mais atrevido, provavelmente por receio de falhar.
Foi uma vitória que fazia falta a esta equipa. A obrigação de ganhar existia sempre, mas foi importante fazê-lo de forma tranquila e vincada. Não foi, mesmo assim, uma exibição deslumbrante, foi simplesmente a imposição da ordem natural das coisas, ou seja, o Benfica é superior ao Arouca e isso acabou por se reflectir no resultado, mesmo que sem nota artística alta ou motivos para euforias. Mas foi, repito, importante ganhar desta forma.
P.S.- Quanto às eleições, foi uma demonstração enorme de vitalidade do clube e a participação superou todas as expectativas. Não estou nada surpreendido pelo resultado final, apenas um pouco pela diferença entre as duas listas mais votadas, que esperava que fosse menor. Agora é esperar pela segunda volta.
Uma exibição bastante pobre, na qual ficou bem evidente a diferença de andamento do Benfica para o Newcastle, resultou na terceira derrota no mesmo número de jogos na Champions, esta por números claros (que ainda poderia ter sido pior).
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A surpresa no onze foi a presença do Tomás Araújo na esquerda da defesa, justificado pelo Mourinho como uma tentativa de dar mais argumentos ao Benfica no jogo aéreo. Compreendo a argumentação, mas pode ser uma embirração minha, que sempre que eu vejo o Benfica fazer estas adaptações fico logo incomodado e com expectativas baixas para o jogo em questão. Estou sinceramente farto de, ao longo destes últimos anos, estar constantemente a ver-nos fazer adaptações. Foi com o JJ, o Schmidt, o Lage, e agora o Mourinho. Isto irrita-me, e irritou-me ainda mais ver o Benfica acabar o jogo com o Tomás Araújo a lateral esquerdo, o Aursnes a lateral direito, e o Ivanovic a extremo esquerdo. Quanto ao jogo, ainda mantivemos a ilusão de algum equilíbrio durante a primeira parte, em que tivemos algumas ocasiões de golo pelo Lukebakio (incluindo uma bola que ainda bateu na parte de fora do poste) mas quando numa saída de bola disparatada entregámos a posse ao adversário à saída do nosso meio campo, fomos apanhados em contra-pé e sofremos o primeiro golo. Foi pouco depois da meia hora e sinceramente, assim que o nulo foi desfeito fiquei com poucas ou nenhumas ilusões de que sairíamos de Inglaterra com outro resultado que não a derrota. Na segunda parte, depois da lesão do Dedic fizemos a única substituição no jogo, entrando o Ivanovic para a ponta esquerda e movendo o Aursnes para a lateral direita. A partir daí foi o descalabro completo, que começou com o segundo golo a surgir num lance quase de amadores, a partir de um lançamento com as mãos por parte do guarda-redes do Newcastle depois de um canto a nosso favor, com o António Silva a errar de forma flagrante ao falhar a intercepção da bola. Depois veio o terceiro, e mais não vieram por felicidade ou intervenção do Trubin, porque a partir de dada altura a nossa equipa pareceu-me completamente perdida em campo, com os jogadores desligados uns dos outros e a jogar cada um para si.
O Lukebakio acabou por ser quem se evidenciou mais por estar em todos os lances de algum perigo que conseguimos criar. Para além dele, só talvez o Trubin, que evitou um resultado mais pesado.
O resultado e a exibição nada vão contribuir para aumentar a confiança desta equipa. Continuamos a não ver grande evolução e acho aliás que o que se vê é involução, porque vi-nos jogar de forma bem mais sólida no início da época. Acho que é imperativo não apenas ganhar os próximos dois jogos em casa, mas também apresentar um futebol positivo e ganhá-los de forma clara.
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